CULTURAS - ELON MUSK EM PILOTO-AUTOMÁTICO
2026-05-01 21:05:52

Os modelos mais recentes do fabricante de carros Volvo têm uma protuberância frontal no tejadilho. Não se trata de um artifício estético. Aliás, conseguimos apenas imaginar o quão a contragosto os designers suecos, conhecidos maximalistas na sua paixão pelo minimalismo, a terão implementado. Por baixo da saliência escondese um radar a laser ,, apelidado sistema LiDAR, acrónimo de Light Detection and Ranging ,_ que faz o mapeamento 3D em tempo real de tudo o que rodeia o carro durante a viagem, auxiliando o condutor, que assim deixa de estar dependente do que os seus olhos veem para “lidar” com obstáculos que encontre no caminho. Muito diferente tem sido a abordagem da Tesla e dos seus sistemas de condução autónoma, baseados exclusivamente em câmaras de vídeo e na visão e interpretação do mundo por parte do software que acompanha os carros. Ora, apesar deste introito, as linhas que se seguem não versam sobre a Volvo ou a Tesla, nem, na verdade, sobre a indústria automóvel. o tema em questão é um documentário estreado em abril na plataforma de streaming Filmin “Elon Musk Exposto: a Experiência da Tesla” ,_ que explora a forma aparentemente perigosa e inconsequente como Elon Musk, CEO da Tesla, e voltae e meia o homem mais rico do mundo, promoveu a condução autónoma nos seus carros. /6L A tese central do filme é que terá vendido gato por lebre: o sistema de piloto automático da Tesla, que permite aos veículos conduzir temporariamente de forma autónoma, assumindo o controlo da direção, da travagem e da aceleração, não estaria preparado para substituir o condutor. Apesar de a empresa o promover como “Full Self-Driving” (ou seja, “condução totalmente autónoma”), o sistema foi concebido apenas para assistir o condutor, que deve manter os olhos na estrada e estar pronto a intervir a qualquer momento. O documentário de Andreas Pichler começa com imagens de um acidente de viação e trechos do que os 90 minutos seguintes mostrarão. Começa, no fundo, com algo como um Documentário revela discrepância entre expectativas e realidade da condução autónoma. Ex-funcionários da Tesla denunciam um perigo público mascarado de inovação trailer de si próprio. Uma espécie de nariz de cera audiovisual. Em 2019, Dillon Angulo tinha encostado o carro na beira da estrada no final de um entroncamento, um troço que obriga a virar à esquerda ou à direita. Estava uma noite agradável na Florida e Dillon achou que seria romântico sair do carro para contemplar o céu estrelado com a namorada, Naibel Benavides, de 22 anos. Na estrada, rumo ao tal entroncamento, seguia um Tesla Model s em modo de piloto automático. Ignorando a obrigatoriedade de virar, este seguiu em frente e abalroou o carro e o casal. Naibel teve morte instantânea. Dillon ficou com mazelas para o resto da vida. A família de Naibel processou a Tesla, mas, ao contrário de outras vítimas de acidentes envolvendo falhas no piloto automático, os Benavides recusaram ,se a chegar a acordo fora dos tribunais, travando uma longa batalha judicial que conheceu o seu desfecho em fevereiro de 2026 com uma sentença histórica. A Tesla, considerada 339 responsável pelo acidente, foi condenada a pagar 243 milhões de dólares à família da vítima. Entretanto, a empresa anunciou que vai recorrer da decisão. Este acidente é uma das raves-mestras do documentário. Outra é a história de Lukasz Krupski, o antigo técnico de serviços da Tesla que em 2023 divulgou ao jornal alemão “Handelsblatt” ficheiros internos da Tesla a que não deveria ter tido acesso. Fosse por incúria ou por desleixo da empresa, ficaram ao seu dispor milhares de documentos confidenciais. Os ficheiros passados ao jornal, que publicou a história em 2023 com o título “Tesla Files”, continham mais de 2400 queixas de clientes relacionadas com aceleração involuntária e mais de 1500 referentes a problemas de travagem, 139 das quais envolvendo travagens de emergência sem motivo aparente e 383 correspondendo a episódios de travagem-fantasma desencadeados por falsos alertas de colisão. Mais de mil acidentes estavam documentados. Havia ainda uma folha de cálculo à parte, com mais de 3 mil entradas relativas a incidentes com sistemas de assistência à condução em que os clientes levantaram preocupações de segurança. Entre OS Benavides e OS “Tesla Files”, O documentário apresenta entrevistas com outros denunciantes e ex-ax-funcionários despedidos por terem manifestado internamente as suas preocupações com a segurança dos carros que ajudaram a fabricar. Torna-se evidente, embora a reportagem musculada de Andreas Pichler a que chamamos documentário o diga de forma mais implícita do que explícita, que a Tesla tratou OS seus clientes como ratos de laboratório: estes, sem o saberem, testavam OS carros no dia a dia, enquanto a empresa aprendia com OS dados gerados pela utilização. Um perigo público. Igualmente evidente é o desfasamento entre a expectativa dos clientes e as reais capacidades da tecnologia, limitada pela resolução das câmaras e de um campo de visão largo, mas com baixa perceção de profundidade, donde resultaria um piloto automático míope. “Elon Musk Exposto: A Experiência da Tesla” vai intercalando as narrativas centrais e as entrevistas com O proverbial encher do chouriço. Vemos imagens de documentários anteriores sobre Musk, imagens de arquivo de apresentações públicas da Tesla, somos lembrados do percurso do empreendedor sul-africano, das dificuldades financeiras nos primeiros anos da Tesla, da sua influência na reeleição de Trump, e de como OS seus variados interesses e empresas , a Space-X, a Neuralink, a The Boring Company , parecem confluir para um mesmo objetivo: colonizar Marte. Nada disto é novidade. O anúncio, na última semana de abril, de que a Tesla iniciou a produção do Cybercab, o seu há muito prometido táxi de condução autónoma sem volante nem pedais, é que ganha novo sentido. ELON MUSK EXPOSTO: A EXPERIêNCIA DA TESLA De Andreas Pichler Documentário Na Filmin, em streaming Elon Musk, nascido na àfrica do Sul há 54 anos, êC CEO da Teslae e, volta emeia, o homem mais rico do mundo A Tesla tratou os clientes como ratos de laboratório: testavam os carros enquanto a empresa aprendia com os dados gerados pela utilização MARKUS ALMEIDA