COMO CONTORNAR A CENSURA
2026-04-30 21:06:08

INFORMAÇÃO E PROPAGANDA - Em Lisboa, num dos pavilhões da Mitra, está patente a exposição “Armas de Papel”, dedicada à imprensa e publicações clandestinas do período entre 1926 e 1974, ou seja todo o tempo que durou a ditadura do Estado Novo. Algumas pessoas poderão querer reduzir os materiais expostos a exemplos de propaganda oposicionista e partidária e até poderão argumentar que não havia falta de jornais legais nessa época: em Abril de 1974 existiam mais de uma dezena de jornais diários em Lisboa e no Porto, outros tantos periódicos por todo o país (entre eles o mais antigo jornal português, fundado em 1835, o Açoriano Oriental, um dos dez mais antigos do mundo). E havia uma dezena de estações de rádio, entre as do Estado, da Igreja e as próximas do regime, mas apenas um canal de televisão, também do Estado. O problema é que mesmo os jornais diários e publicações semanais mais ligados à ala liberal do regime no tempo do Marcelismo (como o Expresso) ou à oposição (como o República), só eram publicados depois de serem visados pela censura e com os cortes que o lápis azul dos censores impunha. Isto aplicava-se também aos noticiários da rádio e da televisão, às canções que podiam passar ou aos filmes exibidos. Ou seja, apenas circulava a informação que o regime considerava inofensiva, o que desde logo eliminava notícias sobre greves, protestos, presos políticos, manifestações, protestos estudantis, a guerra colonial ou até catástrofes como as cheias de 1967. A censura não se limitava a cortar texto, afiava a sua tesoura em cima de fotografias que de algum modo pudessem pôr em causa o regime - como aconteceu nas campanhas eleitorais de Norton de Matos, Humberto Delgado e, depois, nas campanhas eleitorais de 1969 e 1972 ou no funeral do estudante Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE em Outubro de 1972 dentro de instalações universitárias. A imprensa e as publicações clandestinas tinham um papel importante: não se limitavam a divulgar ideologia ou manifestos políticos, eram a forma de dar nota do que se passava no país e não era mostrado, davam sinal da existência de oposição, relatavam, sobretudo nas publicações feitas na emigração, a realidade sobre a guerra colonial. Muitas vezes eram feitas de forma rudimentar - e esta exposição “Armas de Papel”, promovida pelo Arquivo Ephemera, mostra exemplos de aparelhos utilizados para imprimir jornais e panfletos, relata formas de distribuição usadas e dá uma boa ideia sobre a maneira como em circunstâncias difíceis, e muitas vezes arriscadas, se mostrava o que o regime queria esconder. Até 30 de Junho, na Mitra, de sexta a domingo entre as 10 e as 18. SEMANADA - Entre 2021 e 2025, morreram 328 doentes enquanto aguardavam por cirurgia cardíaca; no final do primeiro trimestre mais de 2800 pessoas estavam internadas nos hospitais sem razão clínica, ocupando quase 14% do total de camas; estes internamentos indevidos custam mais de 350 milhões de euros por ano ao SNS; em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos cresceu respectivamente 82% e 72%; em 2025 foram dispensadas por dia, em Portugal continental, cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos, totalizando quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década, com encargos do SNS a rondar os 152 milhões de euros; há acusações de violência doméstica paradas há mais de um ano nos tribunais sem serem investigadas e julgadas; segundo a Comissão Europeia os portugueses afirmam poupar mensalmente 9,5 horas a executar tarefas profissionais graças à utilização de ferramentas de IA e a média da UE é de 7,4 horas; a Entidade para a Transparência só fiscalizou 10% das declarações de políticos entregues até 2026, apenas 883 das 8620 declarações de rendimentos, património e incompatibilidades recebidas entre 2024 e 2025; o Ministério Público só conseguiu analisar 1,6% das comunicações sobre suspeitas de branqueamento de capitais que recebeu. O ARCO DA VELHA - Cerca de 20 mil clientes ainda estão sem serviços fixos de comunicações, três meses após a depressão Kristin ter atingido o País, revelou a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) à Lusa. UM CRIME NO FIORDE - Os policiais da islandesa Yrsa Sigurdardóttir são tão apaixonantes quanto retorcidos e este seu novo livro, “Não Podes Fugir, Não Podes Esconder-te” é dos mais intrincados mistérios que tenho lido desta autora. A história arrepia desde o início: numa fria noite de inverno, num remoto e isolado fiorde islandês, um vizinho vai a casa de uma família que não é vista há uma semana. Ninguém atende quando ele bate à porta. Quando consegue entrar à força pela porta das traseiras depara-se com uma cena macabra - toda a gente morta de forma particularmente violenta. À medida que a investigação avança descobrem-se segredos cada vez mais perturbadores sobre a família que tinha acabado de se fixar naquele lugar isolado depois de vender a sua empresa de IA por milhões de dólares. Sigurðardóttir alterna capítulos entre o presente e acontecimentos do passado, descreve personagens sinistras, alimenta suspeitas, relata incidentes perturbadores. A busca pelo assassino é longa, as pistas apontam em várias direcções. Pelo meio há uma fortuna desaparecida, a suspeita de que foi transformada em criptomoedas e a descoberta do autor dos crimes acaba por acontecer no meio de um novelo de pistas cruzadas. Edição Quetzal. MESA DE CABECEIRA - Tristan Gooley é um explorador que participa em expedições por todo o mundo e dedica a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza. Em “Como Ler Uma Árvore”, o autor explica que cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa planta e a paisagem onde vive. A BBC chamou a Tristan Gooley “ o Sherlock Holmes da natureza” e este seu livro permite entrar na arte de interpretar os sinais da natureza. (Edição Pergaminho). Outro livro revelador sobre o mundo que nos rodeia é “A Árvore da Vida”, de Max Telford. O autor leva os leitores por uma viagem de quatro mil milhões de anos pela evolução do nosso planeta e conta a história da gigantesca árvore genealógica que regista as relações entre todos os seres vivos: dos humanos, dos peixes e das borboletas até aos carvalhos, aos cogumelos e às bactérias. Ajuda a compreender como surgiu a diversidade da vida na Terra, desde os primeiros esboços de Darwin até aos diagramas gerados por computador que os cientistas constroem na atualidade. (Edição Temas & Debates). SAXOFONE - O trio de saxofone tenor, baixo e bateria é uma das formações clássicas do jazz, explorada por nomes como Sonny Rollins ou Joe Henderson. Em 2018 Walter Smith III, um saxofonista norte-americano, lançou o primeiro volume de “Twio”. Surge agora o segundo volume e ao lado de Smith estão o baixista Joe Sanders e o baterista Kendrick Scott, com participações nalgumas faixas do baixista Ron Carter e do saxofonista Branford Marsalis. O álbum tem dez temas, e, como o próprio Walter Smith III afirma, escolheu standards pouco conhecidos, preferindo a aventura da descoberta à rotina de revisitar evidências. Destaque para”My Ideal”, uma versão instrumental de uma balada cantada por Chet Baker, para o solo de Ron Carter em “Casual-Lee” , a interpretação de Smith no tema “Isfahan” de Billy Strayhorn and Duke Ellington ou ainda a forma como os saxofones de Smith e Marsalis se cruzam num tema composto por este último, “Swingin At The Haven”. O resultado é um álbum apaixonante, uma harmonia perfeita dos músicos e um swing contagiante. Edição Blue Note disponível em streaming. O MUZEU DE BRAGA - Desde a semana passada a cidade de Barga, que já tem uma actividade cultural intensa, passou a ter um espaço dedicado à arte contemporânea, cujo custo, de 40 milhões de euros, foi inteiramente assumido pela DST, uma das grandes empresas da cidade, dirigida por José Teixeira. Ao longo de 40 anos reuniu uma colecção com 1500 obras de arte de 250 artistas nacionais e estrangeiros. O novo equipamento chama-se Muzeu e está instalado no centro da cidade, num antigo Tribunal, recuperado com um projecto do arquitecto José Carvalho de Araújo. Uma das atracções do Muzeu é uma sala dedicada a Anselm Kiefer e, na fotografia desta página está “Sol Invictus”, uma evocação de Van Gogh, frequente no trabalho de Kiefer. Esta sala mostra outras quatro pinturas, duas esculturas e uma fotografia do artista, que até aqui estava ausente com esta dimensão de colecções portuguesas. Nos portugueses há uma nova série de 18 obras de Pedro Cabrita Reis, “After Velásquez & Maybee Bacon”, além de obras de José Pedro Croft, Rui Chafes, Paula Rego, Alberto Carneiro, Lourdes Castro, Miguel Palma, René Bertholo, Ângelo de Sousa, Álvaro Lapa, Helena Almeida, Ângela Ferreira e Sandra Baía. Nos internacionais, além de Kiefer, há trabalhos de Julian Opie, Nan Goldin, Candida Höfer, Andre Butzer, Jason Martin, Miguel Rio Branco, Richard Long ou Alex Katz, entre outros. Esta exposição inaugural do Muzeu, concebida pela sua directora, Helena Mendes Pereira, ocupa quatro pisos expositivos, soma mais de cem obras de 96 artistas - 40 portugueses e 56 internacionais - e ficará patente até 23 de outubro de 2027. O PORTUGAL DE TODD WEBB - Um dos grandes fotógrafos norte-americanos, Todd Webb (1905-2000), visitou Portugal em três ocasiões entre 1972 e 1982. Recentemente, o Todd Webb Archive doou o espólio português do fotógrafo à Fundação Gulbenkian, que agora mostra essas imagens na Galeria do Piso Inferior da Fundação até 27 de Julho. A exposição , a primeira de Webb em Portugal, inclui a totalidade das suas fotografias portuguesas, acompanhada de dois pequenos núcleos dos seus trabalhos sobre Nova Iorque e a África subsaariana. As sessenta e uma provas fotográficas doadas, cobrem Portugal de Sul a Norte. Jorge Calado, que fez a curadoria da exposição e que ao longo dos anos foi acompanhando o trabalho de Webb. Calado foi ainda decisivo na doação das fotografias portuguesas de Webb à Gulbenkian e no catálogo da exposição sublinha: “Webb era um fotógrafo humanista, implicado na humanidade de tudo o que observava”, destacando a atracção do fotógrafo pela arquitectura, traduzida pela “sua quase obsessão com ruas estreitas e afuniladas e com arcos, arcadas e portas” que fotografou em Portugal. DIXIT - “A Democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas” - António Barreto, no Público. BACK TO BASICS - “É fácil ser-se corajoso mantendo uma distância segura” - Ésopo. A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS