SAAB ACENA COM MONTAGEM PARCIAL DO AVIÃO GRIPEN E/F EM PORTUGAL
2026-04-24 21:06:09

Avião nórdico candidato à substituição do F-16 já conta com componentes portugueses e tecnologia da Critical Software A sueca Saab está aberta à montagem parcial em Portugal do caça Gripen E/F, um potencial substituto dos F-16 da Força Aérea Portuguesa (FAP), que estão em final de ciclo. “Creio que essa é uma parte fundamental do que estamos a discutir, ou do que gostaríamos de discutir. Ou seja, o Gripen vem acompanhado de uma parceria”, disse ontem ao PÚBLICO, em Linköping, na Suécia, o vice-presidente da companhia e director da área de desenvolvimento de negócio do Gripen, Daniel Boestad. “Não estamos apenas a vender um avião. Não é bem esse o nosso papel. Procuramos criar uma boa parceria com o cliente, mas também com a indústria local. E penso que isso é, para nós, um elemento-chave em qualquer proposta”, reforçou, apontando para uma necessidade crescente de aumentar a capacidade de produção da aeronave. “Procuramos constantemente parceiros e parcerias por toda a Europa e pelo mundo.” A Saab já tem memorandos de entendimento activos com a OGMA e a Critical Software, “duas empresas muito capazes, com um grande potencial para maior cooperação e colaboração”. A Critical, “uma história de amor entre os engenheiros” da Saab, afirmam os suecos, tem estado a colaborar na vertente de inteligência artificial (IA) do Gripen E/F, e concretamente no desenvolvimento de um sistema de treino dos pilotos do caça sueco. Já em relação à OGMA, a que a empresa nórdica reconhece elevada competência técnica, perspectiva-se uma colaboração mais profunda na manutenção e reparação e, possivelmente, na montagem final dos aparelhos. Johan Segertoft, outro responsável pela área de negócio do Gripen, afirma que a continuidade da actual relação entre a Saab e as empresas portuguesas não depende da eventual escolha do caça sueco pelo Governo da AD, e Boestad sublinha que “Portugal já está a participar no fabrico do Gripen”, também através da Kristaltek, da Vangest e da unidade lusa da ThyssenKrupp. Mas o histórico emblema nórdico sinalizou junto dos jornalistas portugueses presentes esta semana em Linköping que a ligação pode crescer e alargarse a outras companhias se o Ministério da Defesa, liderado por Nuno Melo, optar pela aeronave. O processo de escolha do substituto dos F-16 ainda não foi formalmente iniciado pelo Governo. Em Março, contudo, Nuno Melo declarou em entrevista ao PÚBLICO e à Renascença que Portugal estava a ponderar adquirir aeronaves europeias e não apenas o F-35 da Lockheed Martin, citando a alteração do quadro político em Washington. “O mundo já mudou. Houve eleições nos EUA, houve uma posição em relação à NATO e ao mundo, afirmada pelo secretário para a Defesa e pelo próprio Presidente dos EUA, que tem de ser tida em conta também na Europa e no que tem que ver com Portugal”, declarava então o ministro da Defesa, sublinhando haver “várias opções que têm de ser consideradas, nomeadamente no contexto de produção europeia e também tendo em conta o retorno que essas opções possam ter para a economia portuguesa”. O Brasil e o factor Embraer Com o processo de decisão política por iniciar, e devido à natureza sigilosa do sector da defesa, a Saab recusa avançar qualquer valor concreto sobre um eventual investimento na economia portuguesa, indicar quantos postos de trabalho poderiam ser criados ou descrever o processo de montagem que a OGMA poderia assumir. É público, no entanto, o modelo de colaboração e de transferência de tecnologia dos suecos com o Brasil. Em 2014, Brasília acordou a produção nacional de cerca de metade dos 28 Gripen E (a versão monolugar do caça sueco) e dos 8 Gripen F (a versão de dois lugares), adquiridos para a sua Força Aérea. O primeiro Gripen brasileiro (e o primeiro avião supersónico produzido na América Latina), designado localmente por F-39 Gripen, foi apresentado há precisamente um mês na fábrica de Gavião Peixoto, no estado de São Paulo. O projecto emprega directa e indirectamente mais de dez mil trabalhadores no país lusófono, com a Embraer como principal parceira da Saab. A Embraer é sócia prioritária da OGMA e já tem em Évora a produção de componentes do seu KC-390, o sucessor do C-130. O KC-390 foi recentemente certificado para realizar reabastecimentos em pleno voo do Gripen E/F, e o quarto avião da Embraer entregue a Portugal já conta com um kit de reabastecimento aéreo. Perante a mais avançada proposta norte-americana no mercado, o caça de “quinta geração” F-35, Boestad contrapõe que o Gripen E/F ”é o avião mais moderno a voar hoje em dia”, capaz “de se adaptar rapidamente a diferentes novas ameaças e cenários”. A Saab afirma que, ao longo dessa vida útil, o custo total de aquisição e operação do Gripen E/F equivale a um terço do valor dos seus concorrentes directos, graças a um reduzido custo de manutenção e utilização. O caça sueco pode aterrar em 800 metros de estrada, fora de uma base aérea, ser reabastecido em menos de dez minutos e voltar prontamente aos céus. A Saab estima que a disponibilidade de uma frota de Gripen E/F em qualquer momento é superior a 80% (ou seja, que apenas um quinto dos aparelhos estejam em manutenção), o dobro da percentagem atribuída aos concorrentes, aumentando a rentabilidade do investimento. O PÚBLICO viajou a convite da Saab Não estamos apenas a vender um avião. Não é bem esse o nosso papel. Procuramos criar uma boa parceria com o cliente, mas também com a indústria local Daniel Boestad Vice-presidente da Saab O caça Gripen E/F da marca sueca surge no mercado para concorrer com o avião de “quinta geração” F-35 Pedro Guerreiro