LAURENT GARDINIER - “O LUXO NÃO É APENAS O DINHEIRO E TUDO O QUE ESTE PODE COMPRAR”
2026-04-25 21:05:33

Para o presidente da Relais & Châteaux, na equação do luxo entram também as emoções que a hospitalidade consegue criar. aHá 72 anos, quando os proprietários de oito pequenos hotéis, situados entre Paris e Nice, se uniram para comprar uma página de anúncios num jornal sob o slogan Rota da Felicidade, porque individualmente não tinham condições para o fazer, como conta à Fugas Laurent Gardinier, dificilmente podiam prever naquilo que se tornaria a Relais de Campagne, que deu origem à Relais & Châteaux (R&C). Hoje, esta associação integra 580 propriedades, espalhadas por 65 países. Mas há algo que não mudou desde aí: “Continuamos a ser uma associação de hotéis independentes e isso talvez faça a grande diferença em relação a qualquer outro tipo de organização do sector hoteleiro”, resume o presidente da R&C, na sua passagem por Lisboa. Laurent Gardinier, que assumiu a presidência da associação em 2023, embora a sua ligação à marca tenha começado como proprietário do Domaine Les Crayères em Reims (além deste, é ainda dono do restaurante Le Taillevent, em Paris), é um apaixonado pelo detalhe e elogia a hospitalidade portuguesa. Quanto ao futuro assume que é preciso reduzir a pegada de carbono da mobilidade e pensar soluções para o sobreturismo. O que é a R&C? Somos constituídos por propriedades independentes que reflectem a comunidade, e que oferecem a melhor experiência local que se pode ter em termos de hospitalidade, arquitectura, jardins, design e serviço. Mas tudo isso de acordo com o local onde se situa a propriedade. A hospitalidade é diferente no Japão, na América do Sul, em África, na Europa, etc.. E, depois, ainda há a gastronomia, os nossos restaurantes têm de mostrar o melhor da cultura gastronómica local onde operam. Ainda hoje se vive um espírito de família nas propriedades R&C? Sem dúvida e esperamos que assim permaneça, é algo que está enraizado no nosso ADN. Querem continuar a crescer? Enquanto encontrarmos propriedades que correspondam ao ADN e à essência da R&C, podemos crescer. Mas não temos números para atingir. Como é feita a avaliação para entrar na R&C? É um processo bastante complexo, rigoroso, racional e honesto. Por ano, recebemos cerca de 600 candidaturas. Se a propriedade cumprir todos os requisitos, enviamos um inspector, que fará uma análise minuciosa de cerca de 500 pontos, que abrangem os aspectos emocionais e técnicos da experiência do hóspede, bem como a sustentabilidade, e dará origem a um dossiê com toda a informação. Se acharmos que estão em consonância com os nossos valores, entrevistamos os proprietários. Depois, o conselho de administração votará a integração ou não da propriedade. Os inspectores são anónimos? Ninguém sabe quem são e quando vão fazer a avaliação. E para manter a conformidade, fazemos inspecções de dois em dois anos sempre de forma anónima e com os mesmos critérios. Em 2024, assinaram uma parceria com a UNESCO para o desenvolvimento e implementação conjunta de projectos de sustentabilidade, porquê? Na verdade, quando decidimos escrever os compromissos [”Em Harmonia com Todas as Formas de Vida Terrestres: Os Nossos 12 Compromissos em Matéria de Sustentabilidade”], decidimos pensar sobre qual era a essência da R&C e percebemos que nos encaixávamos na promoção da cultura local através da hospitalidade e da promoção da gastronomia como arte. Depois, promovemos o desenvolvimento das pessoas que trabalham nos nossos hotéis e restaurantes. Tudo isto encaixa-se perfeitamente com o propósito da UNESCO: preservar a cultura local através de uma arte que é a arte de acolher. A sustentabilidade para a R&C vai além da ambiental, como a responsabilidade social? Quando se fala de sustentabilidade, pensamos, por exemplo, no não-uso de plástico. Mas é muito mais abrangente, faz também parte da relação que temos com a interacção humana e com os recursos humanos. Como actuam junto dos membros? Não gerimos propriedades, por isso, cada membro é responsável pelo seu próprio negócio. Mas é fundamental que esteja em conformidade com as normas e regras sociais do seu país, que podem ser diferentes no Botswana, África do Sul, Marrocos ou Portugal. Além disso, promovemos, através de uma plataforma, ferramentas de sustentabilidade, de igualdade de género, e de interacção com a comunidade local. Actuamos como consultores, fornecendo as regras e monitorizando a qualidade. Em Portugal existem 14 projectos com o selo R&C. Que avaliação faz? A hotelaria em Portugal está em grande desenvolvimento e a crescer muito rapidamente, com muitas iniciativas estratégicas a serem tomadas pelos principais players do sector, para acolher os hóspedes, criar destinos, valorizar e aproveitar o extraordinário património histórico de Portugal e considerá-lo como uma mais-valia para o país enquanto destino turístico. Em Portugal, 11 dos restaurantes R&C têm estrela Michelin, isso mostra o nível que a associação pretende atingir na gastronomia? Sem dúvida. Somos a organização gastronómica mais forte do mundo. Para nós, a hospitalidade tem de estar directamente ligada à gastronomia, pois a comida também faz parte da vertente cultural e os restaurantes em Portugal têm um elevado nível. A de nição de luxo tem vindo a mudar. Isso alterou também a de nição de luxo da R&C? É uma boa pergunta. Há uma frase, da qual gosto muito, que diz que “tudo tem de mudar para se manter igual”. Se não nos adaptarmos ao mundo em que vivemos, perdemos a razão de ser. Mas se considerarmos que a missão de uma marca é apenas adaptar-se ao mundo em que está inserida, então perdem-se as raízes e a identidade. É aqui que reside a complexidade da gestão. Acredito que se trata de um diálogo, muito mais do que um simples sim ou não. O que é hoje o luxo? O luxo não é apenas o dinheiro e tudo o que este pode comprar. É preciso que hoteleiros, proprietários de restaurantes e chefs compreendam que as emoções que serão capazes de criar farão parte da experiência de luxo de um hóspede. A beleza da paisagem, o silêncio que irão experienciar, a arquitectura que os acolherá, a qualidade da comida local farão parte de uma experiência holística. É claro que isto terá um preço, mas quando se paga, não se trata apenas de dinheiro. Para mim, o luxo tem que ver com tempo, espaço, comida, vinho, serviço, não apenas com a hospitalidade tangível. Quando está num hotel, o que é importante para si? Ao entrar, é preciso sentir que tudo está absolutamente alinhado com o seu propósito. A coerência da propriedade é algo muito importante e esta coerência é medida pelos pequenos detalhes. Quais são os principais desa os na área da hospitalidade? Os desafios que temos de considerar, é que vamos atravessar um período turístico muito intenso, diria eu, sobretudo com a vinda de indianos, que ainda não viajam tanto quanto poderiam, tendo em conta o potencial que têm, tal como os chineses. Imagine-se então que, dentro de 20 anos, teremos cinco Airbus por dia vindos de Nova Deli, cinco de Bombaim, e o mesmo da China. O que se vai fazer com todas estas pessoas no centro de Lisboa? Este é um desafio, porque o tamanho dos centros da cidade, como Paris, Londres, Veneza, não vão crescer e os turistas estão nestas cidades para ver a mesma coisa. O excesso de turismo para mim é um desafio não só para a R&C, mas para a indústria em geral. Qual é a solução? Teremos de ver como é possível manter estes locais abertos para todos, independentemente da sua condição financeira, mas também como impor algumas restrições para não comprometer o propósito destas viagens. Este é o desafio. Acredito que a R&C pode ser uma forma de responder a este desafio. As nossas propriedades são pequenas, têm escala humana e dedicam-se a mostrar a cultura local. E quais serão as oportunidades? Para a R&C, as oportunidades, estrategicamente falando, é expandir-se para regiões onde ainda não temos uma presença muito forte, como o Sudeste Asiático. E, num contexto mais global, quanto mais as pessoas descobrem outras culturas, mais abertas se tornam e mais orientadas para a paz do que para a guerra. Por falar em con itos, os membros da R&C já sentem a guerra no Médio Oriente? Como afecta principalmente os países asiáticos e os do Médio Oriente, onde não temos muitas propriedades e esses não são também os principais mercados emissores dos nossos hóspedes, que na sua maioria são da Europa Ocidental e dos EUA, com excepção do Japão, não estamos a ser muito afectados nos nossos negócios por esta guerra. Pelo menos por enquanto. Sabemos que num espaço de uma hora, tudo pode mudar. Como vê o futuro do turismo? Brilhante. Em primeiro lugar, como sabe, o turismo é uma forma de integrar milhares de pessoas no mercado de trabalho. Em muitos países, é talvez uma das principais fontes de receitas do PIB, por isso, é um activo muito importante para a integração e desenvolvimento económico e uma das principais formas de desenvolvimento mundial. Mas há um desafio: o turismo depende da mobilidade e esta em termos de sustentabilidade, não é a melhor opção. Sejam carros, aviões, barcos, o que quer que seja, a mobilidade representa talvez 20% da pegada de carbono mundial. Portanto, é preciso reduzi-la. Mas considerar o turismo sem mobilidade é praticamente impossível, porque a essência do turismo é movimentarmo-nos. Então, o que é preciso fazer? Cada player precisa de se concentrar e encontrar a sua vantagem competitiva. A nossa não é melhorar a eficiência de um motor de um Boeing ou de um Embraer, mas temos a vantagem do nosso compromisso com a sustentabilidade. Assim, podemos considerar que o turismo, enquanto sector, irá melhorar muito em termos de pegada hídrica e de carbono, tornando-se, diria eu, mais eficiente do que é hoje. O turismo, através das viagens, desde que seja um sentido de descoberta, é muito positivo, e dá-nos muitas razões para estarmos optimistas em relação aos próximos dez, 20 ou 30 anos. Que conselhos daria aos jovens que queiram ou estejam a trabalhar na área da hotelaria? Continuem, continuem, continuem. Porque é uma área fantástica para descobrir e construir a sua personalidade e expandir horizontes. Se gostam e têm o perfil para servir pessoas, nesta área há muito para fazer e muitas competências para desenvolver. É uma história sem fim. Dentro da associação tem algum hotel favorito? Francamente, todos os membros da nossa associação são lindíssimos e já tive a oportunidade de experimentar muitos. Os padrões de qualidade estão lá, mas por vezes são as experiências muito marcantes que fazem a diferença. Isso aconteceu-me no Japão, porque é uma hospitalidade que representa o máximo da elegância e de conteúdo cultural, muito diferente do que vemos no mundo ocidental e isso para mim foi uma descoberta absolutamente incrível. Por outro lado, destaco a experiência sul-africana, próxima da vida selvagem, juntamente com uma hospitalidade maravilhosa, é absolutamente espectacular. + A Relais & Châteaux em Portugal Portugal tem 14 membros com o selo da Relais & Châteaux, entre hotéis e restaurantes. São eles o Vista Hotel & Spa, na Praia da Rocha; o Belcanto e o Valverde Lisboa Hotel & Garden, em Lisboa; a Casa da Calçada, em Amarante; a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira; a Casa de São Lourenço, na Serra da Estrela; a Casa Velha do Palheiro, no Funchal; a Fortaleza do Guincho; a Herdade da Malhadinha Nova, em Albernoa; a Quinta Nova Winery House, no Douro; o The Yeatman, no Porto; o Valverde Santar Hotel & Spa, em Santar; o L and Vineyards, em Montemor-o-Novo; e o Hotel Vermelho, em Melides Duas das propriedades que fazem parte do portefólio Relais & Chateaux: a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Winery House, no Douro (em cima) e a Casa de São Lourenço, na Serra da Estrela (em baixo) Rita Caetano