NO CAMPO DE REFUGIADOS DIZIAM QUE, EM PORTUGAL, SE TRABALHASSES E PAGASSES IMPOSTOS, OBTINHAS AUTORIZAÇÃO DE RESIDÊNCIA EM POUCO TEMPO
2026-05-04 21:09:15

Há um vaivém constante de imigrantes entre Portugal e a Alemanha. Uns saíram do impasse em Berlim com a ilusão de conseguirem uma regularização mais rápida em Lisboa. Outros procuram sair de Portugal para conseguirem melhores salários no coração da Europa. Pelo meio, montaram-se esquemas, e as autoridades dos dois países investigam múltiplos casos de auxílio à imigração ilegal Soubera Shariful Islam o que hoje sabe, e nunca teria pedido asilo em Bochum, na Alemanha, em novembro de 2022. No dia em que as autoridades da Renânia do Norte-Vestfália - o Estado mais populoso da Alemanha, no oeste do país - lhe recusaram o estatuto de refugiado, o bangladeshiano passou a ter o seu nome inscrito no Sistema de Informação de Schengen (SIS), o que, anos mais tarde, se revelaria um entrave à sua regularização em Portugal: “Fizeram-me o teste da covid-19, recolheram os meus dados e mandaram-me para um campo. Não me perguntaram nada nem me informaram o que aconteceria se eu desistisse do pedido”, diz o asiático, de 38 anos, resistindo à tentação de apontar um bode expiatório para o seu problema. “A culpa foi minha por não me ter informado devidamente. Devia ter vindo diretamente para Portugal”. Mas Shariful seguiu os conselhos que lhe deram e os vídeos do YouTube que indicavam o pedido de proteção internacional na Alemanha como a melhor forma de se estabelecer legalmente na União Europeia (UE). Até porque, recorda, saíra de Comilla, a sua cidade natal no leste do Bangladesh, por receio de perseguição política; sofreu a opressão das polícias da Liga Awami, força política no poder, por pertencer ao partido islamita Jamaat-e-Islami, que também se virou contra ele quando, desiludido com o radicalismo crescente, resolveu desvincular-se do grupo: “Falei com os meus irmãos e com a minha mãe e decidimos que eu devia sair para trabalhar no Catar”, explica o licenciado em História. “No campo de refugiados diziam que, em Portugal, se trabalhasses e pagasses impostos, obtinhas autorização de residência em pouco tempo”, conta Shariful, do Bangladesh Aterrou em Doha a 1 de agosto de 2018, para integrar o numeroso batalhão de operários hindustânicos contratados para construir as infraestruturas do Mundial 2022 de futebol, que aquele emirado se preparava para receber. “Trabalhei essencialmente na construção de hotéis”, diz Shariful. Durante a estadia de três anos e meio, perdeu a mãe e dois dos irmãos. O pai já tinha falecido quando era criança: “Se já antes estava desprotegido, agora ninguém me iria ajudar se fosse perseguido”, justifica. Assim, com o visto de trabalho a caducar, diz ter pagado “de cinco a seis mil euros” a um compatriota no Catar para lhe arranjar uma oportunidade na UE. Este propôs-lhe um visto de trabalho temporário na Croácia, através de uma empresa de construção civil. “Quando aterrei em Zagrebe, não estava lá ninguém para me receber, nem me tinham sido dadas informações sobre a empresa”, diz, reconhecendo ter ficado “à deriva e sem dinheiro após uma semana a pagar o quarto de hotel”. Shariful fez-se à estrada, sobrevivendo à conta de esmolas e boleias. Caminhando, chegou a Itália - onde chegou a fazer biscates -, depois a França, de onde lhe recomendaram seguir para Colónia, na Alemanha. Foi daí que, por sua iniciativa, se dirigiu ao Centro de Receção Inicial de Refugiados de Bochum. No campo de refugiados, ouviu que a Alemanha estava a rejeitar cada vez mais pedidos de asilo e que o seu caso, provavelmente, seria recusado. “No café do campo, à noite, muita gente falava de Portugal, um país bonito que estava a dar oportunidades aos imigrantes. Diziam que se trabalhasses e pagasses os impostos obtinhas autorização de residência em pouco tempo”, conta Shariful. No YouTube, vários vídeos reforçavam o rumor. O bangladeshiano decidiu faltar ao atendimento que lhe tinha sido marcado para rumar a Lisboa: “Devia ter pedido para me fecharem o processo, mas não sabia nada”, lamenta. Sem entrar em pormenores sobre a viagem, Shariful diz ter ido de táxi para Paris e, daí, de autocarro para Lisboa, onde chegou nos últimos dias de 2022. Um caminho que, sublinha, foi percorrido por “muitos outros”. Eram atraídos pela promessa de uma via rápida para a legalização através do artigo 88º da Lei de Estrangeiros portuguesa - um mecanismo excecional que permitia aos estrangeiros requerer autorização de residência mediante prova de atividade laboral, inscrição fiscal e contribuições para a segurança social, através da chamada “manifestação de interesse”. O fenómeno acabou por cair no radar da Bundeskriminalamt (BKA), a polícia criminal alemã. Segundo o que o Expresso apurou, a BKA promoveu uma Equipa de Investigação Conjunta (JIT) com a Polícia Judiciária (PJ) - entre outras polícias criminais de outros Estados-membros - para indagar centenas de casos suspeitos de auxílio à emigração ilegal. “Começaram a aparecer grupos informais que, presencialmente ou através das redes sociais, vendiam aos imigrantes no centro da Europa a viagem para Portugal, a criação de um contrato fictício de trabalho, atestado de residência e garantia de pagamento de contribuições à Segurança Social, submetendo a manifestação de interesse na plataforma indicada”, explica, ao Expresso, uma fonte do lado português da investigação, que recusou ser identificada uma vez que o processo se encontra em fase de inquérito. De acordo com a investigação, os imigrantes pagavam cerca de 500 euros pela viagem da Alemanha para Portugal, com paragem em Paris. Alguns já tinham despendido perto de 10 mil euros para chegarem à UE. Eram transportados em carrinhas de nove lugares, frequentemente sobrelotadas. “A incidência de acidentes com estas carrinhas, por vezes com vítimas mortais, chamou a atenção da polícia alemã”, diz a mesma fonte policial. Perceberam que os trajetos eram feitos em veículos legalmente alugados e dirigidos por motoristas também em situação regular, maioritariamente oriundos do subcontinente indiano. “Há indivíduos que alugaram mais de 600 carrinhas”. O inquérito, que já recolheu centenas de fotografias, documentos e testemunhos, não denotou indícios da prática de tráfico de seres humanos, mas apenas de auxílio à emigração ilegal, cuja moldura penal prevê penas até três anos de prisão. “A grande dificuldade é que, em tribunal, talvez coagidos por ameaças às famílias nos países de origem ou aconselhados pelos advogados a não se autoincriminarem nos depoimentos, vários imigrantes omitem os factos que previamente denunciaram às autoridades”, diz a mesma fonte. Durante vários anos, a manifestação de interesse passou despercebida na Alemanha, tanto pelas forças de segurança e serviços migratórios, como também por entidades empregadoras: “Muitos imigrantes mostravam a manifestação de interesse como uma certidão de residência e passava, porque os patrões alemães não faziam ideia do que se tratava”, explica o investigador. Porém, nos últimos tempos antes da extinção do artigo 88º - a 3 de junho de 2024, já por decisão do governo da Aliança Democrática - os serviços portugueses de imigração começaram a ser pressionados pelos seus congéneres europeus. “Perceberam que numa UE cada vez mais rígida nos sistemas de entrada, Portugal era a parte mais fraca”, revela o inspetor questionado pelo Expresso. Ironicamente, o artigo 88º foi aprovado no Parlamento português, em 2007, em consequência de uma decisão tomada em Berlim. À entrada do novo milénio, muitos cidadãos do leste europeu - como moldavos e ucranianos - procuravam estabelecer-se na UE. O executivo germânico facilitou a entrada de ucranianos na Alemanha através de um visto de turista que não lhes permitia trabalhar, embora os autorizasse a circular livremente no espaço europeu. A medida teve como consequência um aumento de trabalhadores ucranianos em situação irregular no sul da Europa. “Milhares acabaram por chegar a Portugal, onde se vivia o boom da construção civil, com muito dinheiro de fundos comunitários, a construção de estádios para o Euro 2004 e de autoestradas”, recorda Catarina Reis Oliveira, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) e diretora do Observatório das Migrações entre 2005 e 2024. A população de estrangeiros, sublinha a académica, duplicou num curto espaço de tempo: de 200 mil em meados da década de 90, passou para 400 mil em 2002. Sujeitos a períodos de regularização extraordinários, os recém-chegados eram votados à exploração laboral e privados de benefícios sociais, como o subsídio de desemprego ou o acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Foi para acabar com isso que o Parlamento - quase por unanimidade - votou a favor da revisão profunda da Lei de Estrangeiros e da introdução do artigo 88º: “Refletiu a consciência de que a lei não podia contemplar apenas as obrigações do imigrante para com o Estado, mas também as obrigações do Estado em relação aos imigrantes”, diz a académica. Se estivessem empregados e a contribuir para a Segurança Social, os estrangeiros poderiam assim dar início ao seu processo de autorização de residência. “A ideia era deixar de termos períodos de realização extraordinária, para termos um mecanismo em contínuo na lei que permitia, por várias razões e contextos, acionar uma legalização”. Durante vários anos, o mecanismo não foi alvo de contestação, porque existia um consenso político alargado sobre a importância da imigração para a economia e demografia. A partir de 2017, um aumento exponencial de chegadas ao país e o surgimento de um discurso político anti-imigração acendeu os holofotes sobre o artigo 88º. Nesse contexto, sintetiza Catarina Oliveira, instalou-se a ideia de que, perante “recursos limitados, vamos limitar a quem vem de fora”. A extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em 2021, adensou a morosidade dos serviços, numa altura em que as manifestações de interesse já se acumulavam nas secretárias da administração. “O artigo tornou-se mal visto não pela sua lógica original de integração, mas pela mudança do contexto económico, político e discursivo em torno da imigração em Portugal”, conclui a académica. Ainda assim, em vários centros de refugiados e imigrantes espalhados pela UE, a manifestação de interesse portuguesa era um raio de esperança que penetrava na fortaleza europeia. A informação espalhou-se rapidamente pela internet. “No passado, Portugal era conhecido como o país do fado, futebol e Fátima”, diz uma outra fonte da investigação. “Nos últimos anos, passou a ser o país de Fátima, Cristiano Ronaldo e do artigo 88º da Lei de Estrangeiros”. O negócio do trabalho temporário A política de imigração colocou desafios ao Estado e aos próprios imigrantes, mas também deu oportunidades àqueles que se souberam mover num espaço jurídico complexo, aberto pela figura da manifestação de interesse. Romy King nasceu na Índia no seio de uma família de empresários, tirou um mestrado na Universidade de Phoenix e trabalhou em Singapura numa agência especializada na movimentação de trabalhadores temporários. Chegou a Portugal em 2013 e foi contratado para organizar a vinda de trabalhadores imigrantes para explorações agrícolas no sul do país. Hoje, King é dono de um vasto universo empresarial, cujo expoente máximo é a agência Work Supply. Com dois mil trabalhadores contratados, é uma das empresas portuguesas de trabalho temporário que possui licença para fazer negócio com firmas sediadas na Alemanha. “Quando um cliente na Alemanha procura trabalhadores, entra em contacto connosco em Portugal”, explica King. “Publicamos anúncios, realizamos entrevistas, contratamos os trabalhadores e colocamo-los nos seus postos de trabalho na Alemanha. Tratamos de todas as formalidades legais por eles: preenchemos um certificado A1 válido, que regula este tipo de movimentação de trabalhadores entre países da UE.” Uma parte da economia alemã depende de trabalhadores temporários. Todos os anos chega meio milhão de pessoas de países da UE para trabalhar na agricultura, na construção, nos cuidados e no apoio social. Existem diferentes possibilidades de entrar no mercado de trabalho alemão, mas uma grande parte dos trabalhadores temporários sai de Portugal para a Alemanha através de agências. “Se uma agência de trabalho temporário portuguesa envia trabalhadores para a Alemanha está a prestar um serviço, e portanto a sua atividade enquadra-se no direito à livre circulação de serviços, e não à circulação de trabalhadores” diz Andreas Hauptmann, do Institut für Arbeitsmarkt und Berufsforschung, um instituto de investigação da Agência Federal de Emprego. Cabe-lhes a responsabilidade sobre os critérios que definem quem vai ser escolhido e quais as condições oferecidas aos profissionais. “Portugal era conhecido como o país do fado, futebol e Fátima. Nos últimos anos, passou a ser o país de Fátima, Ronaldo e do artigo 88º da Lei de Estrangeiros”, diz uma fonte Com uma manifestação de interesse, os imigrantes não têm, por lei, a possibilidade de ser cedidos a empresas alemãs para uma ocupação temporária. Em alguns casos específicos, é possível trabalhar na Alemanha com um cartão de residência português. Mas a maioria dos trabalhadores temporários que a agência Work Supply envia para solo germânico tem passaporte português. Nem todas as agências em Portugal trabalham da mesma forma. A sede da Work Supply, numa praceta em Odivelas, dispõe de um aparato de segurança digno de um palácio. Um homem de fato e outro, bem musculado, vigiam a porta. “Tentaram matar-me”, explica Romy King, sentado atrás de uma secretária no seu escritório, sem janelas e com um intrigante padrão de papel de parede que lembra o cenário de um filme de David Lynch. Uma televisão gigante está pendurada à sua frente, dividida em dezenas de pequenos ecrãs com imagens das câmaras de segurança das suas lojas e armazéns em todo o país. King não sabe quem disparou, mas suspeita que seja um concorrente direto no mercado das agências de trabalho. “Tenho muitos inimigos”, diz. “Há muitas empresas em Portugal que enviam trabalhadores imigrantes de forma ilegal para países da UE. Não são controladas, pagam mal aos trabalhadores e não pagam impostos.” O abuso de algumas dessas agências a operar em Portugal é reportado às associações de imigrantes. “Há sempre pessoas que agem de forma incorreta. Enviam os trabalhadores para a Alemanha, ficam com as comissões, mas não fazem os descontos para os imigrantes aqui em Portugal,” explica Asmit KC, da For Immigrants, By Immigrants (FIBI). As autoridades alemãs também confirmam a existência deste mercado negro. O Ministério da Administração Interna alemão esclarece, no entanto, que são casos isolados e que não existe um “padrão de abuso sistemático.” A Alemanha continua a ser um destino preferido de trabalhadores vindos de Portugal, tanto imigrantes como nacionais. Só em 2024, mais de 7400 portugueses emigraram para a economia mais poderosa da Europa. Uma das razões é a grande diferença nos ordenados. O salário mínimo na Alemanha é mais do dobro do que em Portugal. Além disso, a economia germânica tem atraído forasteiros desde a década de 50, permitindo o estabelecimento de grandes comunidades de imigrantes de diferentes países e, consequentemente, redes de apoio para pessoas que cheguem à Alemanha vindas, por exemplo, do continente asiático. Estes fatores contribuíram para que uma parte dos imigrantes que receberam a manifestação de interesse em Portugal não ficasse em território luso até receber a autorização de residência. No impasse criado pela lentidão de resposta do Estado, alguns imigrantes deslocaram-se para a Alemanha à procura de trabalho, mesmo que a figura legal do artigo 88º não lhes desse essa possibilidade. A Embaixada da Alemanha em Lisboa recebe todas as semanas mais de cinco pedidos de regularização de trabalhadores imigrantes que estiveram empregados na Alemanha em situação irregular, seja com autorização de residência ou apenas com a manifestação de interesse, até serem intercetados pelas autoridades. “Vários imigrantes ficaram a viver na Alemanha e preencheram os requisitos do seu processo de imigração em Portugal através das páginas de internet das autoridades portuguesas”, diz Assmit KC. Uma opinião sustentada pelas fontes policiais contactadas pelo Expresso: “Fala-se de 400 mil imigrantes a requerer a manifestação de interesse, mas é claro que muitos deles nem puseram os pés em Portugal”, diz o elemento da investigação. “Alteravam os IP nos computadores, e submetiam a manifestação de interesse a partir da Alemanha ou de outro país mais rico da UE, ficando a trabalhar lá e viajando para Portugal somente quando lhes marcavam um atendimento”. As autoridades alemãs, como a Bundesagentur für Arbeit (Agência Federal de Emprego), tiveram um conhecimento limitado desta figura jurídica do sistema de imigração português. Os próprios Ausländerbehörden (serviços de estrangeiros), que funcionam sob a tutela dos ministérios dos respetivos 16 estados federais da Alemanha, não sabiam o que era uma manifestação de interesse, nem as limitações que este documento acarretava (10 dos 16 ministérios responsáveis pelo serviço de estrangeiros alemão responderam às questões levantadas por esta investigação, não tendo nenhum deles conhecimento sobre a manifestação de interesse). No entanto, a Embaixada alemã em Lisboa foi regularmente confrontada com pedidos de esclarecimento por parte de imigrantes que não sabiam se podiam ou não trabalhar na Alemanha com aquele documento. A falta de informação sobre o sistema de imigração, a extrema dificuldade em entrar em contacto com a Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) para pedir esclarecimentos e a falta de conhecimento de uma língua europeia foram obstáculos que os imigrantes que queriam trabalhar legalmente na Alemanha não conseguiram, muitas vezes, ultrapassar. Destinos diferentes Shariful Islam conseguiu em Portugal o que ainda não tinha conseguido noutros países: emprego. Em Vila Nova de Milfontes, na costa alentejana, foi rapidamente empregado nas estufas de frutos vermelhos, onde conheceu dezenas de conterrâneos. Seguiram-se mais trabalhos agrícolas na Régua, depois nas Caldas da Rainha. Finalmente, conseguiu emprego numa firma portuguesa no Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), em Loures, onde se sente bem tratado pelo chefe e pelos colegas: “Recebo o peixe, arranjo, corto, faço filetes”, explica o asiático. “Ganho uns 1150 euros mensais. Dou-me muito bem com os meus colegas portugueses e tenho o apoio do meu patrão”, afirma. Com a legalização em curso, Shariful sentia-se muito perto de atingir o sonho europeu. Contudo, em maio do ano passado, recebeu uma notificação da AIMA a informá-lo que o seu processo tinha sido indeferido e que tinha 20 dias para abandonar voluntariamente o país. Porquê? Porque, em consequência do seu pedido de asilo em Bochum, dois anos e meio antes, existia no SIS uma decisão de afastamento da Alemanha que agora inviabilizava a sua legalização em Portugal. “Tenho casa, emprego, vontade de me estabelecer aqui. Eu já nem me lembrava desse pedido na Alemanha”, desabafa Shariful, desesperado. O bangladeshiano enfrenta uma questão fundamental da política de asilo da UE: quando se solicita proteção internacional, bloqueia-se o caminho da migração por motivos económicos, explica Wiebke Judith, especialista jurídica da associação alemã de apoio às imigrantes Pro Asyl: “Quando as pessoas decidem seguir o caminho do asilo, têm de ir até ao fim. E se forem recusados, devem ser deportados. Essa é a forma de pensar na Alemanha, especialmente dos partidos conservadores. Por isso, é importante que as pessoas sejam informadas sobre as consequências de solicitar asilo.” Shariful está longe de ser caso único. De acordo com os dados prestados pela AIMA, havia no final do ano passado 8825 estrangeiros mencionados pelo SIS, 823 deles provenientes da Alemanha. Só França e Áustria tinham mais. Para além destes, pendiam sobre 88 imigrantes propostas de indeferimento das autoridades germânicas com interdição de entrada no Espaço Schengen, num acumulado de 903 casos da mesma índole. Shariful já apresentou dois recursos - que não suspendem a ordem de abandono -, ambos rejeitados. De acordo com o regulamento, os imigrantes têm a possibilidade de solicitar a eliminação da sua identidade no SIS, mediante a apresentação de documentos que atestem encontrarem-se em vias de regularização, mas tal só pode ser executado pela administração dos países que determinaram as medidas e as colocaram no sistema. “Acontece que esses países pedem que a comunicação seja feita pela AIMA, que depois não faz nada”, denuncia Farid Patwari, coordenador da SOLIM, acrescentando que “só uns 10% dos casos do SIS” é que foram solucionados. “Não faz sentido. Estas pessoas têm o cadastro limpo, só trabalham, descontam, e têm as suas vidas em suspenso porque, por desconhecimento, não avisaram os outros países de que iam sair”. Mas o Secretário de Estado da Imigração, Rui Armindo Freitas, sustenta que as decisões associadas ao SIS são vinculativas entre Estados-membros e não devem ser questionadas unilateralmente. “Portugal deve executar as anotações existentes e não substituí-las por juízos próprios sobre os fundamentos de outros países, nomeadamente da Alemanha”, afirma. “Não entendo que um Estado se possa imiscuir nas decisões de outro e dizer que não são válidas”. Quem não deixa o território nacional a tempo, recebe da AIMA uma notificação para abandono coercivo, que pode implicar a detenção, a apresentação a um juiz e instalação num centro de detenção temporária até à execução da deportação, com escolta policial até ao país de origem. Contudo, reconhece Rui Armindo Freitas, o Estado carece de condições económicas e operacionais para executar essas ordens. “O regime de retorno voluntário não serve para Portugal”, diz. “Tem de ser substituído por um sistema coercivo”. Enquanto não o obrigam a sair, Shariful aguarda discretamente. Tem a garantia do seu advogado de que no próximo mês de junho, três anos após a entrada do seu nome no SIS, o sistema eliminará o registo e ficará com um historial limpo. “Só quero ter uma vida normal”, conclui. “Quem pede asilo e é recusado deve ser deportado. Essa é a forma de pensar na Alemanha. É importante que as pessoas sejam informadas”, afirma Wiebke Judith Residir com uma manifestação de interesse em Portugal não significa obrigatoriamente viver numa situação precária e sem solução. O caso do paquistanês Nano Ali tem na sua origem muitas semelhanças com o de Shariful Islam. Ambos vêm de famílias educadas do subcontinente indiano, tiraram um curso numa universidade no seu país de origem e foram trabalhadores imigrantes no setor da construção em países do Golfo Pérsico. Mas foi então que os seus caminhos divergiram: enquanto Islam atravessou a pandemia da covid-19 no Catar, perdeu a mãe e iniciou a sua odisseia de imigração pela Europa, Nano Ali, depois de concluir um projeto na área da engenharia elétrica no Dubai, voltou ao lar familiar e viveu a pandemia no Paquistão: “Tinha muitos colegas que trabalhavam na Europa, estavam na Alemanha, nos Países Baixos. E o que eu ouvia da vida deles inspirava-me.” No verão de 2023, Ali chegou à Europa para tirar um mestrado na Universidade da Dinamarca do Sul, perto da fronteira alemã. Poucos meses depois recebeu uma oferta de trabalho de uma empresa elétrica norueguesa para integrar uma equipa em Lisboa. Interrompeu os estudos e foi contratado para trabalhar na capital portuguesa. O departamento de recursos humanos da empresa, juntamente com um advogado especializado em temas de imigração, aconselhou-o a pedir uma manifestação de interesse para regularizar o seu estatuto de imigrante trabalhador. O paquistanês submeteu o seu pedido no final de 2023. Treze meses depois foi chamado para recolha das impressões digitais. Em outubro de 2025, quase dois anos depois do início do processo, recebeu autorização de residência. “Foi um período muito duro para mim. Não podia sair de Portugal. Sou uma pessoa que quer sempre cumprir a lei. E, com o medo de perder tudo por qualquer circunstância, quase não saí do meu apartamento”. No entanto, tudo o que Nano Ali queria era deixar Portugal. Lá fora, na Alemanha, esperava-o uma nova vida: um posto de trabalho bem mais lucrativo numa empresa em Estugarda, que durante dois anos não preencheu a vaga para que o paquistanês pudesse concluir a regularização em Portugal; e a sua futura esposa, uma engenheira informática que vive e trabalha na Áustria. Há poucas semanas, Ali entregou os documentos na Embaixada Alemã em Lisboa e recebeu o seu Blue Card - o cartão azul da UE para imigrantes altamente qualificados. Segundo números do Ministério de Negócios Estrangeiros alemão, foram globalmente emitidos cada vez menos cartões azuis nos últimos anos: de 2022 a 2025, o número caiu mais de 60%. Ao invés, em Portugal, a Embaixada alemã contou com um aumento de emissões do Blue Card entre 2022 e 2024, enquanto a manifestação de interesse estava em vigor. Dezenas de imigrantes qualificados chegaram a Portugal com uma manifestação de interesse e trocaram Lisboa por Berlim com uma das permissões de trabalho mais desejadas do espaço Schengen. Para Nano Ali, Portugal foi um trampolim para a Alemanha. Mesmo que as molas partidas do sistema de imigração português quase não o deixassem levantar voo e aterrar no futuro tão desejado em Estugarda. Artigo escrito com o apoio da Bolsa de Jornalismo Portugal-Alemanha, iniciativa da Associação de São Bartolomeu dos Alemães em Lisboa, coordenada pelo Goethe-Institut Portugal Tiago Carrasco Jornalista Tiago Carrasco, Tilo Wagner