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EDUCAÇÃO, CULTURA E LITERACIA DO OCEANO , A UNIVERSIDADE ITINERANTE DO MAR

Indústria e Ambiente

2026-05-04 21:09:12

Apesar do destaque que é conferido ao tema nas estratégias e nas prioridades das políticas públicas, nem sempre há um reconhecimento prático dessa importância, e as ações empreendidas ficam aquém do que seria expectável. O desenvolvimento de uma cultura marítima é crucial para valorizar o interesse da população pelos assuntos do Mar, em geral, e dos jovens, em particular, mobilizando-os para os percursos formativos que os habilitem a procurar profissões marítimas (atuais e futuras). A produção de novas competências profissionais e de novas qualificações são requisitos fundamentais para responder aos desafios que se colocam ao desenvolvimento da economia azul e à sustentabilidade do oceano. Portugal tem um historial interessante na literacia do oceano dirigido ao público estudantil dos níveis básico e secundário, com destaque para o programa Escola Azul, iniciativa da Direção Geral da Política do Mar (DGPM), com reconhecimento internacional, que orienta e estimula as escolas a desenvolver projetos estruturados e interdisciplinares na área do oceano. Também o Desporto Escolar, em colaboração com os municípios e as escolas, tem desenvolvido uma série de iniciativas para aproximar os alunos do mar, através da prática regular das atividades de canoagem, vela, remo, surfing. Evidência ainda para as iniciativas da Ciência Viva e outras, como a do Colégio Pedro Arrupe, que tem a temática do Mar como elemento central do seu projeto educativo, ou ainda projetos como o Mar & Ar, promovido conjuntamente pelos clusters do Mar e do Aeroespacial, dedicados à apresentação, junto de alunos do 3º ciclo do ensino básico e do ensino secundário, do leque de profissões relacionadas com o mar e com a economia azul (e com o aeroespacial). O panorama é diferente se olharmos para iniciativas dirigidas a alunos do ensino superior. Para este segmento, além das formações formais de nível superior oferecidas nas áreas das ciências do mar, da biologia marinha, da engenharia naval e, naturalmente, das formações oferecidas pela Escola Náutica Infante D. Henrique e, no plano militar, pela Escola Naval, não abundam programas dirigidos a estudantes do ensino superior de outras áreas de conhecimento tendo o mar como tema de formação. É neste contexto que surge a Universidade Itinerante do Mar (UIM), projeto em cooperação promovido pela Universidade do Porto, pela Universidade de Oviedo e pela Escola Naval de Portugal, com o apoio da Armada Espanhola, sob o lema ”Conhecimento e Aventura”. A UIM realizou-se ininterruptamente entre os anos de 2006 e 2018, durante o período de férias de verão, combinando três momentos de formação intrinsecamente articulados, os seguintes: I. Um conjunto de seminários, realizados em terra, sobre temáticas relacionadas com o oceano, sustentabilidade e economia azul; II. Uma viagem realizada a bordo do Navio de Treino de Mar Creoula, com duração de cerca 10 dias; III. Um trabalho realizado pelos alunos participantes que, uma vez defendido e aprovado junto das respetivas escolas, conferia 4 ECTS. A ideia subjacente à iniciativa foi a de atrair o interesse dos alunos do ensino superior pelos assuntos do Mar. Os participantes na UIM foram assim convidados, através do programa proposto, a refletir sobre a forma como as formações que estavam a prosseguir, nas mais diversas áreas , engenharia, economia, direito, medicina, etc - se cruzavam com as temáticas do mar e da economia azul. O momento I, realizado em regime residencial na Escola Naval, com a duração de três dias, compreendia um conjunto de seminários sobre temas marítimos diversos nas áreas da geoestratégia, economia, direito do mar, história marítima, sustentabilidade ambiental, navegação, entre outros, focados especialmente sobre as bacias do Atlântico e do Mediterrâneo. Estes seminários, da responsabilidade de professores das instituições de ensino superior promotoras e de profissionais especializados convidados para o efeito, favoreciam o alargamento do conhecimento junto dos alunos e preparavam para o momento seguinte, de navegação. O momento II, o mais atrativo e que mais expetativas criava junto dos participantes, consistia numa viagem a bordo do Creoulai, durante a qual os alunos (instruendos) eram organizados como tripulação sombra da guarnição do navio, cabendo-lhes assegurar os ”quartos” e todas as tarefas necessárias ao funcionamento do navio, desde a cozinha até às limpezas. Cabia-lhes, também, a elaboração de Diários de Bordo, em que registavam os aspetos mais significativos verificados em cada dia, e o Jornal de Bordo. Os instruendos eram enquadrados por uma equipa de 8 tutores, 4 portugueses e 4 espanhóis, maioritariamente professores das universidades do Porto e de Oviedo, responsáveis pela organização de momentos de trabalho a bordo e apoio à seleção e organização dos temas dos trabalhos a realizar durante o momento III. As viagens realizaram-se nos espaços do Atlântico (tendo como destino cidades da costa ibérica atlântica, o arquipélago dos Açores, a cidade francesa de Rouen, entre outras) e do Mediterrâneo (Barcelona, Ajaccio, Baleares, ). Em cada viagem, o Creoula escalava outras cidades na rota definida, na qual os instruendos eram recebidos por instituições locais e realizavam visitas relacionadas com o tema do curso. O número de instruendos embarcado em cada curso era de 50, sendo realizados dois cursos por ano. A maioria dos alunos era proveniente das universidades do Porto e de Oviedo, mas havia um número de vagas para acolher estudantes de outras universidades, tendo participado ainda, do lado português, estudantes das universidades do Algarve, de Aveiro e do Instituto Politécnico do Porto. Ao longo dos 12 anos em que a UIM se realizou terão participado cerca de 1200 alunos, portugueses e espanhóis. A realização deste momento a bordo do navio Creoula permitiu também desenvolver um conjunto de soft skills que as condições de embarque ajudaram a trabalhar: adaptação às condições do navio, espírito de equipa, cooperação, liderança, relações interpessoais, rigor, disciplina, O momento III, realizado em terra, entre agosto e setembro, consistia na elaboração de um trabalho ou de um projeto em que os alunos eram convidados a refletir sobre a relação entre o tema mar e as suas áreas de formação. Durante este período mantinha-se o apoio do grupo de tutores, e os alunos interessados em obter créditos junto das respetivas instituições de ensino (nem todos o fizeram) tinham de apresentar e defender um trabalho junto de um júri da respetiva universidade, o que acontecia até dezembro do mesmo ano. A viabilidade financeira da UIM era assegurada pela ação da Direção, constituída por dois professores, um da Universidade do Porto e outro da Universidade de Oviedoii, que além de angariarem apoios financeiros para o projeto eram também os responsáveis por preparar, em colaboração com os tutores, o programa de cada edição. A direção do momento II, a bordo do NTM Creoula, era assegurada pelo respetivo Comandante do Navio, um oficial da Escola Naval. O financiamento era assegurado por patrocínios obtidos junto de empresas e instituições portuguesas e espanholas e por propinas, pagas pelos alunos, que cobriam todos os gastos (alojamento, refeições e deslocações) dos momentos I e II. A UIM terminou em 2018 por impossibilidade de navegação do Creoula. Navio magnífico, com longo historial nas campanhas do bacalhau, propriedade do Ministério da Defesa, deixou de reunir as condições mínimas de navegabilidade. Lamentavelmente, não foi possível reunir os meios financeiros para a sua reabilitação (apesar de todo o investimento que o PRR possibilitou, não foi encontrada forma de financiar a sua recuperação!) e, ao que sei, vai-se perdendo no Arsenal do Alfeite à espera de melhores dias (será que virão?). Não havendo outro navio com as mesmas caraterísticas e vocação do Creoula, a UIM terminou. Foi um projeto pioneiro de que destaco os aspetos seguintes: , Cooperação interinstitucional de âmbito internacional; , Interdisciplinaridade e cruzamento entre as temáticas do Mar e de outras áreas do conhecimento; , O número de alunos do ensino superior que, por esta via, tomou contacto direto com o Mar e com as suas problemáticas; , Interconhecimento entre alunos de ensino superior de diferentes cursos e de diferentes instituições de ensino superior, portuguesas e espanholas; , Reconhecimento, por parte das universidades promotores, da importância de momentos não formais de formação com a atribuição de ECTS, desde que cumpridos os requisitos da avaliação (nem sempre é fácil haver este reconhecimento); , Desenvolvimento de soft skills junto dos alunos, competências reconhecidamente importantes por partes das empresas e organizações em geral para o seu bom funcionamento; , A promoção que o Creoula possibilitou a Portugal e aos promotores nos portos e cidades escaladas, a UIM sempre foi vista e reconhecida como um projeto meritório a suscitar curiosidade e interesse junto de instituições visitadas. Fica a esperança de que alguém, ao ler este artigo, possa interceder em favor da reabilitação do Creoula e da sua devolução a projetos formativos (e que grande utilidade ele teria, por exemplo, para assegurar os tempos de embarque aos alunos da ENIDH) e a projetos de literacia do oceano junto da sociedade civil, permitindo, entre outros, recuperar e relançar novas edições da UIM. A educação, a cultura e a literacia do oceano são prioridades que integram quer os Objetivos de Desenvolvimento Social das Nações Unidas (ODS 8), quer as Áreas de Intervenção Prioritária da Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030 (Área de Intervenção Prioritária 2) quer ainda o Plano de Ação do Atlântico 2.0 (Pilar 2). Rui Azevedo Economista, Diretor da UIM nos anos de 2006 e 2007 © UIM / D.R. i Cabe, aqui, uma palavra de agradecimento ao saudoso Almirante Vieira Matias a quem apresentei o projeto em primeira mão e que, desde logo, intercedeu no sentido de assegurar a disponibilização do Creoula para a UIM. ii Merece referência o Prof. Fermin Rodriguez da Universidade de Oviedo que assegurou, do lado espanhol, a Direção da UIM entre 2006 e 2018. Do do lado português, a Direção foi sendo sucessivamente assegurada, além do signatário do presente artigo, pelo Prof. Rodrigo Osório, Profª Isabel Sousa Pinto, Prof. Augusto Barata da Rocha e Prof. Joaquim Góis, da Universidade do Porto. Rui Azevedo