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ACÇÃO PARALELA - O MUZEU E AS MUSAS

Público

2026-05-01 21:06:04

Livro de recitações No outrodiafui auma livraria emLisboa. Entreas vãrias categorias Poesia, Ensaio, Viagem haviauma que não deixa de me espantar: Literatura Gay” Ana Bárbara Pedrosa, in Expresso, 24/04/2026 A classificação de que fala Ana Bárbara Pedrosa não é mais absurda do que uma outra bastante mais aceite e difundida: a não-ficção. Se esta é totalmente explicável por tácticas e estratégias editoriais, a “literatura gay”, como categoria, teve em tempos recuados uma função: dar a ver e conferir legitimação cultural ao "pecado" que não ousava dizer o seu nome. Nesse tempo, as livrarias especializadas nesta categoria, geralmente situadas nos bairros mais cosmopolitas e trendy das grandes capitais, ampliavam-na demagogicamente, chegando ao ponto de incluírem no cânone gay uma larga parte da literatura universal.com jeito, até Michel Houellebecq lá cabia. Não vinha daí mal ao mundo, mas a categoria nunca aspirou ao rigor conceptual. Ainda assim, concluir que “romance é romance e romance não é mais nada, porque já tem potencial para ser tudo", como conclui a cronista, não deixa de ser uma redução da literatura ao romance, esse género que se propagou como um cancro muito mais nefasto do que a classificação de “literatura gay”. Em Braga, outrora chamada “cidade dos bispos” (um retrato actualmente pouco ajustado a esta cidade modernizada, dinâmica e capaz de proporcionar uma boa qualidade de vida), foi inaugurado no dia 25 de Abril um novo templo das musas (não é este o significado da palavra “museu"?), onde se presta culto à arte contemporânea. A vocação profana deste templo é indiciada por uma intervenção ortográfica: o museu chama-se Muzeu. oz é uma marca onomástica, abreviação de zé, que, por sua vez, é uma carinhosa e familiar abreviação de José , José Teixeira, presidente do grupo DST e ilustre mecenas. Um homem simples, para o qual basta inscrever a última letra do alfabeto óno seu grande empreendimento. Assim dizendo, parece que estou a situar-me a uma certa distância crítica. Explicarei a seguir o sentido desta manifesta distância, mas sem ironia e sem negar o valor e o mérito da instituição que este empresário ofereceu à comunidade, com um entusiasmo raro e comovente (podemos percebê-lo nas muitas entrevistas que tem dado, sem que haja indícios de que as suas declarações, tão contrárias à ortodoxia empresarial, sejam fruto de calculismo hipócrita). O Zé Teixeira (presumo que ele gosta de ser assim tratado para que o z do seu Muzeu não seja uma letra morta) apresenta-se como um crente nas coisas da arte, da arte contemporânea em especial. Acredita que ela é capaz de ser um factor de emancipação de todos os que a ela acedem, incluindo os trabalhadores da DST, incitados pelo patrão a retirar da arte e da cultura uma lição crítica e de autonomia. Longe de mim não sentir resdeito e admiração por esta crença; ou achar que ela é fútil e devia ser desencorajada. Não quero cair no cinismo, mesmo se disser que um museu de arte contemporânea, seja ele o Muzeu, não é a casa das musas, filhas de Mnemosina, deusa da memória. é, antes, um mundo desencantado, de onde desertaram musas e deuses e toda a espécie de transcendência. Por mais que o Zé Teixeira queira que o seu Muzeu tenha uma ligação com a existência prática dos cidadãos e dos trabalhadores da DST, este não passará de um lugar privado de qualquer função que não seja a de acolher objectos artísticos que não têm nenhuma utilidade. Embora inúteis e destituídos de qualquer missão, devemos fazer tudo para que existam e saudar o empresário de bons ofícios que contribuiu para que eles existam e sejam mostrados. Para dizer isto, não é preciso aludir à tese hegeliana da morte da arte, ou melhor, da arte que, na sua “suprema destinação”, é uma “coisa do passado”. Mas se já Hegel percebeu que se encontrava numa situação epocal pouco favorável à arte, em que ela já não encontra aquele sólido reconhecimento no mundo público, enquanto “depositária da verdade”, como era a arte clássica, que diremos nós, hoje, quando se tornou óbvio que SáO OS museus e os centros de arte contemporânea, entre outras instâncias, que criam o contemporâneo, que montam a espectacular cenografia para a representação do contemporâneo? Daí que aquilo a que chamamos arte contemporânea já não seja uma época da história da arte, tendo-se tornado uma categoria trans-histórica. O Muzeu é mais um lugar de culto desta categoria laica que suscita uma devoção religiosa. Regozijemo-nos pelo seu nascimento, respondamos aos seus apelos, elogiemos o seu criador-mecenas e respeitemos a sua crença. Mas, sob a condição de não-crentes, experimentamos uma distância crítica intransponível. Talvez o sintoma mais eloquente desta situação paradoxal seja o estado da crítica de arte, que por todo o lado se diz que já não existe ou está em crise. Também aqui podemos ignorar que os diagnósticos do fim da crítica já existem desde as primeiras décadas do século xx e foram sendo actualizados à medida das contingências e necessidades da época; podemos também ignorar que isso não é um fenómeno nacional nem exclusivo do campo da arte (na literatura, na música, no teatro, na arquitectura e em todas as disciplinas artísticas, o fim da crítica soa como uma litania repetida à exaustão); não devemos é ignorar que nunca se escreveu tanto sobre arte, em livros, catálogos, revistas, folhas de sala, blogues, etc. Se tal abundância de escritos sobre a arte já não segue o modelo da crítica como um juízo de valor, talvez a razão esteja mais na própria arte que sabota as próprias condições de possibilidade da crítica. O crítico e historiador de arte James Elkins apontou essa singular abundância num livro de 2003, intitulado What Happened to Art Criticism?, formulando ao mesmo tempo a regra que a governa: a crítica de arte, nas suas diferentes modalidades, é actualmente praticada em larga escala, mas ao mesmo tempo é maciçamente ignorada. Não há para ela um terreno comum, um sensus communis. António Guerreiro