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ENTREVISTA A JOÃO LUÍS BARRETO - HÁ UM CERTO EQUILÍBRIO QUE EU PROCURO COM A CANETA EM CIMA DE UM PAPEL E COM UM BISTURI EM CIMA DA PELE

TecnoHospital

2026-05-04 21:09:14

João Luís Barreto Guimarães Poeta cirurgião ou cirurgião poeta? João Luís Barreto Guimarães, médico, poeta, tradutor e Prémio Pessoa em 2022, já deixou de se preocupar com a distinção, e esta conversa mostra que de facto os dois ofícios sobrepõem-se. E convivem com uma realidade mais transversal: a do exercício da medicina em condições de degradação do SNS. Fotograha: Cátia Vilaça TH: Fale-nos um pouco do seu perfil. João Guimarães (JG): Sou escritor e médico indistintamente e ao mesmo tempo. Houve uma altura, na fase mais trabalhosa do internato complementar, em que tive de abrandar um pouco, tive de prescindir de parte do tempo que dedico à escrita, porque havia uma ou duas datas marcantes às quais eu objetivamente não poderia falhar. Progressivamente, sem nunca ter abando-nado a cirurgia e as áreas que mais aprecio, tenho assumido no meu quotidiano o papel de escritor, e agora, recentemente, não apenas de poeta, mas também de escritor de teatro. Até ao momento, escrevi seis peças. Aquela que está mais adiantada foi a peça que recebeu o ano passado o prémio de teatro Carlos Avilez, da Sociedade Portuguesa de Autores e do Teatro Aberto, que vai ser estreada em Lisboa no dia 19 de junho. Estará em cena cerca de um mês e meio, virá para O Porto em setembro e estará cá pelo menos 15 dias. ê uma peça chamada “Caravana”. TH: Há duas posições no ato de escrita. o grande António Lobo Antunes dizia que era a caneta que o empurrava, mas há também quem diga, por exemplo o professor e poeta João Guimarães, que “por vezes a escrita dói, a tinta escorre e faz-se sangue, a ver duas palavras amigas, a parar sobre o poema, e ao soar da caneta só uma pode ter lugar”. Então o que é isto, o que é esta coisa de escrever? o que é o ato de escrever para si? JG: Eu acho que essa diferença que referiu entre dois escritores tem muito a ver com o género literário de que estamos a falar. E eu não tenho muita experiência de escrever ficção, mas imagino que no ato da ficção, até pela própria extensão do texto, é necessário deixar ir, é necessário soltar, é necessário realmente que a inspiração, através da caneta, siga o seu curso, e o escritor quase vai atrás da própria caneta. o que acontece comigo num poema é um processo diferente, e daí a diferença na definição inicial. e necessário que realmente as palavras lutem pelo seu lugar na página, porque o poema é uma máquina verbal, uma máquina de linguagem extraordinariamente concentrada, no meu caso. E cada palavra, cada verso tem de valer a pena, no duplo sentido da palavra pena. E, portanto, tem de conquistar o seu lugar no poema, e digladia-se com outras palavras, como se tudo isto não passasse de um jogo, como escrevia o poeta Miroslav Holub. E a ima-gem que está nesse poema é a daquele jogo de crianças em que toca a sineta e há uma cadeira a menos para o número de crianças que andam a correr à volta delas. Como tudo na vida, tem de haver uma procura dessa vitória por parte dessa palavra. E esse exercício de burilar o poema, de rever o poema e de o trabalhar prolonga-se por um período extenso no tempo, e é sujeito a numerosas revisões, até o poema ganhar direito a saltar para o livro. O objetivo deste exercício é a procura de originalidade, de criatividade, mas é também quase aquele fixar em pedra da palavra. Ou seja, é aquela palavra porque não podia ser qualquer outra. E então, aquilo que no início parece ser um jogo de procura das palavras no lugar do poema, para defender o assunto, para defender o tema, para defender a ideia do poema, torna-se qualquer coisa indispensável e incontornável e, se quisermos, eterno, desejavelmente eterno. As palavras fixam-se em pedra. Dá-se-lhe o tempo inicial de elas serem apagadas, substituídas, voltarem ao poema quando a substituição não foi boa. Cortar o verso aqui e acolá para suspender o leitor, tentando enganá-lo ao parecer que o poema vai num sentido e depois na realidade é outro completamente diferente, até o poema explodir nos últimos versos. O jogo aqui não é acrescentar para diluir, é secar para concentrar. O jogo da economia do poema, de o poema funcionar quase como uma instalação na página, envolto em espaço branco e em silêncio a toda a volta, como se fosse ali fixado com a maior jovialidade, criatividade e originalidade possível, mas única, singular e necessária. Eu não digo que um romancista não faça qualquer coisa deste exercício ao longo da página, mas o poeta não se preocupa, no meu entender, em ter um livro com mais de 40 poemas, enquanto o romancista, pela própria natureza do seu género literário, não diria que não a um livro de 400 páginas. TH: O professor diz que o seu trabalho não é tão de ficção, mas em alguns dos seus poemas há um arranjo pictórico, um arranjo circunstancial até, mas também um pouco ficcionado. é O caso do poema que fez sobre o rio Douro, no Pocinho. E aí, o ver-So está lá, concordo plenamente, mas há também algum trabalho ficcional, quando termina, belamente: “Longa migração para o norte desde O Quénia até aqui , podia falar um pouco desse lento despertar / mas já me adormece o vinho” [in Ainda ontem no Pocinho). Há aqui também alguma coisa muito trabalhada. Andou por ali a navegar, no rio e nas palavras, mas depois acabam de uma forma que parece ficcional, bastante curiosa. JG: A grande explicação para essa leitura que faz acaba por ser muito simples. é que a verdade do poema não é a verdade da realidade. O que não significa que o poema não esteja carregado de verdade. Mas normalmente a verdade da realidade passa-se numa linha de tempo que sequencialmente não volta para trás, se as coisas aconteceram. Se nós entramos aqui, nos sentamos nesta mesa, e começamos esta entrevista, não podemos dizer que começamos a entrevista antes de nos termos sentado e antes de ter entrado nesta sala. No poema as coisas não se passam dessa maneira. O Manuel António Pina gostava de falar de uma verosimilhança, que é a reunião no poema, no mesmo tempo ideal, quase como se na primeira situação estivéssemos a falar de Chronos e aqui estivéssemos a falar de Kairós, o tempo ideal. Ño poema que referiu, o dia da visita pode não ter sido o dia do inebriamento, mas ambos concorrem para uma verdade poética, que é realmente aquela que interessa ao poeta, porque não trai a sua própria realidade, mas ajuda a criar um mundo fccional, que é o da literatura. Não interessa que o mundo da literatura seja exatamente igual ao mundo real, para isso temos a crónica e o jornalismo, e para isso temos também os livros de História, quando deixamos os derrotados falar lado a lado com os vencedores. O fundamental num poema é a forma como o poema diz. ? que nos interessa, no fundo, além daquela ideia de jogo que estava implícita na primeira pergunta que me fez, é a linguagem. Se o poema não aportar uma linguagem nova que ajude a construir uma visão de mundo do poeta, que ajude a construir uma realidade “verdadeira”, então esse poema não tem razão de existir. A decisão de incluir um poema num livro não é feita pelo poeta, mas pelo leitor que existe dentro do poeta. é necessário abandonar completamente o poema num intervalo de tempo que pode ser significativo. Podem ser meses, mas podem ser anos. Não é por acaso que nos poetas de que mais gostamos, temos livros de dois em dois anos, de três em três anos, de quatro em quatro anos. TH: “Sentar-me e ver os outros passar é o meu exercício favorito. Entretém. Não esgota. é gratuito” [in Decepção à Regra]. é poeta e cirurgião ou é cirurgião e poeta? De que lado se encontra a celebração que pretende dar nos seus poemas? Da dor de quem se coloca nas suas mãos ou da felicidade de ver aquele rosto reconstruído? o que é que está aqui? Está o poeta quando acaba de recompor aquele lábio leporino? JG: Essa pergunta é das que mais curiosidade desperta nos leitores e na comunicação social e com a qual eu tenho obrigatoriamente, por uma questão de sanidade pessoal, de não me preocupar. Na realidade, os dois ofícios surgiram, tanto quanto posso avaliar retrospetivamente, de uma forma que me pareceu absolutamente independente. Eu sei que as coisas não são assim porque é o mesmo corpo, é o mesmo cérebro, é a mesma consciência que trabalha os dois ofícios. Mas tem-me posto a pensar qual é o nível de semelhança que os dois exercícios têm. E há qualquer coisa numa procura de simetria, numa procura de harmonia, não diria perfeição, mas num certo equilíbrio que eu procuro com a caneta em cima de um papel e que procuro com um bisturi em cima da pele. Há uma coisa também muito interessante que é o processo de eliminar. O poema pode ser inicialmente um pouco maior do que aquilo que vai surgir no livro e há um exercício de eliminação, de remoção do excesso, de concentração, de ocultação da cicatriz, a forma como os versos colam uns com os outros , está lá, mas está escondida , que acontece também na pele do doente quando eliminamos o excesso, eliminamos o tumor, eliminamos a malformação, eliminamos a ferida e concentramos em busca de uma forma mais harmónica, mais económica e mais concentrada, escondendo a cicatriz também. Portanto, pelo menos o processo de revisão de um poema e o processo de excisão e de sutura têm, efetivamente, coisas parecidas. Aliás, uma cirurgia reconstrutiva, por definição, começa com uma caneta na mão, com o médico a riscar a pele do doente. E, portanto, faz-se daquela pele um papiro ou, se quisermos, mais adiante, um pergaminho. Planeia-se, nesse pergaminho, a obra e depois segue-se, e aqui há uma diferença, segue-se por padrões rigorosos e anatómicos que não vivem bem com uma liberdade criativa por parte do cirurgião, porque há um modelo antropomórfico que é necessário seguir, coisa que o poeta pode perma-nentemente subverter, introduzindo listas e números e telefones e formas de poesia concreta e poesia visual e ruídos e onomatopeias e tudo aquilo que Ihe passa pela cabeça no poema, desde que faça sentido na defesa do assunto ou do tema do poema. E, portanto, quando me perguntam se são atividades parecidas, eu digo que têm pontos em comum, mas que se disciplinam uma à outra. E, fundamentalmente, na minha cabeça têm horas do dia diferentes. E, portanto, o meu grande exercício até agora enquanto médico-escritor, ou enquanto escritor médico, tem sido descobrir como viver com estas duas oficinas, com estes dois ofícios. De que forma é que as coisas se passam no meu quotidiano num dia normal em que eu, necessariamente, operei ou vi doentes, li e escrevi. Porque eu provavelmente não vou ser capaz, até ao fim da carreira médica, de prescindir de uma coisa ou de outra. E terá já havido poemas, assim como terá já havido doentes, em que houve um benefício pelo facto de estas duas características se juntarem, o maior dos quais é esta evolução recente de há cinco anos para cá, as aulas de poesia aos estudantes de Medicina, onde eu efetivamente, durante aquela hora, consigo objetivamente ser uma só pessoa a falar de medicina e de poesia num contexto que me parece absolutamente real e verdadeiro. Aquilo é um oásis no meio de uma semana de trabalho a fixar sinais, sintomas e factos. TH Os alunos são de que ano? JG: Os alunos são do primeiro semestre do segundo ano. Não me importava que fossem um pouco mais velhos, mas percebo a intenção de tentar maximizar toda aquela mais-valia que resulta da discussão de poemas que naturalmente falam de empatia, que falam de humanismo, falam de solidariedade, falam de compaixão, enquanto falam da vida de quem os escreveu. E eu percebo que existe realmente uma vantagem em trazer para estes alunos, que são alunos que para se prepararem para entrar num curso de medicina estiveram necessariamente um pouco mais afastados das Humanidades, estiveram mais nas disciplinas de ciência no liceu, e portanto trazer-Ihes ali aquele aporte precocemente faz todo o sentido. Agora, eles talvez tirassem ainda mais proveito das aulas, se a sua maturidade cognitiva já estivesse quase naquela fase em que já estão com as disciplinas clínicas, pelas enfermarias, a falar com os próprios doentes. Mas a minha esperança é que alguma semente fque ali e que eles regressem até ao cânone dos poemas da disciplina e releiam aqueles poemas e até vão às bibliotecas domésticas e às livrarias procurar mais fontes de leitura. TH: Estamos a falar da cadeira de Introdução à Poesia no ICBAS, correcto? JG: Sim, chama-se mesmo "Introdução à Poesia (para estudantes de Medicina)”. TH: Como foi o acolhimento da direção à sua proposta? JG: O acolhimento já foi quase há seis anos e a disciplina começou há cerca de cinco anos e meio. Eu, como aluno do ICBAS, já era conhecido como escritor, e nesse contexto fui convidado uma vez por uma colega, a Dra Ana Mafalda Reis, para ministrar uma aula na disciplina de História da Medicina. Era uma teórica, estavam lá mais de 100, 200 alunos. Eles gostaram muito e f1zeram ver à Dra Mafalda isso, que terá passado a palavra. A determinada altura recebi um telefonema da Prof.d Corália Vicente e ela disse-me que ia haver uma remodelação do currículo do ICBAS e a entrada de uma disciplina de Música, portanto era a altura ideal para introduzirmos uma disciplina de Introdução à Poesia para os estudantes de medicina. Fiquei muito entusiasmado com aquilo porque realmente via ali uma possibilidade de, durante duas horas, um semestre inteiro, conseguir juntar o facto de ser escritor, poeta e o facto de ser médico, cirurgião. Porque precisamente via a possibilidade de escolher poemas cujo tema fosse qualquer coisa em que fosse possível utilizar os poemas para explicar os instrumentos da poesia , as imagens, o ritmo, a forma, o som, o género , que são no fundo o título de algumas das aulas que fazem parte da disciplina, e falar das situações concretas e dos sentimentos implícitos no momento em que um poeta, seja ele o doente ou o familiar ou o amigo, se senta consigo próprio e escreve qualquer coisa que no fundo é uma janela para a alma dele. E esse momento mimetiza muito aquilo que acontece numa fase inicial de uma história clínica, na anamnese. Na anamnese nós fazemos perguntas aos doentes e os doentes respondem se quiserem ou não. Ño âmbito da Psiquiatria isso desmultiplica-se, e o doente responde se quiser, se não quiser encobre, que é exatamente o que o poema faz. As aulas são uma gigantesca anamnese a cada poema, em que as camadas do poema são levantadas, primeiro de uma forma técnica, através do som, através da forma, através das estrofes, dos silêncios, do espaço, do ritmo, de tudo o que quisermos, se é um poema lírico, um monólogo dramático, se é um poema narrativo, etc., e depois vai-se ao cerne da questão: porque é que esta f1gura de estilo está a ser utilizada desta maneira? Porque é que o poeta utilizou assim? Podendo utilizar qualquer uma, porque é que utilizou desta maneira? Baseei-me num livro de Introdução à Poe-sia que tinha trazido de Nova lorque quando estive lá em setembro de 2001, aquando da queda das Torres Gémeas, a fazer um estágio de cirurgia reconstrutiva da mama no Memorial Sloane Catherine Cancer Center, para delinear 28 horas de aulas. A Prof.a Corália informou-me depois que a proposta tinha sido aceite e que ia existir aquela disciplina. Então tive a possibilidade, de março até setembro, de preparar as minhas 14 aulas. Começo por definir o poema, depois falo do género do poema, depois falo da palavra, depois falo da imagem literal, da imagem perceptual e da imagem conceptual, que é o símbolo, depois falo dos sons, a seguir falo das formas, depois explico porque é os poemas funcionam e porque é que não funcionam. TH: Afirmou já que a poesia tem uma capacidade única de ajudar os estudantes a relacionar-se de uma forma holística com os pacientes, ou seja, a não os encarar apenas como um problema médico. O seu poema “História Clínica” demonstra a sua predisposição para olhar para lá do caso clínico. No atual contexto de carência e sobrecarga do SNS, acha que essa relação ainda tem possibilidade de se cumprir? JG: Acho que tem, sendo que a pressão que é colocada em cada médico individualmente passa a ser maior, porque tudo concorre para que não seja: o número de consultas que tem de se fazer, o número de cirurgias, a maior procura da população, naturalmente empobrecida, pelos hospitais públicos, a maior demanda que a imigração também traz, o maior número, o menor tempo, e fundamentalmente o facto de os profissionais sentirem que não são devidamente recompensados pelo esforço que fazem, não apenas naquelas medidas genéricas de que se costuma falar, como seja o funcionamento e a orgânica, o lado “excel” da coisa, mas fundamentalmente do ponto de vista financeiro. Existe um pouco a ideia de que o médico tem necessariamente de ser altruísta, e fazer o seu trabalho de uma forma quase caridosa. A questão é que cada um destes médicos e médicas tem uma vida, tem uma família e tem despesas, e realmente as coisas depois não se pagam com abraços nem com palmas, e é necessário cada vez mais que se veja o médico também como um ser humano capaz de fcar doente, e ele próprio não entrar numa espiral de descontrolo pessoal, que inclusive o leva ao suicídio, como tantos casos há. Quando a pessoa não consegue ser, ela própria, saudável na definição da OMS , que contempla o bem-estar físico e psicológico, o grau de insatisfação cresce, e é muito difícil que numa profissão que funciona tanto à conta do empenho pessoal e do brio pessoal e que não é de modo algum mecanizada, não haja uma tentação de a mecanizar, de a despachar, porque as pessoas ao fim de meses, ao fim de anos, sem serem valorizadas, sem progredirem, sem sentirem que também têm uma vida para além disto, desesperam, e isto está na essência dos abandonos no SNS, porque qualquer outra entidade consegue propor um plano em que a pessoa consiga trabalhar e ter uma vida. Isto parece-me tão óbvio que fico surpreendido que quem administra e quem legisla não consiga compreender e ache que pode esticar esta corda até um limite sem que isto rebente, que pode tomar decisões de costas para os profissionais, deslocalizando-os, criando-lhes horários desfavoráveis, não os compensando, não permitindo que eles, com o produto do seu trabalho, construam uma vida. TH: Mesmo que gostem muito da sua profissão. JG: Mesmo que adorem! A disciplina de Introdução à Poesia, por exemplo, trabalha os alicerces de uma situação futura de desespero, ou seja, quando o médico se sentir nesse extremo de burnout, tentar recorrer, como quem recorre a um arquivo, a algum exemplo de empatia e algum exemplo de humanismo que o faça fazer the extra mile e dar aquele esforço extra depois de uma noite inteira acordado, depois de um dia inteiro a operar ou depois de uma jornada inteira de consulta. Mas temos de perceber que estamos a falar não com máquinas, mas com seres humanos que podem não ter essa capacidade ou não querer, a certa altura, repetir. A medicina e a cirurgia têm uma taxa altíssima de suicídio e de divórcio comparadas com outras profissões, mas quem administra e quem legisla parece não ter isto presente, por mais que sindicatos e responsáveis Ihes chamem a atenção. Acham que esta corda se estica até ao limite, portanto estão a lidar com consequências. Estão a lidar com extremos de situações em que já não há profssionais porque houve um abandono, já não há ninguém nos hospitais que ensine os mais novos e em que tudo concorre para a degradação e o piorar da formação e da qualidade. Isto não se faz metendo dinheiro cegamente, não se faz com uma folha de excel. Quem administra tem de tratar os próprios médicos com empatia e humanismo, e sem que haja abusos da parte dos médicos, Ihes perguntem a sua opinião para levar as coisas a bom porto, de maneira a que se consiga cumprir os objetivos. Isto quando sabem quais são os objetivos. O problema é complexo, mas ao mesmo tempo é simples. Nós vínhamos a trabalhar em cenário de guerra (outra vez metaforicamente), mas não sabíamos que vínhamos para trabalhar em completa desorientação, portanto basta que apareça um hospital lá fora, ou público noutra terra, ou privado na mesma terra, que ponha em cima da mesa um cheirinho de organização e uma possibilidade de a pessoa ter uma vida, uma família, tempo para si, tempo para os filhos, e a pessoa sai. E dessa saída surgem todas as consequências de que estivemos a falar. Quem fica faz mais até conseguir. Quando não conseguir, sai também. E depois enchem-se os lugares já não sob o critério da qualidade. As pessoas pensam que estão a ter uma saúde, os governos sucessivamente vendem a ideia de que qualquer um pode entrar num hospital para ter saúde, mas depois é preciso saber que tipo de saúde é que vão ter. E preciso perder tempo com o problema, mas é preciso ouvir as pessoas certas. TH: Fala-se muito da necessidade de um pacto na saúde para resolver toda esta problemática. Como se inverte esta situação na prestação de cuidados de saúde? Já falou dos médicos, e o que disse é a opinião de todos os que estão por dentro da prestação de cuidados. Quer acrescentar algo sobre isto? JG: Limitar-me-ia a incluir as outras classes profissionais, por exemplo os enfermeiros, os técnicos superiores e os auxiliares, nessa dinâmica de reformulação do conjunto vasto de condições laborais onde objetivamente se inclui a remuneração, mas muitas outras coisas. Eu acho que tudo isto se resolvia se as pessoas fossem acarinhadas, ou seja, se da parte das administrações e, por consequência, da parte dos governos houvesse uma política centrada não no capital económico, mas no capital humano, que é verdadeiramente o capital que interessa aqui neste negócio da saúde. TH: Já falou de toda a componente holística, humanista e de empatia nos hospitais. Agora com a Internet das Coisas, a Robótica, a Inteligência Artificial, quer no âmbito da saúde quer da escrita, a questão que colocava é relativa aos edifícios na saúde. Como sente que os nossos edifícios devem evoluir? Nós vemos países onde existem vistas exteriores, projeções nas paredes. O que é que nos pode referir neste aspeto da arquitetura e engenharia? JG: Eu de cada vez que assisto a uma remodelação de uma enfermaria de um hospital novo ou antigo, nos espaços que são centrados nos doentes, noto melhorias. Melhorias de área, melhorias nos corredores, melhorias a nível de áreas de higiene exclusivas e pessoais, etc. Mas nas áreas que são dedicadas aos profissionais, como as dimensões dos vestiários, ou as dimensões e o conforto nas salas onde se espera entre duas cirurgias ou, por exemplo, no número de bancadas que existem para registos informáticos, já não há essa preocupação. Quem faz estes planos centra-se completamente numa visão empresarial e numa visão matemática ou de produtividade e, mais uma vez, esquece-se que entre duas cirurgias grandes há um conjunto de seres humanos que precisam de parar, de se alimentar, de ir à casa de banho, que precisam de uma cadeira, de um sofá para se sentarem, para depois avançar para a coisa seguinte. Sistematicamente há uma falta de preocupação com as condições que vão depois a outras questões: por exemplo, a oferta de alimentos nos blocos operatórios pura e simplesmente desapareceu, à maneira dos aviões. Agora quem quiser que traga os seus ou então que pague na máquina. Antigamente as coisas funcionavam com outra atenção, havia as coisas mínimas como pão, manteiga, marmelada e leite, que eram cedidos gratuitamente. Eu sou do tempo em que havia gestos simples como preocupar-se que o cirurgião ou cirurgiã e enfermeiro ou enfermeira descansassem convenientemente naqueles 10, 15, 20 minutos que existem entre procedimentos e Ihes proporcionassem condições onde esticar um pouco os pés ou sentar o corpo. Agora, vimos trabalhar como quem vai para um ginásio. Faz-se um contrato com um hospital e de repente juntam-se hospitais, e a deslocação entre um hospital e outro, embora não esteja no contrato de trabalho do médico originalmente, fica ao encargo da pessoa que é obrigada a ir trabalhar a 10, 20, 30, 40, 50 km de distância, pagando as suas portagens, a sua gasolina, o desgaste do seu carro, sujeitando-se a um acidente, como se as pessoas tivessem de pagar para trabalhar e não aquela situação que seria mais ou menos óbvia que é receber algum tipo de ajuda de deslocação para outro lugar. Isso acontece em hospitais que se juntaram e que têm, por exemplo, a unidade de cirurgia de ambulatório noutro hospital e cujos profissionais fazem a deslocação às suas próprias expensas. Tudo isto parecem exemplos pequeninos e mesquinhos mas revelam uma atitude, que é a preocupação na produtividade, em que o médico deveria ter, a par do seu curso de Medicina e das disciplinas de música e de poesia, uma disciplina de educação física, porque na realidade vem-se para um ritmo de trabalho e para um ritmo de deslocação, sentar em cadeiras partidas e pouco anatómicas porque foram compradas num concurso em que ninguém se preocupou em ver quantas horas é que o médico ia ficar sentado aqui ou acolá. Há um sistemático esquecimento de quem efetivamente produz o trabalho em condições que depois é muito fácil serem suplantadas por quem pensa nestas coisas e tem uma visão holística e não considera o médico ou enfermeiro um robô, mas considera um ser humano. Aquilo que há a fazer no domínio da arquitetura dos espaços e da engenharia dos espaços é basicamente ouvir os profissionais, perguntar-Ihes quanto tempo fazem isto, quanto tempo fazem aquilo, em que condições é que fazem, quanto tempo descansam, e haver uma gestão em termos de equipamentos e a nível de estruturas que nalguns sítios já se vai fazendo, mas que na maior parte dos sítios fica muito aquém do que poderia ser. th João Luís Barreto Guimarães Poeta e cirurgião Quem administra tem de tratar os médicos com empatia e humanismo Se o poema não aportar uma linguagem nova que ajude a construir uma visão de mundo do poeta, que ajude a construir uma realidade “verdadeira” então esse poema não tem razão de existir Há um sistemático esquecimento de quem efetivamente produz O trabalho em condições que depois é muito fácil serem suplantadas por quem pensa nestas coisas e tem uma visão holística e não considera O médico ou enfermeiro um robô, mas considera um ser humano. Cátia Vilaça; Paulo Salgado; Abraão Ribeiro; Durão Carvalho