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JÁ OUVIU FALAR EM "FADIGA CEREBRAL DA IA"? É O RESULTADO DO "TRABALHO DESLEIXADO" NAS EMPRESAS

CNN Portugal Online

2026-04-27 21:06:10

Um novo efeito colateral do uso de Inteligência Artificial no trabalho O uso da inteligência artificial (IA) no local de trabalho parte do seguinte princípio: é como se tivesse uma equipa para delegar as suas tarefas mais rotineiras, libertando-o para pensar estrategicamente e, quem sabe, aproveitar um almoço mais demorado ou ir para casa mais cedo. Ou talvez até ser mais produtivo e ganhar mais dinheiro. É uma ótima ideia. Mas, como todos os que já tiveram - ou foram - chefes sabem, gerir é um trabalho em si mesmo, com o seu próprio tipo de stress e aborrecimento. E isso não muda se as "pessoas" em questão não forem pessoas reais. Para os participantes de um estudo recente do Boston Consulting Group, a experiência de supervisionar múltiplos "agentes" de IA - software autónomo concebido para executar tarefas, em vez de apenas gerar informação como um chatbot - causou uma forte sensação de "zumbido" - uma névoa que deixava os trabalhadores exaustos e com dificuldade de concentração. Os autores do estudo chamam-lhe “fadiga cerebral da IA”, definida como fadiga mental “decorrente do uso excessivo ou da negligência de ferramentas de IA além da capacidade cognitiva de cada um”. “Ao contrário da promessa de ter mais tempo para se concentrar em trabalhos significativos, a necessidade de conciliar tarefas e realizar múltiplas atividades em simultâneo pode tornar-se a característica definitiva do trabalho com IA”, concluíram os investigadores do estudo, publicado pela Harvard Business Review na semana passada. “Esta tensão mental associada à IA acarreta custos significativos sob a forma de aumento de erros por parte dos colaboradores, fadiga decisória e intenção de se despedir.” Os trabalhadores citados no estudo fizeram-me lembrar muito os meus colegas da geração Y, por volta de 1997, a correr para casa para cuidar dos seus Tamagotchis. “Era como se tivesse uma dúzia de separadores do browser abertos na minha cabeça, todos a disputar a minha atenção”, comparou um responsável sénior de engenharia, que participou no estudo. “Dei por mim a reler as mesmas coisas, a repensar muito mais do que o normal e a ficar estranhamente impaciente. O meu raciocínio não estava comprometido, apenas confuso - como uma estática mental.” Este é apenas um novo efeito colateral da pressão exercida pelos executivos das empresas para que os trabalhadores utilizem mais a IA. No outono passado, um relatório da Harvard Business Review dava conta do flagelo do "trabalho desleixado" - os memorandos, apresentações e propostas sem sentido gerados pela IA que acabam por criar mais trabalho para os trabalhadores, que têm de corrigir os erros do robô. O trabalho desleixado reflete uma espécie de "rendição cognitiva", em que os colaboradores se sentem desmotivados, atribuindo tarefas à IA sem prestarem realmente atenção ao resultado, explica Gabriella Rosen Kellerman, psiquiatra e coautora de ambos os relatórios, em entrevista à CNN. "A exaustão mental é quase o oposto... É como tentar dialogar frente a frente - inteligência contra inteligência - com a IA." Francesco Bonacci, CEO da Cua AI, empresa que desenvolve agentes de IA, descreveu a sua fadiga com a IA como "paralisia por programação intuitiva" (uma referência à tendência de Silicon Valley para desenvolver projetos menos refinados com instruções de IA em vez de programação tradicional). “Acabo os dias exausto - não pelo trabalho em si, mas pela gestão do trabalho”, escreveu no mês passado, numa publicação no X. “Seis mapas de tarefas abertos, quatro funcionalidades inacabadas, duas soluções rápidas que se transformaram em becos sem saída e uma crescente sensação de que estou a perder completamente o controlo da situação.” Em certa medida, a sobrecarga mental e a desorganização no trabalho podem ser ambas consequências do processo de adaptação. Imagine pegar num funcionário de escritório de meia-idade de 1986, colocá-lo num ambiente de trabalho de 2026 e pedir-lhe que envie 10 e-mails, responda a mensagens no Slack e participe numa chamada no Zoom com a equipa de redes sociais, que está toda a trabalhar em casa. Seria de esperar alguma sobrecarga cognitiva, para não mencionar os olhares confusos quando lhe disser que Donald Trump é presidente e que foi preciso esperar mais de 30 anos para uma sequela de “Top Gun”. É claro que as pessoas aprendem a ser gestoras, em geral, a todo o momento. “Acredito que isto é potencialmente temporário”, afirma Matthew Kropp, coautor do estudo sobre “sobrecarga cerebral” e diretor administrativo da BCG. “São ferramentas que não tínhamos antes.” Kropp compara a experiência de alguém a gerir múltiplas ferramentas de IA à de alguém que acabou de aprender a conduzir e ganha logo um Ferrari. Pode ir muito rápido, mas é fácil perder o controlo. Até os profissionais de tecnologia parecem estar a ter dificuldades em controlar os seus assistentes de IA. No mês passado, a diretora de segurança e alinhamento de IA da Meta contou a sua própria experiência quando viu bots quase apagarem a sua caixa de entrada sem permissão. “Tive de CORRER para o meu Mac mini como se estivesse a desarmar uma bomba”, escreveu no X, atribuindo o incidente a um “erro de principiante”. Tanto Kropp como Kellerman realçam que o resultado do estudo não foi totalmente negativo. Surpreendentemente, as pessoas que sentem “sobrecarga cerebral” tendem a apresentar menos burnout, definido como um estado de stress crónico no trabalho que se acumula ao longo do tempo e prejudica o desempenho dos colaboradores. Os participantes descrevem a "sobrecarga cerebral" como uma sensação aguda. "Quando fazem uma pausa, desaparece", afirma Gabriella Rosen Kellerman. https://cnnportugal.iol.pt/inteligencia-artificial/sobrecarga-cerebral/ja-ouviu-falar-em-fadiga-cerebral-da-ia-e-o-resultado-do-trabalho-desleixado-nas-empresas/20260426/69b46dd1d34edcee7c61dade Análise de Allison Morrow