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ADALBERTO CAMPOS FERNANDES: O HOMEM DO CENTRO , DESPEDIDO POR COSTA E NOMEADO POR SEGURO

Expresso Online

2026-05-04 21:09:11

Conselheiro informal da atual ministra, Adalberto Campos Fernandes foi nomeado por Seguro para fazer consensos na Saúde. Quer mais soluções “técnicas” do que perder tempo na “ideologia” Corria o ano de 2005, António José Seguro era deputado, Adalberto Campos Fernandes era médico, professor universitário, especialista em saúde pública, e estava em vias de ser nomeado presidente do Conselho de Administração do Hospital de Santa Maria. Os dois, juntamente com um grupo vasto que juntava personalidades políticas e do sector da saúde, como Maria de Belém Roseira, Miguel Relvas, Maria José Nogueira Pinto, o professor e médico António Vaz Carneiro e até o agora especialista em comunicação política Luís Paixão Martins, integravam uma espécie de conselho estratégico da multinacional farmacêutica Merck Sharp & Dohme, hoje MSD. As reuniões de “reflexão” e discussão sobre o futuro do sector (três ou quatro encontros por ano) tinham lugar na Pousada da Guia, em Cascais, e eram lideradas por Almeida Bastos, diretor-geral da farmacêutica, mas também pela diretora de relações internacionais, que era Ana Paula Martins. Mais de 20 anos depois, Ana Paula Martins é ministra da Saúde, António José Seguro é Presidente da República e Adalberto Campos Fernandes, além de ter sido nos últimos meses, sabe o Expresso, uma espécie de conselheiro informal e pontual da ministra Ana Paula Martins, acaba de ser nomeado consultor especial do Presidente da República para coordenar um Pacto para a Saúde, que muitos identificam que corre riscos à partida. Desde logo, o risco de chegar ao fim do ano de trabalho para que está mandatado e “não dar em nada”, e, depois, o risco de ser entendido mais como luta político-ideológica e menos como uma discussão pragmática e focada na garantia de acesso generalizado à saúde, seja por que via for. “Ele é um tecnocrata e a questão da Saúde é técnico-científica, não é ideológica”, diz ao Expresso Fernando Leal da Costa, antigo ministro e secretário de Estado da Saúde nos governos de Passos Coelho, que foi colega de curso de Campos Fernandes (bem como a agora conselheira de Estado Maria do Carmo Fonseca), e que acrescenta uma outra característica que todos lhe apontam: “É um ótimo comunicador”. “É preciso é que o queiram ouvir”. “Se fosse escolhido pelo governo, eu aplaudia a escolha, é a pessoa mais bem preparada”Miguel RelvasEx-ministro social-democrata O ex-ministro social-democrata Miguel Relvas, com quem Adalberto divide o espaço de comentário na CNN (onde se vai manter, embora com reservas nos temas da Saúde), partilha da mesma opinião sobre os riscos do Pacto com chancela presidencial. “Se fosse escolhido pelo Governo, eu aplaudia a escolha, é a pessoa mais bem preparada”, diz Relvas ao Expresso, muito crítico do que diz ser uma tentativa de “governamentalização da presidência”. Respeitado no sector, os mais críticos apontam que o que Adalberto Campos Fernandes tem a mais na oratória, terá a menos na firmeza para agir. E “o problema da saúde é que é preciso coragem para tomar medidas, cortar a direito, ir contra interesses”, diz Relvas, sendo que não foi para agir que foi nomeado pelo Presidente da República, mas sim para ouvir e consensualizar posições de base. Sem cartão de militante, mas sempre ligado à ala “moderada” do PS, há quem ironize que “está no PS por engano”. É “um homem do centro”, nas palavras de Óscar Gaspar, que é presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada e também amigo próximo de Seguro. Pedro Passos Coelho, de resto, assim como Leal da Costa, Maria de Belém Roseira e Luís Filipe Pereira, ex-ministro da Saúde de Durão Barroso, foram alguns nomes que marcaram presença no almoço no International Club of Portugal onde Adalberto foi o orador convidado, e Passos foi dos primeiros a desejar-lhe “sucesso” na missão que Seguro lhe acabava de confiar. “Foi ministro no pior momento possível, com o BE com peso na governação”Óscar GasparPresidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada e vice-presidente da União Europeia da Hospitalização Privada Licenciado em Medicina, Campos Fernandes acabaria por não enveredar pela vertente clínica e hospitalar, tendo-se especializado em saúde pública, com doutoramento em Administração da Saúde, e optado por uma carreira de forte componente académica. Além de ser membro do conselho consultivo da SEDES, liderada por Álvaro Beleza, amigo político próximo de Seguro, Campos Fernandes esteve na Medis, SAMS, foi presidente do conselho de Administração do Hospital de Santa Maria e, depois, do hospital público-privado de Cascais. Demissão à chuva Chegaria a ministro em 2015, no “pior momento possível para ele”, admite Óscar Gaspar. Por momento entende-se a formação da “geringonça” e a viragem à esquerda na governação. Ministro até outubro de 2018, Campos Fernandes deu início ao processo de revisão da lei de bases da Saúde (originária de 1990) e criou uma comissão encabeçada por Maria de Belém para o efeito. Daí saiu um anteprojeto de lei que era descrito como “moderado”, feito a pensar no amplo consenso entre PS e PSD e sem afunilar opções políticas, que poderiam ser mais à esquerda ou à direita. Mas esse projeto acabaria na gaveta. A demissão do ministro da Saúde, em outubro de 2018, no meio da mais ampla remodelação feita por António Costa, apanhou muitos de surpresa, uma vez que dois meses antes, em agosto, o primeiro-ministro tinha dito em entrevista ao Expresso que o ministro não saía - “Podem tirar o cavalinho da chuva”. O cavalinho molhou-se e para a história ficou um “irritante”. Ao que o Expresso sabe, na origem da decisão de Costa terá estado o facto de ter sido Adalberto Campos Fernandes a levar o primeiro-ministro a comprometer-se com a promessa de médico de família para todos os portugueses. A promessa foi derrapando e, num diferendo aberto com o seu ministro, Costa acabaria por pedir dados à Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e apontar a porta de saída ao seu cavalinho à chuva . Quem estava na ACSS por essa altura era Marta Temido, que subiria a ministra. Seria depois com Marta Temido que a nova lei de bases veria a luz do dia, mas desta vez negociada à esquerda, com BE e PCP, e impondo restrições à existência de Parcerias Público-Privadas na Saúde. Uma decisão que mereceu críticas públicas de Campos Fernandes, que criticou a excessiva “centralidade” que o Bloco de Esquerda estava a ter no processo. Já por estes dias, e numa altura em que o primeiro-ministro Luís Montenegro admitiu recuperar o anteprojeto de Maria de Belém como base de trabalho para a revisão da lei de bases que está em curso, Adalberto voltaria a apelar a um “entendimento estratégico” do PS e PSD na área da Saúde. “Considerem a saúde uma questão de regime, e não uma questão de combate sectorial”, disse em maio de 2025. Aviso que continua atual. Rita Dinis Jornalista Rita Dinis