ENTRE CHIPS, NUVENS E EXÉRCITOS: A NOVA DISPUTA PELO PODER DIGITAL
2026-05-03 15:49:04

A semana tecnológica revela uma disputa maior do que a corrida por novos produtos. Está em causa a arquitetura da vida digital, quem a constrói, quem lucra com ela e quem suporta os seus custos. Professor catedrático, Universidade Portucalense A semana que terminou a 2 de maio de 2026 confirma uma mudança que já não pode ser tratada como promessa distante, porque a tecnologia tornou-se uma infraestrutura de poder. A inteligência artificial, os semicondutores, a computação em nuvem e os centros de dados deixaram de ser assuntos fechados nos departamentos técnicos das empresas. Estão agora no centro da defesa, da economia, da regulação, do trabalho e da vida quotidiana. O sinal mais delicado veio dos Estados Unidos. O Pentágono celebrou acordos com sete empresas tecnológicas (Google, Microsoft, Amazon Web Services, Nvidia, OpenAI, Reflection e SpaceX) para usar sistemas de inteligência artificial em redes militares classificadas. Segundo a Associated Press, o objetivo é apoiar a tomada de decisão em contextos operacionais complexos, incluindo vigilância, logística, manutenção e identificação de alvos. A mesma notícia sublinha, porém, preocupações éticas como o excesso de confiança nas máquinas, vigilância indevida e eventual aproximação a decisões autónomas em cenário de guerra. Esta é uma fronteira particularmente sensível. Quando a IA entra na defesa, a discussão deixa de ser apenas sobre eficiência. Passa a envolver responsabilidade, controlo humano e legitimidade democrática. Uma ferramenta capaz de resumir informação, reconhecer padrões ou acelerar decisões pode salvar vidas. Mas também pode reduzir o tempo de reflexão, tornar a distância moral mais confortável e transferir para sistemas opacos uma parte da autoridade que deveria permanecer humana. A segunda linha de tensão vem da China. A Reuters noticiou que a Huawei espera aumentar em pelo menos 60% a receita dos seus chips de inteligência artificial em 2026, impulsionada pela procura interna e pelo interesse em alternativas nacionais aos processadores estrangeiros. A procura pelos chips Ascend ganhou força depois do lançamento do modelo DeepSeek V4, concebido para funcionar em tecnologia da própria Huawei. Esta evolução não é apenas empresarial. É geopolítica. A IA depende de semicondutores e quem controla os chips controla uma parte essencial da cadeia de valor. O resultado provável é um mundo tecnológico mais dividido. De um lado, ecossistemas norte-americanos fortemente assentes na Nvidia, na cloud ocidental e nos grandes modelos privados. Do outro, uma China empenhada em reduzir vulnerabilidades externas e em construir autonomia industrial. Para as empresas, isto pode significar cadeias de fornecimento mais caras e menos previsíveis. Para os Estados Unidos, significa que a política tecnológica passa a ser também política externa. Para os cidadãos, pode traduzir-se em serviços diferentes, regras diferentes e níveis distintos de transparência consoante a região onde vivem. A Europa procura responder pela via da regulação. A Comissão Europeia propôs medidas para obrigar a Google a permitir que serviços concorrentes de IA interajam de forma efetiva com aplicações em dispositivos Android, por exemplo para enviar mensagens, partilhar fotografias ou executar tarefas através das aplicações preferidas dos utilizadores. A consulta pública decorre até 13 de maio de 2026, no âmbito do Regulamento dos Mercados Digitais. A Reuters acrescenta que Bruxelas pretende alargar o foco das regras europeias à cloud e aos serviços de IA, avaliando se determinados atores devem ser tratados como “gatekeepers” em áreas críticas da economia digital. A questão europeia é simples de formular e difícil de resolver: como garantir concorrência sem comprometer segurança? Abrir sistemas dominantes pode dar mais escolha ao utilizador e criar espaço para empresas mais pequenas. No entanto, também pode aumentar a complexidade técnica, expor dados sensíveis e gerar novos riscos de privacidade. A regulação terá de ser precisa. Nem tímida, para não chegar tarde, nem desmedida, para não travar a inovação que pretende proteger. Nos mercados, a semana mostrou outro aspeto da mesma transformação. A Qualcomm valorizou em bolsa depois de os investidores terem preferido olhar para a sua aposta em chips para centros de dados, automóveis e dispositivos de IA, apesar de previsões menos favoráveis para o negócio tradicional dos smartphones. A Reuters assinala que a empresa procura reduzir a dependência do mercado cíclico dos telemóveis e entrar em segmentos de maior crescimento, incluindo processadores para centros de dados e chips personalizados. A reação dos investidores mostra que a IA é, hoje, uma narrativa económica poderosa. O valor desloca-se das aplicações visíveis para as camadas que as sustentam, tais como chips, servidores, energia, redes e modelos. A cloud deixou de ser uma metáfora confortável. É betão, cabos, refrigeração, eletricidade e território. Por isso, a expansão da IA tem também uma dimensão ambiental e laboral cada vez mais visível. A Associated Press descreveu o papel crescente dos sindicatos da construção nos Estados Unidos na expansão dos centros de dados. Estes projetos estão a gerar emprego, formação e influência política, mas enfrentam oposição local por causa do consumo de energia e água, do ruído, do impacto nas comunidades e da pressão sobre infraestruturas públicas. Eis a ambiguidade, a mesma infraestrutura que promete produtividade e progresso pode intensificar desigualdades territoriais e ambientais se for implantada sem planeamento sério. O desafio já não é apenas inovar. É governar a inovação com inteligência pública, responsabilidade privada e vigilância democrática. Sem isso, a criatura tecnológica continuará a crescer (brilhante, útil, irresistível), mas cada vez menos subordinada aos fins humanos que, em teoria, justificaram a sua criação Culturalmente, a mudança é ainda mais subtil. A IA aproxima-se dos dispositivos, dos motores de busca, das aplicações e dos assistentes pessoais. Torna-se menos visível, mas mais influente. Quando um sistema escolhe, resume, recomenda ou executa uma ação em nosso nome, está também a moldar hábitos, expectativas e formas de atenção. A conveniência é sedutora. A dependência, quase sempre, chega em silêncio. A semana tecnológica revela, assim, uma disputa maior do que a corrida por novos produtos. Está em causa a arquitetura da vida digital, quem a constrói, quem a regula, quem lucra com ela e quem suporta os seus custos. A inteligência artificial pode melhorar serviços públicos, acelerar investigação científica, apoiar a medicina e aumentar a produtividade. Mas também pode concentrar poder, fragilizar direitos, consumir recursos e deslocar decisões para sistemas difíceis de escrutinar. O desafio já não é apenas inovar. É governar a inovação com inteligência pública, responsabilidade privada e vigilância democrática. Sem isso, a criatura tecnológica continuará a crescer (brilhante, útil, irresistível), mas cada vez menos subordinada aos fins humanos que, em teoria, justificaram a sua criação. O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990 Professor catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira