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TRUMP FOI A REBOQUE DO IRÃO AO CANCELAR NEGOCIAÇÕES?

Observador Online

2026-04-26 13:42:03

Pedro Ponte e Sousa, especialista em defesa, afirma que Trump prefere a coação à diplomacia. E ainda, o novo encontro esperado na capital do Paquistão este fim de semana que não aconteceu. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Gabinete de Guerra, edição de fim de semana na Rádio Observador. O ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente com o professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense, Pedro Ponte e Sousa, especialista em defesa, geopolítica e conflitos internacionais. Muito bom dia. Bom dia, muito obrigado pelo convite. Vamos ter que começar, inevitavelmente, por este incidente no jantar de correspondentes da Casa Branca. Estava Donald Trump, Melania Trump e também vários membros da administração norte-americana, também o diretor do FBI, neste local, quando se ouviram disparos numa sala ao lado e houve depois a retirada do presidente norte-americano, da mulher, e acabou por ser um incidente sem danos de maior, ninguém ficou ferido. Houve um agente que foi baleado, mas tinha colete salva-vidas e, portanto, acabou por, apesar de tudo, não haver incidentes de maior. Mas trazia aqui também este incidente para o Gabinete de Guerra, porque Donald Trump disse com todas as letras que não teve nada a ver com a guerra no Irão. É uma ilação que podemos tirar desde já? Ainda não se sabe grande coisa. Estamos à procura, estamos a procurar compreender quem é o suspeito deste disparo, o Cole Thomas Hall. Há algumas informações sobre o seu percurso. Para já, de facto, não parece haver qualquer relação, mas ao mesmo tempo Donald Trump também já disse que isso não vai fazer parar os avanços militares e políticos que os Estados Unidos têm tentado contra o Irão. Eu diria que neste momento, de facto, nós não temos informações suficientes para explicar esta tentativa de ataque, no sentido de quem era esse indivíduo e, sobretudo, quais poderiam ser motivações mais amplas do ponto de vista político, se disso se tratar. O que julgo que seria importante compreendermos seria darmos um passo atrás, porque o que temos verificado na política americana ao longo da última década é um significativo aumento da violência política. E esse grande aumento da violência política é em larga medida devido a Trump e ao seu movimento MAGA. É importante explicá-lo, não com isto dizendo, naturalmente, que este ataque é causado por Trump. O que estamos a querer dizer é que o contexto de desumanização, de polarização é em larga medida devido a Trump, a normalização de uma retórica política muito agressiva. Está a fazer ricochete aqui, no fundo. Isso, com insultos, com linguagem desumanizante, com grande apoio a quem utiliza a força e a agressividade. Para além disso, quando ele se desliga das instituições políticas democráticas, quando de alguma forma lhes tira a legitimidade, às eleições, aos tribunais, aos mídia, legitima a violência que procure corrigi-la. É o caso evidente do seis de janeiro, do ataque ao Capitólio, ou seja, de um ataque em grande escala patriótica, digamos, e que abre, alimenta essa lógica extremista. E depois, todos os outros aspectos que também já vimos no comportamento do Donald Trump ao longo deste tempo. Amplificação de teorias da conspiração e de grupos que sustentam essas teorias e, portanto, veem a violência como uma forma de corrigir o mal ou a traição, ou o que quer que seja, alinhamento com grupos extremistas, ou dando apoio, como Donald Trump diz, "very fine people", portanto, de alguma forma legitimando a sua ação. Tudo isso aponta no sentido especialmente perigoso de que sempre que tem havido violência que seja conotada à direita, Trump neutraliza, normaliza ou até a justifica. Pior ainda, à direita não tem havido uma especial condenação, as elites republicanas não se opuseram propriamente a este extremismo quando ele aconteceu. E isto, de facto, cria um caldo especialmente problemático que poderá certamente passar para lá do mero mandato de Donald Trump destes anos, e isso terá consequências certamente mais futuras sobre a democracia americana. Entretanto, neste fim de semana estávamos todos à espera de negociações em Islamabad, capital do Paquistão, entre Estados Unidos e Irão, por causa da guerra no Médio Oriente, mas as negociações não aconteceram. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão foi para Islamabad ainda na sexta-feira. Também disse que estava lá para dar conta ao mediador de alguns pontos do Irão, não propriamente para um encontro, mas era um encontro que era esperado por toda a gente e os enviados especiais norte-americanos estariam a caminho, mas afinal Donald Trump acabou por cancelar esta viagem. Diz que seria uma perda de tempo. Foi aqui Donald Trump a reboque dos iranianos, embora queira parecer que não. Como é que olha para este cancelamento? A verdade é que o Irão tem sido bastante claro quanto a este processo negocial e aquilo que são linhas vermelhas, necessidades e ao propósito de que um processo negocial implica em si mesmo negociação. E aquilo que o Donald Trump está a fazer, em certo sentido, não é realmente negociação. Negociar contra alguém que tem uma faca colocada ao nosso pescoço não é propriamente negociação. Podemos chamar-lhe coação, coerção, etc., mas é difícil chamar-lhe negociação. Vimos isso no passado. Sabemos que existiam negociações em curso bastante bem-sucedidas quando os Estados Unidos e Israel decidem iniciar esta agressão há cerca de seis semanas, assim como também sabíamos que existia diplomacia e negociação a decorrer com Nicolás Maduro quando se dá o rapto e o sequestro de Nicolás Maduro. Isto cria, de facto, um problema. Por um lado, o Irão temTem toda a disponibilidade para negociar, como já se percebeu, sendo certo que não vai facilmente abdicar das suas posições, mas ao mesmo tempo percebe que há pouca credibilidade da parte com quem está a negociar. Por isso, se nós recordarmos há alguns dias, o primeiro ponto que o Irão levantou foi: "Nós estamos a enviar o nosso ministro de Negócios Estrangeiros, esperamos", é a norma diplomática negocial normal, tida como comum, como aceite, "que do outro lado esteja alguém equivalente ou equiparado", não dois meros enviados como Witkoff e Kushner, mas aquilo que esperavam, o vice-presidente J.D. Vance, no sentido em que apontam para o facto de se tratarem destes enviados não terem, em si mesmo, o poder político que J.D. Vance ou que eventualmente Donald Trump teria. E por que J.D. Vance não iria desta vez? Do lado dos Estados Unidos, por um lado Donald Trump tem quase sempre enviado Witkoff e Kushner. Têm sido sempre os enviados para negociações no quadro da guerra Ucrânia-Rússia, no Médio Oriente e agora também no Irão. Mas a verdade é que isso implica um menor capital político do que o envio de J.D. Vance. Ou seja, um menor comprometimento político, digamos assim. Do lado dos Estados Unidos, por outro, há aqui uma questão que é de compreendermos de forma mais exata o que está em causa ou quais são os objetivos em causa com este processo. Porque, por um lado, sabemos que Trump tinha aceito uma extensão ilimitada do cessar-fogo pedido do Paquistão. Sabemos também que estas conversas seriam sempre indiretas e também talvez por isso o não envio de J.D. Vance, mas em vez disso destes representantes. Agora, há aqui uma série de equívocos neste processo. Donald Trump diz que há demasiado tempo perdido. A diplomacia e a negociação funcionam quase sempre assim. Demoram muito tempo, implicam cedências de parte a parte, algo que naturalmente será difícil de fazer. Em segundo lugar, ele aponta algo que é manifestamente falso. Diz que há confusão na liderança de Teerão, contra a verdade nos últimos dias. Se poderíamos ter dúvidas sobre isso, a verdade é que nos últimos dias, pelo menos na última semana, a mensagem foi muito clara entre presidente, ministro dos Negócios Estrangeiros, principal negociador, militares, todos eles em comum numa mesma mensagem, que é uma linha vermelha para abrir negociações é o fim do bloqueio naval. Sem isso, não é possível voltarmos à mesa negocial e conversarmos de forma aberta, concreta com os Estados Unidos. E depois os pontos que já conhecemos: nuclear, Ormuz, a guerra mais alargada, as sanções e os custos, e quem vai pagar os custos da agressão que os Estados Unidos e Israel cometeram contra o Irão. Estes pontos são os mesmos, na verdade, é exatamente a mesma coisa que está em disputa já há algum tempo e em que as posições não são extraordinariamente diferentes do lado do Irão. Do lado de Donald Trump, usar isso parece ser uma forma de protelar uma decisão, de rejeitar a diplomacia ou a via diplomática como via de saída deste conflito. E há também aqui as outras peças-chave para este conflito no Médio Oriente, Israel e o Líbano. Qual é que é o ponto de situação que podemos fazer do cessar-fogo, sendo que ainda das últimas horas, ontem, Israel continuava a atingir alvos do Hezbollah? Exatamente. Israel continua os ataques no sul do Líbano, no quadro de um cessar-fogo que tem que ser considerado com muitas aspas. Recordamos, aliás, que Netanyahu afirmou que as suas forças têm, e cito: "Total liberdade de ação", apesar desta extensão de três semanas de cessar-fogo. Estamos perante um cessar-fogo bastante sui generis, como já tinha aliás acontecido no passado em vários momentos relativamente a Gaza, ou seja, em que na verdade nós não falamos de um conflito em sentido estrito, de um conflito convencional, na medida em que esta proposta do cessar-fogo se dá entre um Estado, Israel, e o Líbano, sendo que o Líbano não é realmente uma parte especialmente ativa do conflito. Poderíamos considerar que o fosse com o Hezbollah, ou que o Hezbollah seria, de facto, essa parte mais ativa, mas não participou deste processo negocial. Portanto, isto significa que este é um cessar-fogo de sentido único, apenas de Israel para o Líbano e mais ainda, como já percebemos e como já tínhamos também percebido em Gaza, cuja aplicação é bastante seletiva, ou seja, que esperaríamos que poderia levar a uma diminuição do grau de conflitualidade, mas nem isso. Os retratos das últimas 48 horas apontam justamente o contrário, uma intensificação dos ataques, uma intensificação da demolição de casas no sul do Líbano e, portanto, tudo isso aponta para um problema sério, que é o alargamento de uma lógica de conflito ao estilo de Gaza, ainda não com a dimensão, com a escala, com a intensidade de Gaza, mas agora para o território do Líbano. Essa é naturalmente uma especial preocupação, não apenas pelo conflito em si, mas também naturalmente pelas seríssimas consequências humanitárias que isso terá para o conjunto da região. E deixa-nos com outro problema, que é uma crescente dificuldade dos atores internacionais em agirem e reagirem perante o que está a acontecer. O caso mais evidente, claro, será os Estados da zona, mas também naturalmente da União Europeia, uma enorme incapacidade em agir, seja no Irão ou no Líbano ou na Venezuela ou em qualquer outro contexto, perante flagrantes violações do direito internacional e pior ainda, uma enorme incapacidade em serem atores relevantes na diplomacia e na negociação, em promoverem diplomacia e negociação, quer no caso do Islamabad, quer neste, quer em qualquer outro dos mais recentes envolvendo os Estados Unidos e/ou Israel, a União Europeia parece um atorAbsolutamente secundarizado, sendo que é um dos mais afectados, além dos outros locais, naturalmente, perante estas circunstâncias, o que demonstra muito da dificuldade que a União Europeia tem tido no sinal. Sendo que ainda esta semana que passou houve mais um encontro de líderes informal no Chipre e numa altura em que não só a guerra no Médio Oriente, mas também naturalmente a guerra na Ucrânia continuam a preocupar muito também a Europa. Volodymyr Zelensky pede que o mundo não se mantenha em silêncio sobre o que se passa neste conflito, que já dura há mais de quatro anos. A Ucrânia foi perdendo aqui centralidade, mas este empréstimo de 90 mil milhões de euros que foi aprovado pode dar aqui, apesar de tudo, um novo fôlego à Ucrânia, que até tem conseguido avançar na reconquista do território? Sim, naturalmente. É um fundo muito avultado para forças armadas que bem precisam dessa capacidade financeira. Tivemos notícia nos últimos dias de relatos de fome entre os soldados na frente de combate ucraniana. Tivemos relatos ainda de soldados que estão muito para lá das regras de rotação que obrigariam a retirá-los da frente, portanto, com um desgaste muito significativo, não apenas sobre a sua capacidade de combate, mas sobre a sua condição de saúde psicológica, etc. Agora, também tivemos, talvez pela primeira vez, uma espécie de abertura a algo que era bem necessário. Este é um conflito que se encontra essencialmente estagnado há anos e, portanto, esse seria um primeiro ponto decisivo para facilitar a diplomacia e a negociação, mas que infelizmente não tem sido incentivado o suficiente. Aliás, é preciso darmos nota que tivemos ainda esta semana Donald Trump a sugerir a participação de Putin no G20 nos Estados Unidos como uma forma de abrir um canal diplomático importante. E tivemos também declarações de Luís Montenegro, muito realistas e muito pragmáticas, é importante dizê-lo, a dar nota de que não lhe parece mal esta participação de Putin e dizendo ainda: "É preciso estabelecer diálogo com a Rússia". E isto é importante por estes dois motivos: primeiro, este conflito está estagnado. Não há uma solução militar para este conflito. É um enormíssimo sorvedouro de recursos, de recursos humanos, de recursos financeiros, de recursos para cada uma das partes. Não tem solução militar, como já é muito evidente ao longo dos últimos tempos, tem pequenas flutuações ao longo do tempo e isso significa que a única solução é política e que quanto mais se atrasar essa solução política, mais custos terá, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico, quer do ponto de vista social. Mas sobretudo, também por conta do que está a acontecer no Médio Oriente. O principal penalizado pelo fecho do comércio internacional no Estreito de Ormuz e nomeadamente da regular saída de petróleo e gás natural pelo Estreito de Ormuz é, para além, naturalmente, dos estados da região, a Europa. A Europa é o principal afetado e por isso mesmo, o Irão, quando pressiona com o Estreito de Ormuz, espera que a Europa e outros países da região pressionem os Estados Unidos no sentido da diplomacia e da negociação. E Trump tentava fazer exatamente o mesmo, se bem nos recordarmos. Queixava-se que a Europa não tinha feito o suficiente relativamente ao Estreito de Ormuz, que não tinha sido activa, pró-activa, dinâmica, que não tinha ajudado os Estados Unidos. A Europa é a principal afectada e isto significa que a Europa tem que encontrar alternativas. Alternativas que não serão imediatas, da eletrificação, da transição energética, naturalmente, não serão imediatas. A solução mais imediata de todas, a mais duradoura, a mais estável e aquela que poderá dar uma melhor solução para as indústrias europeias e para o consumo de energia europeu é a Rússia. Não sou eu que o digo, são vários especialistas energéticos que o dizem. Naturalmente, isto tem implicações políticas, mas é a principal solução a curto e eventualmente a médio prazo para o que está a decorrer. Isto significará, naturalmente, a necessidade de negociar, sendo certo, mais uma vez, que sempre existiria essa necessidade de negociar. Sempre seria necessário negociar com a Rússia, que vai continuar a ser o vizinho, com aquela liderança política que vai continuar a existir. E portanto, quanto mais cedo a Europa e as lideranças políticas europeias compreendam que esta é a via principal para, no curto prazo, retomar a economia europeia, retomar um acesso seguro e estável de petróleo e gás, e de que portanto, essa é a via para, no curto prazo, uma espécie de normalização, quer no contexto europeu, quer no contexto energético europeu, melhor, porque mais depressa conseguirá estancar a sangria económica em curso e mais depressa conseguirá estancar a sangria humana em curso na Ucrânia. Será difícil, naturalmente, para as lideranças políticas europeias, mas as circunstâncias no Médio Oriente a tal obrigam. Cabe à União Europeia fazer escolhas e decidir aquilo que pretende fazer, sendo que qualquer uma das escolhas tem custos, sejam custos políticos ou custos económicos. Pedro Ponte de Souza, muito obrigada pela análise que aqui trouxe sobre a guerra na Ucrânia nesta parte final, sempre também aqui interligada com a guerra no Médio Oriente. Pedro Ponte de Souza, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense. Eu sou a Vanessa Cruz e este Gabinete de Guerra fica disponível em podcast. Vanessa Cruz