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INOVAÇÃO OU PERIGO PÚBLICO? DOCUMENTÁRIO SOBRE CARROS AUTÓNOMOS DA TESLA EXPÕE SEGREDOS DE ELON MUSK

Expresso Online

2026-04-29 21:03:47

Documentário revela discrepância entre expectativas e realidade da condução autónoma. Ex-funcionários da Tesla denunciam um perigo público mascarado de inovação Os modelos mais recentes do fabricante de carros Volvo têm uma protuberância frontal no tejadilho. Não se trata de um artifício estético. Aliás, conseguimos apenas imaginar o quão a contragosto os designers suecos, conhecidos maximalistas na sua paixão pelo minimalismo, a terão implementado. Por baixo da saliência esconde-se um radar a laser - apelidado sistema LiDAR, acrónimo de Light Detection and Ranging - que faz o mapeamento 3D em tempo real de tudo o que rodeia o carro durante a viagem, auxiliando o condutor, que assim deixa de estar dependente do que os seus olhos veem para “lidar” com obstáculos que encontre no caminho. Muito diferente tem sido a abordagem da Tesla e dos seus sistemas de condução autónoma, baseados exclusivamente em câmaras de vídeo e na visão e interpretação do mundo por parte do software que acompanha os carros. Ora, apesar deste introito, as linhas que se seguem não versam sobre a Volvo ou a Tesla, nem, na verdade, sobre a indústria automóvel. ELON MUSK EXPOSTO: A EXPERIÊNCIA DA TESLADe Andreas PichlerDocumentárioNa Filmin, em streaming O tema em questão é um documentário estreado em abril na plataforma de streaming Filmin - “Elon Musk Exposto: a Experiência da Tesla”- que explora a forma aparentemente perigosa e inconsequente como Elon Musk, CEO da Tesla, e volta e meia o homem mais rico do mundo, promoveu a condução autónoma nos seus carros. A tese central do filme é que terá vendido gato por lebre: o sistema de piloto automático da Tesla, que permite aos veículos conduzir temporariamente de forma autónoma, assumindo o controlo da direção, da travagem e da aceleração, não estaria preparado para substituir o condutor. Apesar de a empresa o promover como “Full Self-Driving” (ou seja, “condução totalmente autónoma”), o sistema foi concebido apenas para assistir o condutor, que deve manter os olhos na estrada e estar pronto a intervir a qualquer momento. O documentário de Andreas Pichler começa com imagens de um acidente de viação e trechos do que os 90 minutos seguintes mostrarão. Começa, no fundo, com algo como um trailer de si próprio. Uma espécie de nariz de cera audiovisual. Em 2019, Dillon Angulo tinha encostado o carro na beira da estrada no final de um entroncamento, um troço que obriga a virar à esquerda ou à direita. Estava uma noite agradável na Florida e Dillon achou que seria romântico sair do carro para contemplar o céu estrelado com a namorada, Naibel Benavides, de 22 anos. Na estrada, rumo ao tal entroncamento, seguia um Tesla Model S em modo de piloto automático. Ignorando a obrigatoriedade de virar, este seguiu em frente e abalroou o carro e o casal. Naibel teve morte instantânea. Dillon ficou com mazelas para o resto da vida. A família de Naibel processou a Tesla, mas, ao contrário de outras vítimas de acidentes envolvendo falhas no piloto automático, os Benavides recusaram-se a chegar a acordo fora dos tribunais, travando uma longa batalha judicial que conheceu o seu desfecho em fevereiro de 2026 com uma sentença histórica. A Tesla, considerada 33% responsável pelo acidente, foi condenada a pagar 243 milhões de dólares à família da vítima. Entretanto, a empresa anunciou que vai recorrer da decisão. A Tesla tratou os clientes como ratos de laboratório: testavam os carros enquanto a empresa aprendia com os dados gerados pela utilização Este acidente é uma das traves-mestras do documentário. Outra é a história de Lukasz Krupski, o antigo técnico de serviços da Tesla que em 2023 divulgou ao jornal alemão “Handelsblatt” ficheiros internos da Tesla a que não deveria ter tido acesso. Fosse por incúria ou por desleixo da empresa, ficaram ao seu dispor milhares de documentos confidenciais. Os ficheiros passados ao jornal, que publicou a história em 2023 com o título “Tesla Files”, continham mais de 2400 queixas de clientes relacionadas com aceleração involuntária e mais de 1500 referentes a problemas de travagem, 139 das quais envolvendo travagens de emergência sem motivo aparente e 383 correspondendo a episódios de travagem-fantasma desencadeados por falsos alertas de colisão. Mais de mil acidentes estavam documentados. Havia ainda uma folha de cálculo à parte, com mais de 3 mil entradas relativas a incidentes com sistemas de assistência à condução em que os clientes levantaram preocupações de segurança. Entre os Benavides e os “Tesla Files”, o documentário apresenta entrevistas com outros denunciantes e ex-funcionários despedidos por terem manifestado internamente as suas preocupações com a segurança dos carros que ajudaram a fabricar. Torna-se evidente, embora a reportagem musculada de Andreas Pichler a que chamamos documentário o diga de forma mais implícita do que explícita, que a Tesla tratou os seus clientes como ratos de laboratório: estes, sem o saberem, testavam os carros no dia a dia, enquanto a empresa aprendia com os dados gerados pela utilização. Um perigo público. Igualmente evidente é o desfasamento entre a expectativa dos clientes e as reais capacidades da tecnologia, limitada pela resolução das câmaras e de um campo de visão largo, mas com baixa perceção de profundidade, donde resultaria um piloto automático míope.?“Elon Musk Exposto: A Experiência da Tesla” vai intercalando as narrativas centrais e as entrevistas com o proverbial encher do chouriço. Vemos imagens de documentários anteriores sobre Musk, imagens de arquivo de apresentações públicas da Tesla, somos lembrados do percurso do empreendedor sul-africano, das dificuldades financeiras nos primeiros anos da Tesla, da sua influência na reeleição de Trump, e de como os seus variados interesses e empresas , a Space-X, a Neuralink, a The Boring Company , parecem confluir para um mesmo objetivo: colonizar Marte. Nada disto é novidade. O anúncio, na última semana de abril, de que a Tesla iniciou a produção do Cybercab, o seu há muito prometido táxi de condução autónoma sem volante nem pedais, é que ganha novo sentido. Markus Almeida Jornalista Markus Almeida