OS CENTROS DE DADOS ESTÃO A ESPALHAR-SE PELOS EUA. AGORA, O MESMO ESTÁ A ACONTECER COM AS PROIBIÇÕES RELATIVAS AOS CENTROS DE DADOS
2026-04-27 10:08:05

A Data Center Coalition, um grupo comercial que representa grandes empresas de tecnologia e promotores de centros de dados, defende que o setor “proporciona benefícios significativos aos estados e às comunidades locais” A deputada do Maine Melanie Sachs, do Partido Democrata, pensava que o seu estado era um dos poucos locais do país onde os centros de dados não estavam interessados em instalar-se. O estado mais a nordeste dos EUA - conhecido pela sua costa rochosa, pelas lagostas e pelas botas L.L. Bean - não é propriamente Silicon Valley. Por isso, quando apresentou um projeto de lei no início deste ano para impor uma proibição temporária à construção de novos centros de dados de grande dimensão, pensou que este não iria causar grande impacto. Foi só nessa altura que tomou conhecimento de dois projetos de centros de dados já propostos em diferentes comunidades do Maine. “Assim que apresentei o projeto de lei, começaram a surgir de todo o lado”, diz Sachs. “As comunidades não sabiam absolutamente nada sobre isso. Nas comunidades rurais, seja no Maine ou noutro lugar, não existe qualquer licenciamento local para este tipo de projetos.” Nas próximas semanas, o Maine poderá ser o primeiro estado do país a aprovar uma moratória temporária sobre novos centros de dados - dando-lhe tempo para estudar a quantidade de eletricidade e água que consomem e como podem afetar o emprego e a economia local. Proibições temporárias semelhantes estão a ser propostas tanto em estados fortemente republicanos como democratas, incluindo Nova Iorque, Carolina do Sul, Oklahoma e Vermont. E há dezenas de proibições locais ao nível dos condados e dos municípios, muitas vezes em resposta à chegada de um novo centro de dados a uma comunidade. Os seus defensores afirmam que estes projetos de lei são uma resposta a um setor que tem evoluído a um ritmo impressionante e de forma sigilosa, oferecendo poucas oportunidades para uma participação pública significativa. “É realmente uma questão apartidária, e penso que muito disso se deve simplesmente à rapidez com que as coisas têm vindo a mudar nos últimos anos”, refere o deputado da Carolina do Sul Steven Long, um republicano que co-patrocinou uma proposta de moratória no seu estado. “As políticas públicas não têm conseguido acompanhar essa evolução.” O centro de dados da Meta em Stanton Springs, no condado de Newton, na Georgia, EUA, fotografado a 13 de janeiro de 2026. foto Mike Stewart/AP Estes refrigeradores arrefecem a água utilizada por um centro de dados da OpenAI em Abilene, no Texas; fotografia tirada a 23 de setembro de 2025. foto Shelby Tauber/Reuters Oposição crescente aos centros de dados À medida que as grandes empresas tecnológicas e a administração Trump avançam com uma estratégia agressiva para tornar os EUA líderes em inteligência artificial, os enormes centros de dados de “hiperescala” necessários para operar essas tecnologias têm proliferado. Existem mais de 4 mil centros de dados em todo o território dos EUA, de acordo com o Data Center Map. A Virgínia possui o maior aglomerado de centros de dados do mundo, verificando-se igualmente uma proliferação dessas infraestruturas no Texas e na Califórnia. À medida que os centros de dados expandem a sua presença, surge uma onda de oposição local. A Data Center Coalition, um grupo comercial que representa grandes empresas de tecnologia e promotores de centros de dados, defende em comunicado que o setor “proporciona benefícios significativos aos estados e às comunidades locais” sob a forma de empregos locais, investimento e receitas fiscais. O projeto de lei do Maine foi bipartidário - foi aprovado na Câmara, controlada pelos democratas, com seis votos republicanos a favor. O Senado estatal ainda não votou o projeto; a governadora do Maine, Janet Mills, indicou que o apoiará se for aprovado pela legislatura. Uma questão pendente é se os legisladores irão criar uma exceção à proibição para os centros de dados existentes - uma emenda nesse sentido não foi aprovada na Câmara. Sem ela, esses centros podem não avançar. O projeto de lei manteria a proibição em vigor até ao final de 2027 , tempo suficiente, espera Sachs, para que os reguladores estatais de energia e ambiente elaborem regras para os grandes centros de dados, que necessitam de enormes quantidades de energia para alimentar a inteligência artificial e outras aplicações informáticas. Contudo, tal proibição poderia desincentivar o desenvolvimento futuro e “enviar um sinal de que o estado está fechado aos negócios”, afirma Dan Diorio, vice-presidente de política estatal da Data Center Coalition. “Uma moratória estatal sobre os centros de dados desincentivaria novos investimentos, quer por parte do setor dos centros de dados como de outras indústrias de tecnologia de ponta que dependem da previsibilidade e de um clima empresarial favorável a investimentos de vários milhares de milhões de dólares”, sublinha Diorio. A nível nacional, mais de 140 grupos locais em todo o país conseguiram bloquear ou adiar mais de 60 mil milhões de dólares em investimentos em projetos de centros de dados nos EUA em pouco mais de um ano, de acordo com a empresa de investigação apartidária Data Center Watch. Alguns estados e municípios estão a aprovar medidas que iriam impor limites à quantidade de eletricidade e água que os centros de dados podem utilizar, quanto têm de pagar por essa utilização e quanta informação devem divulgar às comunidades no seio das quais se encontram instalados. Moradores das zonas rurais do Michigan reúnem-se na cidade de Saline, a 1 de dezembro de 2025, para protestar contra o centro de dados Stargate da OpenAI, no valor de 7 mil milhões de dólares, cuja construção está prevista em terrenos agrícolas na região sudeste do estado. Os manifestantes afirmam que o projeto do centro de dados está a ser acelerado pela DTE Energy, a grande empresa de eletricidade, e que poderá provocar um aumento das tarifas de eletricidade residenciais e pôr em risco o abastecimento de água. foto Jim West/Universal Images Group Editorial/Getty Images Os legisladores estatais estão a reagir à “velocidade, escala e sigilo” de muitos projetos de centros de dados, refere Jason Beckfield, professor de sociologia da Universidade de Harvard que estuda centros de dados. Os agentes imobiliários enfrentam prazos extremamente apertados, de semanas e meses. Muitas vezes, pode parecer que os projetos caem do céu, adianta. “Existe uma cultura de sigilo tão forte em torno destas questões que deixa os membros comuns da comunidade e os seus representantes eleitos numa posição em que não têm qualquer esperança de acompanhar o ritmo”, diz Beckfield. Esta crescente oposição local é uma força séria a ter em conta, acrescenta Beckfield, e constitui um obstáculo significativo, a par de fatores como a falta de energia elétrica disponível. “É mais difícil conquistar o apoio público [para os centros de dados] do que construir uma central elétrica”, destaca Beckfield. No Maine e noutros estados, as preocupações com o aumento das tarifas de eletricidade devido aos centros de dados foram um grande fator motivador para os projetos de lei de moratória, afirmam Sachs e a sua colega, a deputada democrata do Maine Amy Roeder. “Estamos a ser esmagados pelos preços da eletricidade”, sublinha Roeder, cujos eleitores se queixam de contas mensais de eletricidade que chegam a atingir as centenas de dólares. “Colocar um centro de dados que vai consumir muitos recursos no meio disto tudo parece-me simplesmente irresponsável”, acrescenta a deputada. “Adoro a ideia de fazermos uma pausa, tomarmos o nosso tempo e resolvermos isto de uma vez por todas.” https://cnnportugal.iol.pt/centros-de-dados/inteligencia-artificial/os-centros-de-dados-estao-a-espalhar-se-pelos-eua-agora-o-mesmo-esta-a-acontecer-com-as-proibicoes-relativas-aos-centros-de-dados/20260425/69de3ac9d34edcee7c6303b9 Ella Nilsen