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ANTÓNIO COSTA SILVA: "O ESTADO PORTUGUÊS É UM ELEFANTE QUE CRESCEU COM REMENDOS"

Observador Online

2026-04-28 21:06:05

António Costa Silva prevê uma crise de abastecimento caso o conflito no Médio Oriente continue. O antigo ministro da economia deixa críticas ao excesso de burocracias em Portugal. Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Esta é a Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado o antigo ministro da Economia, António Costa Silva. Bom dia, bem-vindo. Bom dia. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Obrigado eu. São cinco perguntas. Cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda, damos-lhe escolha múltipla. Se acertar, recebe dois pontos. Está bem. Está bem, é assim, o Quem Quer Ser Milionário, é uma coisa assim do gênero. Ou não, agora é o Joker, não é? O máximo são 25 pontos. Ontem o Miguel Frasquilho fez 20. Ok. Está bom. A fasquia está lá em cima. Então vamos começar com uma pergunta de memória, mas esta pergunta é quase um clássico da vida portuguesa. Quem é que disse a frase: "Para serem mais honestos do que eu, têm que nascer duas vezes"? Cavaco Silva. Em 2010, já lá vai algum tempo. Esta questão da transparência na política tornou-se agora muito importante e hoje há novas notícias sobre a Operação Influencer, que fez cair o governo de que o senhor também fazia parte. A honestidade ou a percepção de honestidade é um problema da democracia portuguesa hoje em dia? Eu penso que é da democracia portuguesa, em geral, de todas as democracias. Nós estamos a viver um período muito difícil, com comportamentos muitas vezes nocivos de políticos que, ligados com a ascensão dos movimentos de extrema-direita, criam grande desconfiança nas sociedades e, portanto, a desconfiança é absolutamente corrosiva. Isso só se pode contrariar com a transparência absoluta na vida política. E tivemos o Presidente da República, que esteve muito bem na cerimônia do 25 de Abril, António José Seguro, a dizer que a transparência é essencial para assegurar a liberdade, é uma condição inalienável. O país tem feito um progresso muito importante, que gostava de realçar, no escrutínio aos políticos e às suas ações, as declarações de interesses, a questão das portas giratórias e, portanto, tudo isso tem sido um processo muito importante. Não se deve recuar nessa matéria, como de alguma forma o Presidente da Assembleia da República sugeriu, que há um escrutínio excessivo e voyeurista? Sim, eu penso que o senhor Presidente da Assembleia da República poderá ter razão num ou noutro ponto circunstancial, mas nós não podemos recuar. Eu acho que isso é fundamental para restabelecer a confiança dos cidadãos. Há um historiador da arte inglês, que é o Kenneth Clark, que disse que a desconfiança mata as civilizações. Se nós não conseguirmos recuperar a confiança dos cidadãos, ter um sistema transparente e funcional, nós vamos ter grandes problemas no exercício do poder democrático. E eu não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Eu estive quase três anos preso nas mãos de um regime totalitário e sou profundamente democrata. E nós temos que defender a democracia. E a democracia está sob ataque na Europa, nos Estados Unidos da América, a extrema-direita tomou conta da Casa Branca. O jornalista David Graham, da Atlantic, escreveu um artigo extraordinário e um livro, Projeto 2025, a demonstrar o que a Heritage Foundation, a extrema-direita americana, querem com esta administração Trump, que é demolir a democracia americana, demolir as instituições. Vejamos a reação que o presidente Trump teve face ao veredito do Supremo Tribunal relativamente às tarifas, insultou os juízes, chamando-lhes canalhas, trafulhas. Nós não podemos continuar nesse registro. E é por isso que, a meu ver, a transparência é absolutamente fulcral. E se olharmos para a história das sociedades, desde a antiguidade do Império Romano, Cícero lutou muitas vezes contra a corrupção. Aliás, ele disse que a corrupção destrói um país. Ao longo do tempo, houve muitos desenvolvimentos a esse respeito. Se olharmos para uma das minhas referências na área política, que são os humanistas do Renascimento, desde o Petrarca, o Leonardo Bruni, o Poggi, o Brucciolini, todos eles, a grande questão era o bom governo para se diferenciar do mau governo. Quando vamos a Siena, é absolutamente extraordinário, na Piazza del Campo, no Palazzo Público, está aquele quadro extraordinário do Lorenzo Ambrosetti, que é o bom governo e o mau governo. Aquele quadro foi feito em 1338. E nós, de certa maneira, as nossas democracias, perdemos muito este fio condutor. O senhor esteve num bom governo? Eu acho que estive num governo razoável. Tentamos fazer muitas coisas, foi um desafio muito importante pra mim. Eu sempre trabalhei em empresas privadas, foi a primeira vez que estive face ao serviço público e há um contraste absoluto entre o funcionamento do que é uma empresa privada e o funcionamento da administração pública. Atenção com a administração pública portuguesa. Temos organismos excelentes, temos muita gente competente, mas o que é que se passa? Há descoordenação entre os organismos, há muita sobreposição entre as suas funções, há descoordenação nos processos de decisão, há fragmentação nos processos de decisão e temos uma administração que funciona orientada pra parecer, não pra decisão. E já lá vamos. Já lá vamos sobre essa matéria, desculpe interrompê-la. Cinco pontos já são seus. António Costa Silva, astronauta ao contrário, não é? Sim, exatamente. Devido a sua formação em Engenharia de Minas. Mas vamos até a Lua pra depois descermos à Terra. Em 69, a missão Apollo 11 levou o homem à Lua. Neil Armstrong deu o pequeno passo para o homem, mas houve um segundo astronauta a pisar a superfície lunar logo a seguir. Quem foi o companheiro? Edwin Aldrin. Buzz Aldrin. Buzz. Ele era conhecido por Buzz. Exatamente. A missão Apollo foi pura vontade política. Hoje temos uma Europa que hesita, por exemplo, sobre um exército comum. Como autor do PRR, acha que os europeus ainda são capazes de grandes projetos ou estamos condenados a ser um museu que só olha para o passado e deixamos as grandes potências como Estados Unidos e China olharem para o futuro? Eu acho que estamos mais no registro desse museu que olha muito para o passado e não consegue concretizar coisas importantes. Atenção, que eu sou profundamente europeísta. Eu nasci a seguir à Segunda Guerra Mundial, tinha em casa um pai muito preocupado com a devastação que as duas guerras mundiais criaram na Europa, mostraram aquelas fotografias de Dresda, de Londres, dos bombardeiros. Eu acho que a Europa não pode regressar a esses tempos e, portanto, tem que combateraprestamento daquilo que se passa, mas isso implica um reforço do projeto europeu. Sendo profundamente europeísta, sou muito crítico do funcionamento da União Europeia, por quê? Como Ministro da Economia, conheci a União Europeia por dentro. E a União Europeia hoje está mais focada na regulação, que é importante, e eu defendo a regulação, mas a regulação tem que ser inteligente. Mas eles estão mais focados na regulação e na burocracia do que na inovação. Eu pedi na altura, quando era ministro, aos meus serviços que fizessem um levantamento de quantos regulamentos a União Europeia tinha feito nos últimos quatro anos. Foram 3500. E eu confrontei os meus colegas no Conselho de Competitividade, disse: "Desculpem, o Conselho de Competitividade, que é parte das instituições europeias, tem um funcionamento burocrático. Os ministros vão lá, cada um tem o seu discurso, lê-se, há 27 discursos, passa-se ao ponto seguinte." E quando chegou a minha vez, eu disse: "Desculpem lá, isto é o Conselho de Competitividade. Nós temos de discutir aqui a competitividade da Europa." E a primeira grande discussão foi sobre a regulamentação. Felizmente, tive apoio da Alemanha e na altura decidimos propor à Comissão Europeia uma redução muito significativa de 40% da regulação. Não sei em que é que ficou, acho que ficou em metade, mas tem que se discutir a questão da regulação. Mas além disso, falta uma voz ativa, falta uma liderança? O que é que falta? Eu penso que a liderança nós temos, o António Costa acho que é um excelente líder e ele tem que agregar ali os 27. Mas o que é que se passa a seguir? É a capacidade da União Europeia implementar coisas. E quando me faz essa pergunta, eu olho pra tudo aquilo que é o investimento da União Europeia. Nós não podemos esquecer que é o investimento de 850 mil milhões de euros nos PRRs, é o investimento do quadro financeiro plurianual, é o apoio à Ucrânia, é o apoio às políticas de defesa na União Europeia. E depois temos o relatório Draghi. O relatório Draghi supunha o investimento de 800 mil milhões de euros, exatamente para quê? Para resgatar a competitividade da Europa. Este aspecto é um aspecto muito importante e dou sempre este exemplo: quando vamos a 2008, o PIB da União Europeia era semelhante ao PIB americano. A União Europeia tinha 14,3 bilhões de dólares e o americano era 14,7. Sabe o que se passou nestes 15 ou 16 anos? E eu confrontei os meus colegas com isso. O PIB europeu anda na casa dos 17, 18 bilhões de dólares e o americano vai a caminho dos 30. Há um fosso econômico que se criou e fiz um exercício e confrontei também os meus colegas com isso. Disse: pegamos em cada um dos países da União Europeia e vamos supor que é um estado dos Estados Unidos da América. Onde é que nós ficamos em termos de PIB per capita? E o resultado é extraordinário. Com exceção da Alemanha, todos os outros, incluindo a França e o Reino Unido, ficam em último lugar, em 51º lugar, atrás do Mississippi, que é o estado mais pobre dos Estados Unidos da América. E, portanto, alguma coisa de errado se passa com a Europa. E depois coligi muitos elementos relativamente ao processo de inovação e foi muito interessante, pois nós tivemos reuniões muito interessantes, quer com o Mário Draghi, quer com o Enrico Letta. E o que é que se passa aí? Se olhar pra inteligência artificial, passamos a vida a falar de inteligência artificial. Só 7% das novas patentes de inteligência artificial no mundo vêm da Europa. Quando fala das 20 maiores empresas tecnológicas do mundo, só temos uma da Europa, que é a ASML dos Países Baixos. Portanto, há um trabalho grande a fazer nessa área. Há um trabalho muito grande e está espelhado no relatório do Mário Draghi. Nós tivemos uma discussão intensa com ele. Que não teve grande seguimento também, tenho de falar. Ao fim de dois anos, repare, Paulo, ao fim de dois anos, nada se passou. Aliás, o Lawrence Summers, que foi secretário do Tesouro do Bill Clinton, em janeiro de 2025, quando lhe perguntaram sobre a Europa, ele disse: "Na Europa não se passa nada. O que se vai passar é que daqui a seis anos vamos ter um relatório Lagarde, que vai repetir o que disse o relatório Mário Draghi." E ele tem toda a razão. Por exemplo, se olhar pra parte de energia do relatório Draghi, repete o que o Mário Montes pôs no seu relatório em 2011. E a Europa está prisioneira disso. Uma sucessão de diagnósticos e nada. Os diagnósticos e depois o relatório Draghi é implementar o relatório Draghi. O primeiro grande pilar é inovação. A Europa sabe gastar dinheiro pra fazer ciência, não sabe usar a ciência pra fazer dinheiro, portanto, está bloqueada. Nós somos dos centros econômicos no mundo que mais investe em inovação e menos produz em termos de comercialização, de desenvolvimento de empresas e do reforço do tecido produtivo. Vamos ver, António Costa Silva, se esse cenário europeu se verifica também em Portugal e pra isso vamos à terceira questão. A que líder político e militar francês é atribuída aquela célebre frase: "Nunca interrompas o teu inimigo enquanto ele estiver a cometer um erro." Quem disse? Napoleão Bonaparte. Certíssimo. Eu acho que vai aos 25 já. Isto vai aos 20, já tem 15! E nós entramos aqui na história, que é um ponto forte do António Costa Silva. Saiu do governo precisamente a falar de uma máquina napoleônica, mal organizada, que é o Estado. Acha que Gonçalo Matias vai conseguir fazer um trabalho com impacto ou isto é um trabalho demasiado pesado para uma pessoa só? Repare, eu desejo ao Gonçalo Matias toda a sorte do mundo. Tenho sempre muito respeito pelas pessoas que decidem aceitar exercer cargos públicos em Portugal, sobretudo nas condições difíceis em que muitas vezes operamos, mas não é fácil. O Estado português, pra mim, é um elefante que foi crescendo ao longo dos anosCom remendos atrás de remendos e, no fundo, ninguém toma conta do elefante. Eu também quando estava no governo, aliás, quando saí do governo, escrevi o livro "Governar no Século XXI", em que uma das questões cruciais também é a questão do Estado. E atenção, eu sou favorável a nós termos um Estado. O país não se entende só com o Estado mínimo. É um Estado forte, não é um Estado mínimo. Não, é um Estado forte e, sobretudo, ágil e que consiga decidir. Quando olha para este elefante, o que tem? Tem mais de 10 mil unidades que se sentam à mesa do Orçamento de Estado, tem mais de mil empresas públicas e municipais, tem mais de mil institutos e fundações. Muitos deles fazem um trabalho importante, mas muitos outros fazem um trabalho inútil. E depois há muita sobreposição. Uma coisa que deixa louco, e quando era ministro, me chamou louco todos os dias, é a questão das tutelas partilhadas. Repare, se tiver numa empresa, faz uma equipa, nomeia um responsável, os ingleses até chamam de single point responsibility, para resolver o problema. O que acontece na administração pública portuguesa? Começava logo no meu governo. Havia três ministros que eram responsáveis pelos fundos europeus. Isto é a cartilha para as coisas não funcionarem adequadamente. E, portanto, esta sobreposição, as tutelas partilhadas, a descoordenação das instituições, é muito mau. Mas ninguém parece conseguir começar pelo menos um caminho eficaz para dar conta disso. Repare, quando o primeiro-ministro, em 2020, o primeiro-ministro de então, António Costa, me pediu para fazer a visão estratégica para o país, eu pus as questões da economia muito claramente. Precisávamos investir muito mais em inovação, nas infraestruturas, quer físicas, quer digitais. Depois, alterar o perfil da economia portuguesa. Por isso é que desenvolvemos as 50 agendas mobilizadoras do PRR, que, atenção, muitas delas estão a produzir resultados em setores cruciais da economia nacional, como a indústria metalomecânica, fabricação de máquinas, equipamentos, fabricação de componentes para os automóveis, mas também setores como o setor da saúde, pode gerar produtos e serviços de alto valor acrescentado. Mas depois tinha também, na parte do Estado, a digitalização. Há um grande programa do PRR que é digitalizar os serviços públicos. Para mim, é a única maneira de sairmos deste labirinto. E por quê digitalizar processos e modelos de trabalho? É simplificar os procedimentos. Mas sem digitalizar aquilo que existe. Não é digitalizar aquilo que existe, é ver qual é o funcionamento. É aproveitar para tirar uma série de processos fora. Exatamente, mas ir à raiz das coisas. E aqui temos que adotar uma perspectiva que é contrária àquilo que existe na administração pública portuguesa. A administração pública portuguesa é burocracia, é o casamento dos piores. Nós temos o casamento da burocracia portuguesa com a europeia, é o pior dos casamentos. E é adotar a simplicidade. O Leonardo Da Vinci disse uma frase extraordinária: "A simplicidade é a sofisticação máxima". Eu uso muito esta frase para falar das teorias da organização e como é que as coisas podem funcionar. E nós, na administração pública, temos exatamente o contrário. Temos a complexidade, as tutelas partilhadas. Dou-vos um exemplo: era ministro da Economia e do Mar. Nós, no mar, temos 18 organismos da administração pública portuguesa que intervêm no mar. Estes 18 organismos dependem de seis ministérios diferentes. E, portanto, quando quer fazer uma coisa e negociar, chega ao fim e volta ao princípio. Tem que fazer quase uma semimalha dessa coisa toda. Exato. Muitas vezes fala das pessoas em Portugal e anatomiza as pessoas, estigmatiza. Isto não é uma questão de pessoas. Nós temos uma cultura e um funcionamento da administração que tem que ser desafiado. E temos uma cultura de inação. Muito pesado. António Costa Silva. Agora vamos mudar completamente de assunto, quem era o presidente dos Estados Unidos no início do choque petrolífero de 1973? Richard Nixon. X. Vai ser uma limpeza. 20 pontos. Já estamos a viver um novo choque petrolífero ou ainda não estamos nessa situação? Não, Carla, estamos a viver um choque petrolífero e nós não temos a percepção da dimensão deste choque, é o maior da história. Sem darmos por isso. Sem darmos por isso, porque repare uma coisa, todos os dias o mercado mundial está privado de 15 milhões de barris de crude, que não chegam ao mercado mundial, mais cinco milhões de produtos refinados, entre eles o jet fuel e o diesel, e é por isso que temos já problemas de jet fuel gravíssimos. Na aviação. Na Ásia, temos 30% dos fertilizantes que não chegam. E depois dos fertilizantes, há uma parte que são os fertilizantes nitrogenados. A FAO, Organização Mundial das Nações Unidas para a Alimentação, diz que 50% da agricultura mundial depende dos fertilizantes nitrogenados. E para estes, a ureia é crucial. 50% da ureia do mundo vem do Golfo Pérsico, daqueles países do Golfo Pérsico. E os outros fertilizantes, que são os sulfatados, dependem do enxofre. Eles produzem 40% do enxofre no mundo. Além disso, produzem hélio, cerca de 40% do hélio. O hélio é um gás inerte, mas é crucial para a manufatura dos semicondutores, dos chips. Portanto, vamos sentir rapidamente os efeitos do impacto deste acontecimento. Nós já estamos a sentir, por exemplo, nas bombas da gasolina. Eu estou absolutamente convicto que se o conflito continuar, a crise de preços vai se transformar numa crise de abastecimento. E por que digo isto? É olharmos para o funcionamento dos mercados petrolíferos. O mercado petrolífero é um mercado líquido global, portanto, os preços quando saem, são para todo mundo. Mas quando há ciclos normais, quando a indústria funciona normalmente e não há conflitos geopolíticos, os mercados funcionam no chamado regime de contango. O que significa o regime de contango? Os preços da venda física dos mercados de spotA venda física diária são inferiores aos preços do mercado de futuros, que é o do Brent ou do Nymex nos Estados Unidos. O que acontece hoje é uma reversão completa disto. Nós chamamos em linguagem técnica backwardation, significa reversão. Os mercados petrolíferos hoje estão a funcionar num ciclo de extrema reversão. Não há conexão entre a venda física diária dos produtos e os mercados de futuros. Na Ásia, o barril de Jet Fuel está sendo negociado a 200 dólares por barril, o diesel a 180, 190 dólares. E por quê? Porque o mercado e os operadores estão a sentir que vamos para um período de escassez. Em cada cinco dias que passam, há 100 milhões de barris de petróleo que não chegam ao mercado mundial. Portanto, é por isso que todo o sistema está em tensão. E é evidente que o sistema em tensão, como ele está, a crise vai se agravar. Nós temos aqui, de um lado, uma liderança completamente imprevisível do presidente Trump, do outro, uma liderança imprevisível e ainda mais radicalizada no Irã. E repare, é o colapso da diplomacia. Os americanos sempre tiveram a máquina diplomática extraordinária. Conheci alguns grandes diplomatas americanos, como o Richard Holbrooke, que foi enviado do presidente Obama exatamente para o Médio Oriente. Ele dizia: "No Médio Oriente, nada do que parece é." Retive sempre essa frase, porque é assim mesmo. E o que se passa com a primeira administração Trump, ainda por cima, ele nomeou uma pessoa que eu conhecia muito bem, que era o CEO da Exxon. Se lembrarem, o Rex Tillerson nomeou, eu pensava que ele ia para Secretário da Energia, até disse aos meus colegas das companhias petrolíferas que estávamos na altura no deserto em Omã, que ele ia ser o Secretário de Energia, foi o Secretário de Estado e começou a desmantelar a máquina diplomática americana. O presidente Trump não liga nada à diplomacia, não consegue fazer um acordo com os iranianos sem trabalho profundo. O presidente Obama e a sua equipa demoraram dois anos a conseguir um acordo, que é um bom acordo, e vamos ver o que é que o presidente Trump vai conseguir. O acordo sobre a questão nuclear, repare, nessa altura, sob a jurisdição e supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica, os iranianos comprometeram a enriquecer até 3,66%, portanto, nunca fabricariam uma arma nuclear. E a equipa da Agência Internacional de Energia Atômica estava no Irã periodicamente para fiscalizar. Acabou tudo isso. Acabou tudo isso. Ele disse que era um mau acordo e estamos numa guerra que está a contaminar a economia mundial e a criar grandes disrupções. E estas guerras muito disruptivas criam convulsões não só econômicas como políticas, mas depois criam muita mudança a nível dos consumidores. Claro. António Costa Silva, 20 pontos, portanto, vamos a caminho da totalidade para a última pergunta. E vai aos 25. Pois vai. E a última pergunta é: em que década foi fundada a TAP? A TAP eu acho que foi na década de 60. Vou até pensar um pouquinho melhor. 50, talvez. Peço ajuda. Então ajuda. 30, 40 ou 50. Olha lá. Talvez 40, então. Exatamente. Muito bem, totalizou. Foi na década de 40, foi no dia 14 de março de 1945. Teve a tutela ou a tutela partilhada da empresa quando era ministro da TAP. Entretanto, ela está a ser privatizada. Está a gostar da forma como está a evoluir a privatização, nomeadamente a saída do candidato espanhol, se quisermos, ou espanhol e britânico? Sim, eu penso que a saída do candidato espanhol é positiva, porque nós não teríamos a certeza com o candidato espanhol que o hub de Lisboa seria preservado. Eu penso que o governo está a conduzir bem o processo. Estamos agora à espera das propostas vinculativas das duas companhias que ficaram, portanto, a Air France. KLM. KLM da Lufthansa. Quais são as minhas preocupações? É que nós temos sempre o azar dos távoras. Este negócio está a ocorrer exatamente quando nós temos uma convulsão internacional. As companhias aéreas são as primeiras atingidas por esta crise energética. A pandemia já afetou o outro processo. A pandemia já os afetou, agora são dois choques praticamente seguidos. A Lufthansa, atenção, já cancelou cerca de 20 mil voos e eu temo que as propostas financeiras não sejam adequadas ao fair value da TAP. Vamos ver o que é que vai acontecer. Para mim, é muito importante a conectividade aérea do país. Quando eu era ministro da Economia, olhava muito para todos os estudos e uma das variáveis cruciais para ajudar a performance econômica do país é a conectividade aérea. É absolutamente fundamental, não só para o turismo, e atenção que o turismo já representa 14, 15% do PIB nacional, mas por tudo aquilo que é a inovação, as empresas, as exportações, a interação de Portugal com o mundo, com os seus parceiros. E, portanto, a conectividade aérea é fundamental. E eu gostaria que, no processo, não fosse só o critério financeiro que imperasse, é a preservação do hub de Lisboa, muita atenção ao Porto, porque nós também temos que ter um hub no Porto, muita atenção às regiões autônomas, à diáspora e muita atenção à própria marca TAP. Eu gostaria que a marca subsistisse, que é muito importante. Falou da conjuntura que está complicada. Muito rapidamente, acha que o governo devia parar o processo ou seria pior ainda? Eu acho que isso seria a pior emenda que eu sugeri nesta altura. O processo está lançado. Espero que o governo tenha a capacidade também de persuadir, sobretudo porque estes processos têm várias fases. Nós agora vamos ter as duas propostas vinculativas, mas a própria proposta vinculativa que o governo escolher pode ser melhorada. Há uma negociação depois. Há uma negociação. E eu gostaria também de chamar a atenção para uma coisa que me parece crucial, porque estou sempre a pensar na economia portuguesa. Nós temos um cluster aeronáutico em Portugal que é já relativamente forte. Nós temos já vários polos de reparação de motores, manutenção de aviões, fabricação de aeroestruturas. Temos a Embraer, temos a Rexia, temos a Mecacromo e outras indústrias. Temos o cluster também sediado em Ponte de Sor. Há uma agenda mobilizadora do PRR que é dirigida pela empresa de engenharia aeronáutica. Eles estão a fazer em Ponte de Sor o primeiro avião português, o Luz 222, com tecnologia em engenharia portuguesa, para ser comercializado. É uma aeronave de 19 lugares, pode ser tripulada ou não tripulada, e tudo isto é uma galáxia de competências que o país foi acumulando e que é muito importante ter também, relativamente à companhia aérea e à interação, algo que é muito importante. No governo anterior, conseguimos, felizmente, atrair o projeto da Air Base para Santo Tirso, já tem a unidade industrial instalada. Começamos a negociar na altura com a Lufthansa Technique a possibilidade de eles instalarem e instalaram-se depois em Santa Maria da Feira, uma unidade industrial. É a companhia do mundo das mais avançadas na reparação de motores, de engenharia aeronáutica, e é muito importante nós mantermos com as valências nacionais, todo este cluster a funcionar. E, portanto, gostaria que a privatização também desse atenção a este setor. António Costa Silva conseguiu 22 pontos, foi a TAP que o impediu de chegar aos 25. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Foi um gosto recebê-lo. Obrigada e bom dia. Bom dia, obrigado. Maria João Simões, Carla Jorge de Carvalho, pferreira