INOVAÇÃO NA CIRCULARIDADE DE BATERIAS ACELERA COM PRESSÃO POR MATÉRIAS-PRIMAS CRÍTICAS
2026-04-29 21:06:15

O número de patentes na área da reciclagem e reutilização de baterias disparou entre 2017 e 2023, revela um estudo da Organização Europeia de Patentes (OEP) e da Agência Internacional de Energia (AIE). "Fenómeno" pode aliviar a pressão sobre as cadeias de abastecimento de minerais críticos, reduzir impactos ambientais e criar oportunidades económicas. A indústria das baterias tem vindo a crescer a um ritmo galopante. À luz de dados da Agência Internacional de Energia (AIE), a dimensão do mercado expandiu-se cinco vezes em cinco anos, com a procura anual a ultrapassar o marco histórico de 1 terawatt-hora (TWh) em 2024, prevendo-se que atinja mais de 3,5 TWh em 2030. Uma tecnologia que figura como uma "força disruptiva" no plano energético, a vários níveis. Basta pensar que sensivelmente "um em cada quatro automóveis vendidos em todo o mundo em 2025 eram elétricos", ou seja, "dependentes de baterias de iões de lítio ou outras tecnologias modernas de acumulação de energia" e que "as instalações de armazenamento de energia em baterias de grande escala estão a permitir que as redes elétricas operem com mais flexibilidade, integrem maiores participações de eletricidade renovável variável e reforçar a resiliência contra interrupções". Estes dois exemplos constam de um estudo, lançado esta quarta-feira pela Organização Europeia de Patentes (OEP) e pela Agência Internacional de Energia (AIE), que olha para o reverso da medalha, ou seja, para os desafios, desde logo, do foro ambiental, que coloca o aparecimento de uma grande indústria de baterias no centro do setor energético colocam. É que se "estima que cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos possam atingir o fim de vida em 2030 e 14 milhões em 2040", o que suscita "uma preocupação com a gestão de resíduos que precisará de ser abordada". E, neste sentido, para ajudar a responder a este tipo de desafios e num contexto marcado por uma crescente pressão no acesso a matérias-primas críticas, tem crescido a procura pela circularidade das baterias, que inclui reciclagem, reutilização e reaproveitamento para novas aplicações. "Se uma parcela significativa de materiais críticos puder ser recuperada , algo que já foi tecnicamente demonstrado , isto aumentará a diversidade e a resiliência do fornecimento, ao mesmo tempo que reduzirá a pressão sobre a extração primária de minerais e os impactos ambientais associados", lê-se no documento. Essa procura encontra respaldo no aumento da inovação que tem, por seu turno, um indicador importante no registo de patentes. De acordo com o relatório, no campo da energia, o patenteamento relacionado com a circularidade das baterias está a crescer ainda mais rapidamente do que o patenteamento de baterias em geral, e muito mais rapidamente do que a média em todas as tecnologias. Um crescimento sobretudo "impulsionado pela rápida adoção de veículos elétricos a nível global, bem como pela legislação na Europa e na China, que responsabiliza as empresas pelas baterias de veículos elétricos em fim de vida". A OEP e a AIE convertem em números o que chamam de um "fenómeno novo": entre 2017 e 2023, as famílias de patentes internacionais [conjunto de pedidos de patente apresentados em vários países para a mesma invenção] relacionadas com a circularidade das baterias registaram uma taxa média de crescimento anual de 42%. Ásia lidera e Europa reforça A Ásia lidera nesta área, tendo representado 63% das famílias internacionais de patentes em 2023, de acordo com o estudo que sinaliza mudanças a Oriente. "Até 2019, empresas japonesas e coreanas como Toyota, LG e Sumitomo dominavam o setor, mas foram ultrapassadas pela chinesa Brunp. Este crescimento contribuiu para aumentar a quota da China de 5% em 2013 para 29% em 2023, refletindo também uma aposta crescente na internacionalização", resumem as duas organizações internacionais, num comunicado conjunto, com as principais conclusões do estudo. Já na Europa, empresas e institutos de investigação representam cerca de 20% das chamadas famílias internacionais de patentes nesta área, "com enfoque na recolha e transformação de baterias usadas em matérias-primas para novas baterias". Um foco que - explicam as duas entidades - "reflete o papel atual da Europa mais como utilizador do que como produtor de baterias". "Embora com um crescimento mais lento do que na Ásia, a inovação na Europa está a expandir", sendo que, "com apoio político direcionado ao nível da União Europeia, esta atividade poderá constituir a base de um ecossistema europeu robusto na circularidade das baterias". "A inovação nas tecnologias de circularidade das baterias é essencial para assegurar recursos, reforçar a competitividade e reduzir o impacto ambiental", diz o presidente da OEP, António Campinos, citado na nota conjunta divulgada a propósito do novo relatório. "À medida que este setor ganha importância, as regiões que combinam ecossistemas industriais sólidos, política pública favorável e acesso a matéria-prima reciclada estarão melhor posicionadas para liderar a economia circular", complementa, apontando que "a Europa reúne muitos destes elementos, com um ecossistema de inovação diversificado e iniciativas políticas que proporcionam uma base sólida para o desenvolvimento de cadeias de valor circulares das baterias". As regiões que combinam ecossistemas industriais sólidos, política pública favorável e acesso a matéria-prima reciclada estarão melhor posicionadas para liderar a economia circular. Presidente da OEP António Campinos "Na era da eletricidade, as baterias tornaram-se um pilar da segurança energética e da competitividade industrial, mas o seu pleno valor só será concretizado se os países desenvolverem sistemas circulares robustos em torno delas", comenta, por seu turno, o diretor executivo da AIE, Fatih Birol. O economista turco enfatiza que as vantagens são muitas e vão além do domínio ambiental: "A aceleração da inovação na reciclagem e reutilização pode aliviar a pressão sobre as cadeias de abastecimento de minerais críticos, reduzir impactos ambientais e criar novas oportunidades económicas". "A Europa tem pontos fortes importantes sobre os quais pode construir. E este relatório evidencia como a inovação direcionada e o apoio político podem posicioná-la na vanguarda de uma economia sustentável das baterias", frisa o diretor executivo da AIE. A aceleração da inovação na reciclagem e reutilização pode aliviar a pressão sobre as cadeias de abastecimento de minerais críticos, reduzir impactos ambientais e criar novas oportunidades económicas. Diretor executivo da AIE Fatih Birol Diana do Mar dianamar@negocios.pt Diana do Mar dianamar@negocios.pt