LIGADOS À FICHA ERRADA
2026-04-27 21:06:04

Cada atraso na transição energética traduz-se na fatura da eletricidade, na competitividade das empresas e na autonomia do país. A guerra no Médio Oriente voltou a expor uma realidade incómoda: a energia continua a ser um dos pontos mais frágeis da autonomia europeia. O bloqueio no Estreito de Ormuz teve impacto imediato. Em poucas semanas, o preço do petróleo subiu cerca de 60 dólares. Desde o início da crise, a União Europeia já gastou mais 22 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis e, em 2025, cada cidadão europeu pagou, em média, 880 euros por esta dependência. Mais do que geopolítica, este é um custo que chega diretamente às famílias e empresas. Ainda assim, enquanto a realidade aponta para a urgência de acelerar a transição energética, o debate público em Portugal continua frequentemente marcado por simplificações e desinformação. A energia deixou de ser apenas uma questão ambiental, sendo hoje uma questão de segurança económica. E Portugal tem uma posição relevante. No mercado ibérico, a forte incorporação de renováveis permitiu que os preços da eletricidade fossem, em determinados momentos, cerca de 65% mais baixos do que em países mais dependentes do gás, como Itália. A transição energética é, por isso, também uma proteção contra crises externas. Ainda assim, persistem ideias que não refletem o funcionamento do sistema. Um exemplo é a noção de que manter centrais a carvão teria sido vantajoso. Em dias de elevada produção renovável, a eletricidade pode ter custos residuais, enquanto o carvão enfrenta custos elevados de emissões de CO2 (o que significa que, muitas vezes, essas centrais nem seriam utilizadas). Também a ideia de que bastaria instalar painéis solares em todos os telhados, embora apelativa, não responde à escala do desafio. Um edifício dificilmente garante o seu consumo apenas com produção própria e, com as necessidades crescentes da indústria, mobilidade elétrica e digitalização, são indispensáveis projetos de maior dimensão. Quanto ao impacto ambiental, sobretudo nas florestas, os dados mostram que apenas uma pequena percentagem das árvores protegidas removidas esteve associada a projetos renováveis, existindo frequentemente medidas de compensação com reflorestação superior. Parte do problema está na forma como o tema é comunicado. O debate tem sido muitas vezes reduzido a um confronto entre comunidades e promotores, quando o Estado define regras exigentes, impõe compensações e acompanha os projetos, uma dimensão que nem sempre é visível. Esse vazio facilita a propagação de perceções imprecisas. Num contexto de sucessivos choques energéticos , da guerra na Ucrânia ao Médio Oriente , a dependência de combustíveis fósseis mantém-se como um risco estrutural, aumentando a exposição a crises externas e à volatilidade dos preços. Por isso, mais do que discutir apenas impactos locais, importa considerar o custo de não avançar. Cada atraso na transição energética traduz-se na fatura da eletricidade, na competitividade das empresas e na autonomia do país. No essencial, a transição energética não depende apenas de tecnologia ou investimento, mas da capacidade de explicar o que está em jogo com clareza e responsabilidade. Duarte Amaro Consultor de Comunicação e aluno de mestrado em Jornalismo na Universidade Católica Portuguesa Duarte Amaro