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MULHERES COM ECO. INVESTIMENTO EM DEFESA É “OPORTUNIDADE PARA FORÇAS ARMADAS, MAS TAMBÉM PARA O PAÍS”

ECO

2026-04-29 21:06:08

Com milhões a serem investidos nas capacidades de defesa da Europa e Portugal, falamos com três mulheres sobre os desafios que o atual momento impõe ao nível da Defesa, Espaço e Cibersegurança. Da esquerda para a direita: Helena Silva (CEiiA), Paula Monteiro (Siemens) e Patrícia Fernandes (EMGFA). O investimento a ser feito em Defesa é “não só como uma oportunidade para as Forças Armadas, mas também para o próprio país”, defende a Capitão Patrícia Fernandes, porta-voz do Gabinete do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, durante a talk Mulheres com ECO, dedicada ao setor da defesa, espaço e cibersegurança, com Helena Silva, CTO do CEiiA, e Paula Monteiro, Chief Information Security Officer da Siemens. Com a situação vivida na Europa - onde a guerra na Ucrânia não dá tréguas e a paz parece estar longe de ser alcançada - e o aumento da conflitualidade geopolítica, com a recente ação militar contra o Irão pelos EUA e Israel a surgir como um dos focos de maior intensidade com repercussões na segurança e na economia mundial, o Velho Continente tem vindo a apostar no reforço das suas capacidades de defesa, com investimentos avultados para a compra de equipamento militar e a promoção de uma maior proximidade entre as forças militares e as empresas de defesa, inclusive startups. O programa de empréstimos europeu SAFE é apenas um dos exemplos dessa aposta, tendo Portugal garantido uma fatia de 5,8 mil milhões, para compra de equipamentos como fragatas, drones, satélites ou veículos táticos. “O que está a ser ponderado é um conjunto de verbas que estão a ser destinadas para o reequipamento da Defesa, mas que poderão ser aplicadas também em equipamentos que têm um duplo uso e, igualmente, vai trazer frutos para a própria economia portuguesa, na indústria, na academia”, diz a Capitão Patrícia Fernandes. “Temos que procurar olhar para este investimento não só como uma oportunidade para as Forças Armadas, mas também para o próprio país”, afirma. “Não estamos apenas e só num momento de oportunidade de adquirir equipamento, mas também num momento de investimento naquilo que é o futuro das Forças Armadas, naquilo que é o futuro do país, naquilo que é o futuro da tecnologia”, aponta a militar. Nesse sentido, há ensinamentos a retirar da Ucrânia, onde a tecnologia de drones para uso militar teve grande impulso. Capitão Patrícia Fernandes, porta-voz do Gabinete do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Espaço como novo domínio da defesa “As Forças Armadas têm que olhar para uma nova forma de atuação, novos teatros, novas áreas”, diz. E uma dessas novas áreas de atenção é o Espaço. “Até agora tínhamos sobretudo explorado, e muito explorado, a terra, o mar e o ar”, entretanto, caminhamos para o ciberespaço. “Neste momento estamos num quinto domínio, que já foi declarado como utilizável para a defesa, o espaço”, aponta a porta-voz do Gabinete do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas. E nesse campo, o país tem vindo a demonstrar capacidade. “Portugal é, neste momento, já uma referência a nível europeu na área do espaço”, defende Helena Silva. “Não demorou mais do que cincos anos, Portugal passar de um fornecedor de serviços para a Agência Espacial Europeia, para uma flying nation“, reforça. A Chief Technology Officer (CTO) do CEiiA lembra que a Constelação do Atlântico, projeto que envolve a Geosat e a Força Aérea, por exemplo, foi referido por Ursula von der Leyen no seu discurso do Estado da Nação como “um exemplo daquilo que deve ser a colaboração entre a área da defesa e a área civil, para trabalharmos todos para a soberania [espacial] da Europa. E mais recentemente, em janeiro, na sequência da visita do Comissário Europeu, Kubilius, que visitou o CEiiA e a Força Aérea, ele disse mesmo que Portugal is becoming a big power in space ”. Helena Silva descreve um percurso do país neste campo, que passou pela criação da Agenda New Space, tirando partido do financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com 40 parceiros. E que, entre outros aspetos, passa por garantir capacidades de lançamento de satélites - a Força Aérea, com financiamento do PRR, planeia fazer lançamentos na ilha de Santa Maria, a partir de instalações próprias na ilha açoriana -, mas também a produção de satélites de muita alta resolução e que serão integrados na Constelação do Atlântico. “Neste momento estão previstos 11 [satélites] mas prevê-se que cheguem aos 16 e o nosso objetivo é que tenhamos com Espanha capacidade para virmos a federar outras constelações europeias. Isto permite-nos ter um contributo muito importante para a área da defesa em Portugal, mas também para a soberania da Europa”, detalha Helena Silva. Helena Silva, Chief Technology Officer (CTO) do CEiiA. A Constelação do Atlântico é, aliás, exemplo de outras buzzwords que marcam atualmente o setor de defesa e espaço: tecnologia de uso dual. Com este crescente foco na necessidade de defesa da Europa, a defesa irá ganhar mais terreno no espaço? Helena Silva não hesita. “Vai ter um grande protagonismo. Por exemplo, a Constelação do Atlântico, o objetivo é ter tempos de revisita em todo o planeta de três horas e com resoluções abaixo dos cinco centímetros por pixel. Isto para a área da defesa é absolutamente determinante para a identificação de infraestruturas críticas, de campos de potencial agressão física. E quando nós estamos a usar imagens de observação da terra com muita resolução, isso dá um espaço de aplicação à área de segurança e defesa brutal”, justifica a CTO do CEiiA. No tema da proteção de infraestruturas críticas a cibersegurança tem vindo a ganhar expressão, com a guerra moderna a visar este tipo de equipamentos, com ciberataques a serem patrocinados por Estados. “Muitos dos produtos que vão para infraestruturas críticas são produzidos na Siemens. Faz parte do nosso coração garantir que esses produtos são seguros e não são o ponto de entrada [de ataques] para os nossos clientes”, aponta Paula Monteiro, Chief Information Security Officer da Siemens. Para garantir a segurança dos equipamentos, a Siemens, participa, por exemplo, em exercícios operacionais na área de defesa cibernética. “Participamos no exercício de Locked Shields [organizado anualmente pelo Centro de Excelência em Defesa Cibernética Cooperativa da NATO] em que damos parte dos nossos produtos para um ambiente a ser testado, para explorarmos, para aprendermos nós próprios como nos defendermos. Acima de tudo desafiar-nos também a encontrar novas formas de defender os nossos produtos e defender os nossos clientes”, descreve. “Temos dedicado muito tempo, acima de tudo, estabelecido muitos canais de comunicação para aprender no último ano muito sobre satélites. Há duas semanas estivemos a ouvir colegas alemães a explicar quais são os tipos de ataques nos satélites. Espantosamente, não são novos. São voltar ao passado e replicar coisas que nós achávamos que estavam ultrapassadas, mas que funcionam ainda hoje”, alerta. É um desafio complexo. “Temos um stock tecnológico muito grande. Dentro da empresa temos coisas muito inovadoras, mas depois temos em ambientes mais industriais coisas com 30 anos. E há 30 anos a cibersegurança não era tópico. Portanto, se os ambientes não mudaram, as vulnerabilidades continuam lá”, explica. Paula Monteiro, Chief Information Security Officer da Siemens. E com a inteligência artificial (IA) a entrar na caixa de ferramentas dos hackers, a complexidade intensifica-se. Como responder? Com mais IA. “O fogo combate-se com o fogo, portanto, onde há IA de um lado, do outro vai haver com a mesma intensidade. Aqui o grande desafio, diria que são dois. O primeiro, é a acessibilidade. Nós antes tínhamos uma barreira de conhecimento tecnológico que era necessário para se atacar e, neste momento, essa barreira é inexistente. Qualquer pessoa com uma prompt consegue criar uma ferramenta de ataque”, alerta a Chief Information Security Officer da Siemens. “Depois é a dimensão que pode tomar, é muito rápido e nós temos que ter confiabilidade nos modelos que estamos a usar, que é a parte mais difícil. Enquanto antigamente abriríamos um código, saberíamos ler o código e perceber exatamente onde é que estava o problema e corrigir, neste momento com os modelos da IA é mais difícil, então tudo o que é posto em produção para defesa tem que ser confiável e é um grande desafio”, destaca Paula Monteiro. Talento e género Neste contexto de enorme complexidade, tecnológica, mas não só, como se prepara o talento para responder aos desafios? “Uma arma neste momento não é apenas e só utilizada num alvo em que se aponta e se atira. Toda ela tem um mecanismo, toda ela tem acoplada uma tecnologia que leva a que também os próprios recursos humanos se adaptem e que sejam, obviamente, tecnologicamente mais evoluídos”, comenta a Capitão Patrícia Fernandes. Mas, para porta-voz do Gabinete do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas a atual aposta que está a ser feita no setor da defesa e a ligação de maior proximidade que as Forças Armadas estão a manter com a indústria - veja-se o caso dos satélites - é uma forma de manter no país talento que, de outro modo, poderia optar por sair. “Não estamos unicamente a adquirir o produto final. Nós estamos efetivamente a adquirir também o conhecimento. E isso vai permitir que Portugal possa ter aqui uma oportunidade de criação dos seus próprios satélites, com os benefícios que vai ter para a indústria e para a academia”, diz. “É uma oportunidade superior que temos de jovens altamente qualificados se manterem em Portugal por uma situação inovadora da aplicação das suas competências num projeto desafiante, de criação destes próprios satélites para depois serem lançados e, obviamente, aumentar a nossa resiliência no que diz respeito ao espaço”, afirma. E algo com os mesmos contornos é defendido por Helena Silva. “Nós hoje, por causa do espaço, já fomos buscar colegas nossos que estavam a trabalhar noutros países na Europa. Mais importante do que atrair muitas vezes é ir recuperar recursos humanos que, entretanto, tiveram uma experiência muito grande lá fora e que já conseguem formar as equipas e partilhar esse conhecimento”, argumenta a CTO do CEiiA. “Hoje Portugal está bem preparado para atrair bons recursos humanos. Obviamente, que vai haver sempre muitos a querer fazer a sua carreira internacional, também é importante para o país, mas também é importante termos estes projetos para depois poder usar essa experiência que, muitas vezes, e no caso da cibersegurança, acredito, é a experiência de on-job“, refere. E o mesmo diz Paula Monteiro. “Em Portugal estamos muito bem cotados na cibersegurança. Temos muito bom talento. O problema é que um talento de cibersegurança faz-se com muita experiência. Não sai da faculdade a saber cibersegurança. ( ) E isso leva algum tempo. E é aí que está a dificuldade. Não temos esse tempo”, diz a responsável da Siemens. E, nesse campo, que papel é reservado às mulheres? Há mais paridade de género no talento cyber? “Somos um campo que tem muita democracia. Desde sempre, se formos a ver os filmes populares dos anos 80, as primeiras hackers eram mulheres. Não há menos capacidade. Uma questão é a representação. Sermos poucas é inevitável porque a engenharia não forma assim tantas. Mas as que há são muito bem representadas e respeitadas”, diz. “A diversidade só enriquece depois a cibersegurança, porque são maneiras diferentes de pensar. Complementando um bocadinho o que um professor nosso dizia, nós somos ótimas a tratar erros . E isso é uma grande mais-valia. Principalmente na cibersegurança, as vulnerabilidades, quanto mais cedo [forem detetadas], mais protegido o produto vai estar. Portanto, ter o máximo de diversidade dentro das equipas de desenvolvimento é sempre uma mais-valia”, diz. No caso do CEIA, as mulheres estão a ganhar terreno no Espaço, principalmente na área das aplicações. “Tudo o que tem a ver com o desenvolvimento de novos modelos de IA, que integram fusões de dados e usam as imagens do espaço para criar novas aplicações na Terra, a equipa do Space Digital no CEiiA é dominada por mulheres de várias áreas. Muitas delas, aliás, a maior parte não são aeroespaciais, são de outras disciplinas. E, portanto, podemos dizer que no espaço, no CEiiA, existem muitas mulheres”, diz Helena Silva. “Se estivermos a falar noutras áreas, como a eletrónica, engenharia mecânica, ainda é muito dominado por homens”, acrescenta. “As mulheres são mesmo boas a prever o futuro, tudo o que tem que ver com os modelos preditivos, com modulação, com trabalho em app, com user interface. Acredito nisso, e acredito que cada vez mais vamos ter mulheres à frente das Forças Armadas porque a guerra hoje não é física, portanto, não tem a ver com as nossas capacidades físicas, tem a ver muito mais com a forma como usamos o conhecimento e para as mulheres não há limites para isso”, argumenta. Hoje as mulheres são menos de 20% das Forças Armadas nacionais. “As mulheres no geral das Forças Armadas são de 17%. Acredito que ao longo dos anos este número vai logicamente evoluir. Efetivamente, há uma predominância das mulheres na área mais administrativa, mais apoio, mas acredito que mais na área operacional vamos ver mais mulheres”, considera a Capitão Patrícia Fernandes. “É uma questão cultural, as mulheres entraram para as Forças Armadas em 1989. Portanto, a minha mãe não se habitou a ver mulheres nas Forças Armadas ou pensar sequer numa carreira militar, as minhas filhas já vão olhar para uma carreira militar como uma naturalidade”, refere. “Nas Forças Armadas obviamente queremos que haja essa diversidade e se há um sítio onde há oportunidades para tal e igualdade, efetivamente é nas Forças Armadas. Aqui a carreira é igual para todos e as oportunidades são as mesmas”, defende. “Obviamente, a vinda de mulheres para as Forças Armadas tem que ser natural, como a ida para as áreas das engenharias. Julgo que isso é algo que está em mudança.” Veja aqui na íntegra o vídeo com a talk: E ouça aqui o Podcast Ana Marcela