pressmedia logo

PRESSÃO AMERICANA DE ALTO NÍVEL PARA CAÇAS F-35

Expresso

2026-05-01 06:00:05

Americanos fazem pressão ao mais alto nível para vender caças F-35 Embaixador nos EUA na NATO elogia Portugal, mas pressiona venda para ter “aliado forte” Esta quarta-feira de manhã, na Fundação Gulbenkian, à hora a que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, terminava um discurso feito de subtilezas diplomáticas sobre as relações transatlânticas, o embaixador dos EUA na NATO, Matthew Whitaker um dos diplomatas mais próximos de Donald Trump começava a falar na Fundação Luso-Americana para O Desenvolvimento (FLAD), para elogiar o investimento de Portugal em Defesa, e pressionar a aquisição de caças norte-americanos F-35. No Foro La Toja, uma conferência de alto nível luso-espanhola, Paulo Rangel explicava como a aliança com a potência dominante no Atlântico ,a Inglaterra ou OS Estados Unidos , constitui uma tendência histórica permanente da política externa por-tuguesa, e uma diferença em relação a Espanha. Noutro bairro de Lisboa, Matthew Whitaker que chegou a ser procurador-geral na primeira administração Trump - criticava Espanha: “vocês têm um vizinho que tem sido um desafio para os EUA, que não nos concedeu acesso a bases nem permissão de sobrevoo como esperávamos”, no âmbito da guerra no Irão. A seu lado, a fazer o contraste com as críticas a Espanha, o embaixador norte-americano em Lisboa, John Arrigo, elogiava: “Portugal dá-nos um apoio fundamental na Base Aérea dos Açores, o que garante a segurança da NATO todos os dias. E o Governo atingiu os 2% de despesas com a Defesa este ano, com um plano claro para atingir os 5% até 2035.” Lajes mais relevantes O contexto importa. Num momento em que há muito ruído a partir de Washington , Trump esta semana voltou a ameaçar retirar as tropas da Alemanha , Whitaker visitou Portugal no âmbito da ronda que está a fazer pelos aliados, e recolheu informação que poderá ser relevante num futuro próximo, quando OS EUA reconfigurarem a presença na Europa, porque estão a fazer um “cálculo e uma reavaliação do valor da aliança da NATO”. Apesar de ter mantido a pressão alta pela necessidade de mais investimento, observadores políticos e militares comentam com o Expresso que Whitaker parecia estar a minimizar os estragos retóricos da Administração, enquanto não se coibia de fazer pressão em público para Portugal comprar os caças “invisíveis” da Lockheed Martin. e essa mudança profunda na Aliança que está a ser preparada, e que terá efeitos na Europa e em Portugal. O especialista francês Camille Grand, secretário-geral da Associação Europeia das Indústrias Aerospaciais, Segurança e Defesa, e que trabalhou vários anos na NATO, diz ao Expresso que “a relação com OS EUA não voltará aos velhos bons dias do passado”, e que OS Estados Unidos “já pediram aos europeus para tomarem conta da defesa convencional do continente”, um aspeto que será discutido na Cimeira da NATO de julho, em Ancara, na Turquia. O guarda-chuva nuclear, porém, está garantido pelos EUA, prometeu Whitaker, na conferência da FLAD. Nesta nova circunstância estratégica, os Açores pode-rão recuperar importância, à medida que O àrtico se torna fundamental para a segurança dos EUA, uma ideia em que convergem várias fontes políticas e militares: se russos e chineses querem passar pelo àrtico, o objetivo é chegar ao Atlântico. E isso faz com que Portugal possa pen-sar que oS EUA queiram dar mais centralidade à Base das Lajes no futuro. Não se sabe como, nem se é apenas um desejo de Portugal. Matthew Whitaker também visitou a ilha Terceira esta semana, por onde têm passado meios militares e de apoio logístico empenhados na guerra, embora Paulo Rangel continue a desvalorizar o uso que os EUA fazem da base, classificando-o como “ínfimo” e “pouco relevante”.com disse numa entrevista à RTP esta quarta-feira. Americanos não são melhores? A lógica transacional da Administração Trump está sempre presente, mesmo que Portugal esteja fora dos supostos castigos com que a Casa Branca tem ameaçado os europeus menos colaborantes. Matthew Whitaker quer “aliados fortes”, que possam “aliar-se aos Estados Unidos, contribuir com capacidades reais, projeção real de poder, e dissuasão real”, afirmou na FLAD. E isso inclui “investir em projetos como O F-35”. A pressão do alto responsável dos EUA foi mesmo mais longe: “Sei que Portugal tomará, espero que em breve, a decisão de optar por essa plataforma”, afirmou. “e, de longe, a melhor plataforma possível e o melhor investimento que se pode fazer em defesa e dissuasão, não só para o país, mas para a Aliança.” Embora os norte-americanos queiram vender armamento à Europa, também querem que os europeus desenvolvam a base industrial da defesa. Ainda assim, noutro evento de alto nível que decorreu esta terça-feira, no Estoril (ver caixas), altos executivos da indústria militar europeia desafiaram a hegemonia dos EUA. eric Trappier, presidente da francesa Dassault Aviation, que fabrica os caças Rafale, afirmou: “Não é verdade que compremos americano porque eles são melhores, isso não é verdade.” o sueco Micael Johansson, CEO Saab, que fabrica os aviões de combate Gripen, reforçou: “Estamos a produzir quatro ou cinco vezes mais do que eles, e não é verdade que tenhamos de comprar americano por ser a única maneira de ter as coisas a tempo.” Com a pressão de Washington a aumentar em Lisboa, Micael Johansson admitiu ao Expresso que a Saab já teve “contactos com o Ministério da Defesa, a Força Aérea e a indústria, para mostrar o potencial do programa do caça Gripen”, onde se inclui a possibilidade de montagem de partes do avião nas OGMA, em Alverca, ou mesmo uma montagem final. Um argumento industrial, a que O Governo parece ser sensível, apesar de a Força Aérea ser clara na preferência pelos norte-americanos. matos@expresso.impresa.p DEFESA Sei que Portugal tomará, em breve, a opção” pelos F-35, diz o embaixador dos EUA na NATO Na nova circunstância estratégica, a Base das Lajes poderá recuperar importãncia Matthew Whitaker, embaixador dos EUA na NATO e próximo de Trump, visitou Lisboa esta semana FOTO JONATHAN ERNST/REUTERS VÍTOR MATOS