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MOBILIDADE ELÉTRICA - A CRISE ENERGÉTICA E A TRANSIÇÃO QUE NÃO PODE ESPERAR

Blue Auto

2026-04-29 21:06:07

Sempre que o preço do petróleo dispara, o tema da energia volta ao centro da discussão pública. O impacto imediato sente-se nas bombas de combustível e no orçamento das famílias e das empresas. Em momentos como este cresce a perceção de que a forma como produzimos e utilizamos energia tem implicações profundas na nossa economia e na nossa autonomia enquanto país. Estas crises funcionam muitas vezes como um despertador coletivo. De repente, aquilo que já era conhecido, a dependência energética do exterior e a volatilidade dos combustíveis fósseis, torna-se mais evidente para todos. Mas será que estes momentos servem apenas para aumentar a preocupação temporária ou podem realmente acelerar a transição energética? O aumento do preço do petróleo tende a estimular a reflexão sobre a mobilidade elétrica. No entanto, a compra de um automóvel raramente é um processo de impulso imediato. Não é uma decisão que se tome de um dia para o outro apenas porque o combustível subiu. O que estes episódios fazem é provocar um salto no processo de consciencialização, que felizmente já está em curso há algum tempo, reforçando a perceção de que é necessária uma mudança energética na mobilidade. Estes momentos evidenciam algo que muitas vezes passa despercebido no nosso dia-a-dia: a forte dependência de fatores externos. Portugal importa praticamente todos os combustíveis fósseis que consome e está, por isso, inevitavelmente exposto às oscilações do mercado internacional. A mobilidade elétrica, associada ao enorme potencial nacional de produção de energia renovável, representa uma oportunidade estratégica para reduzir essa dependência e aumentar a autonomia energética do país. A transição energética está muito longe de ser apenas uma questão ambiental. É também uma questão económica e de soberania energética. Num país com condições excecionais para produzir energia de fontes renováveis, solar, eólica e hídrica, eletrificar a mobilidade significa aproveitar recursos nacionais para alimentar o transporte que hoje depende de combustíveis importados. Estas situações deviam reforçar a atenção dos decisores públicos para a necessidade de acelerar esta tran-sição. Sempre que há aumentos do preço dos combustíveis surgem medidas destinadas a mitigar o impacto imediato nos consumidores. São respostas compreensíveis no curto prazo, mas que não resolvem o problema estrutural. Fundos “milagrosos” aparecem sempre nestes momentos para subsidiar o custo dos combustíveis fosseis e (bem) evitar a sobrecarga das famílias e empresas. Findo o período crítico da crise, estes mesmos fundos “milagrosos” seriam fundamentais para reforçar políticas que promovam a mudança de paradigma, nomeadamente através do apoio à aquisição de veículos elé- tricos. Este tipo de incentivos atua diretamente na raiz do problema, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis e criando um efeito duradouro no sistema energético e na economia. Seguramente estaríamos mais bem preparados para a crise energética seguinte. É uma questão particularmente importante no transporte pesado de mercadorias, um setor em plena fase de transformação tecnológica, onde um modelo de incentivos adequado pode ter um impacto decisivo na velocidade de adoção de soluções elétricas. Apoiar esta transição neste momento pode significar acelerar vários anos de evolução. Do ponto de vista do consumidor, há um fator decisivo que tem a ver com a economia do veículo elétrico. O indicador que muitas vezes surge em primeiro lugar na análise é o custo por 100 quilómetros, e neste momento essa diferença volta a tornar-se mais evidente. Os valores médios do mês de março 2026, apesar de ainda não refletirem na totalidade o aumento dos combustíveis fosseis, já demostram um acentuar da diferença no custo para percorrer 100 quilómetros. De acordo com o Observatório da Mobilidade Elétrica da UVE, em março os valores médios foram de 10,42 euros num veículo a gasolina e 9,78 euros num veículo a gasóleo (apesar de mais caro por litro, os veículos a gasóleo be-neficiam de um consumo médio mais baixo), enquanto num veículo elétrico o mesmo percurso pode custar 2,12 euros quando o carregamento é feito em casa ou no trabalho com tarifa bi-horária. Num cenário mais representativo da utilização real, em que cerca de 75% dos carregamentos são feitos em casa e 25% na rede pública, o custo médio situa-se em cerca de 3,65 euros por 100 quilómetros. Os números falam por si e, na verdade, já são conhecidos há algum tempo. Os acontecimentos recentes apenas voltam a destacá-los e a torná-los mais visíveis para um público mais alargado. Ainda assim, é pouco provável que estes momentos provoquem uma corrida imediata à compra de veículos elétricos. A decisão de trocar de automóvel está associada a ciclos de utilização relativamente longos e depende de vários fatores, desde a disponibilidade financeira até às necessidades de mobilidade de cada utilizador. Os números das vendas de março em nossa opinião mostram exatamente isso, um crescimento em linha com o que tem sido normal nos últimos meses, das vendas de veículos 100% elétricos. Inclusivamente, infelizmente, com a quota de venda dos veículos 100% elétricos a situar-se abaixo dos valores habituais dos últimos meses. No entanto, o que estas crises fazem é algo talvez mais importante, aceleram um processo de mudança que já está em marcha. Reforçam a consciência coletiva de que a mobilidade precisa de evoluir para um modelo energeticamente mais sustentável, mais previsível do ponto de vista económico e mais alinhado com os recursos nacionais. Quando chegar o momento de escolher o próximo automóvel, para muitos consumidores essa reflexão já estará feita. E cada vez mais, essa escolha será um veículo 100% elétrico. Por isso a verdadeira questão que se coloca é se vai aguardar pela próxima crise energética ou já tomou a decisão? A UVE , Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos é um organismo sem fins lucrativos e Entidade de Utilidade Pública, com a missão de promover a mobilidade elétrica. Tem dúvidas sobre Veículos Elétricos? Nós respondemos.