MONTENEGRO. ESPECIALISTA OU FALHADO EM MARKETING?
2026-05-04 21:09:15

Montenegro fez uma limpeza no marketing do Governo, Trump bate a porta e o pacto da saúde traz o "ex" indesejado do PS. Portugal está a seguir um guião de "novela mexicana"? Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões. Vamos dar notas de zero a 20 nesta nova edição de "E o Vencedor É?", na Rádio Observador, hoje nas manhãs 360 de fim de semana. A análise é da Eunice Lourenço, editora de política do "Expresso", e ainda a Mafalda Pratas, cientista política e colunista do Observador. A moderação é contigo, Zé. Sejam muito bem-vindas ao "E o Vencedor É?", edição de sábado na Rádio Observador, no rescaldo do 1º de Maio, na véspera do Dia da Mãe. Hoje recebemos a Eunice Lourenço e a Mafalda Pratas. Sejam bem-vindas de novo. Obrigado por terem aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre saúde e a tentativa de um pacto para tal. É um dos desejos de António José Seguro, presidente da República, sendo que Adalberto Campos Fernandes é o nome escolhido para ser o coordenador do pacto estratégico para a saúde e é precisamente a Adalberto Campos Fernandes, Eunice Lourenço, que queres dar uma nota. É positiva ou negativa? Olá, muito bom dia. Acho que fica ali na dúvida a nota, porque a ideia de um pacto pra saúde pode, aparentemente, ser uma ideia boa e necessária. E António José Seguro colocou na saúde a prioridade do seu primeiro ano como presidente, mas a escolha de Adalberto Campos Fernandes já está a gerar sinais negativos sobre a real capacidade de a presidência promover um pacto para a saúde, que aliás, diga-se, nunca existiu de fato. Ou seja, nunca PS e PSD votaram juntos, quer a criação do SNS, quer qualquer lei de bases da saúde ao longo destes 50 anos. Mas a escolha de alguém que foi ministro do PS, mas que deixou muitos anticorpos no PS, aliás, como contamos no "Expresso" esta semana, Adalberto Campos Fernandes foi demitido do governo por falta de confiança de António Costa nos números que lhe vinha a apresentar sobre médicos de família. E a ruptura foi ao ponto de António Costa nem sequer querer que fosse convidado para um evento que ele marcou para marcar a sua despedida do governo, em que convidou todos os seus ministros e ex-ministros, e houve um veto a que Adalberto Campos Fernandes fosse convidado. É alguém que tem tido posições mais próximas da atual ministra sobre a concepção do sistema do que dos últimos ministros do PS, Marta Temido e Manuel Pizarro. E, portanto, à esquerda tem esses anticorpos e à direita, no governo, também como contamos no "Expresso", mais do que o nome, que aparentemente é bem recebido, o método começa a gerar algum desconforto, porque parece que António José Seguro tem ali uma espécie de ministro-sombra da Saúde, que vai tentar falar com os partidos enquanto o governo está ao mesmo tempo a legislar. Por outro lado, também há quem ache, como Mariana Vieira da Silva, que foi a indicação do PS para dialogar com Adalberto Campos Fernandes, o que também não é à partida um bom sinal, porque é uma das poucas figuras do PS que acabou por nunca dizer que votava em António José Seguro e porque tem dito que não é preciso, de fato, um pacto pra saúde, porque não há questões legislativas, o que há é questões de organização. Portanto, não encontro aqui nenhum bom sinal, a que acresce o fato de Adalberto Campos Fernandes ter ido pra o Observador tecer comentários sobre a vida interna do PS. Ora, para alguém escolhido pelo presidente pra tentar um pacto partidário, já depois dessa escolha, ir comentar a vida interna do PS também não me parece a coisa mais adequada a fazer. Com tudo isto, e porque, como sabem, eu resisto sempre a dar notas negativas, deixo aqui um 10, não a Adalberto Campos Fernandes, mas à ideia de um pacto pra saúde, por considerar que é necessário um entendimento sobre os meios e o acesso à saúde, mas tenho muitas dúvidas que ele seja conseguido assim, ou então será um entendimento tão vago que também pode não servir de nada. Nota 10 deixada pela Eunice Lourenço. Mafalda Pratas, bom dia. Tu queres abordar o PTRR, tema que a Eunice também vai trazer à análise, já lá iremos. Mas primeiro queres dar aqui um ligeiro pulo à Alemanha, onde há cinco mil soldados norte-americanos prestes a fazer uma despedida. É verdade, bom dia. É uma notícia que está a passar ainda algo discreta, diria eu, mas de fato, Donald Trump vai retirar cinco mil soldados norte-americanos das bases americanas na Alemanha, o que é um número muito acentuado e, como os ouvintes devem saber, e todos sabemosA presença norte-americana na Alemanha é um resquício, um remanescente que existe desde o final da Segunda Guerra Mundial, primeiro na reconstrução na Alemanha Ocidental, depois durante a Guerra Fria, foi sempre um ponto de observação, por assim dizer, e de proteção da Europa Ocidental face, na altura, às ameaças do Leste e da União Soviética e da Alemanha de Leste, obviamente. E depois da Guerra Fria acabar e da unificação da Alemanha, ficou sempre como principal ponto na Europa em que os Estados Unidos podiam, dado o seu papel de aliado fundamental e da NATO, era o principal ponto em que havia uma presença militar norte-americana no continente europeu e permitia fazer uma série de controle mais no terreno daquilo que se passava na órbita da Rússia, obviamente, mas também está bastante mais perto daquilo que se passa no Médio Oriente, no Norte da África, etc. Portanto, era um ponto fundamental. E esta decisão parece-me ser uma decisão muito importante e uma decisão histórica, vem obviamente na sequência dos comentários do chanceler alemão, de Merz, e principalmente das críticas muito fortes que este tem feito à atuação dos Estados Unidos no Irão. Parece-me que isto é uma decisão um bocadinho impulsiva de Donald Trump. Nós sabemos que Donald Trump é bastante impulsivo nas suas decisões, porque no fundo o que ele está a dizer é que os aliados têm que estar sempre comigo, ou as pessoas que querem fazer parte do grupo de aliados dos Estados Unidos, têm que estar sempre comigo em todas as decisões, em todas as guerras, em tudo o que eu faço, ou então a aliança não é possível. Não é assim que se fazem alianças internacionais, obviamente, porque nas relações internacionais é evidente que há sempre grandes diferenças de regime, há sempre diferenças ideológicas, mas tem que haver também espaço para, dentro dessas diferenças, haver um mínimo de cooperação essencial. E de facto, o que se está a passar é mais um passo no afastamento entre a Europa e os Estados Unidos. E o problema de tudo isto é que é muito mais fácil destruir do que reconstruir. Isto é, mesmo que a seguir a Donald Trump viesse uma administração democrata ou uma administração republicana com outra abordagem em relação à política externa, que no caso republicano não parece ser muito provável, mas mesmo que isso viesse a acontecer, a questão é que a confiança mútua demora muitos anos a construir. E, portanto, o que acaba por acontecer é que é um bocadinho o problema de não dar para nós esquecermos coisas que entretanto aconteceram e nas relações internacionais, como não há grandes mecanismos de forçar os Estados a agir de determinada maneira, o que acaba por acontecer é que as pessoas agem com base no passado e na informação de cooperação que o passado sinaliza. Ora, esta informação de que os Estados Unidos estão cada vez mais a afastar-se da Europa e estamos numa espiral em que cada um responde ao que o outro faz com mais um passo nessa espiral em torno à destruição final da Aliança Atlântica, parece-me que vai ser muito difícil de reconstruir e, portanto, eu vou dar uma nota negativa à administração de Donald Trump. Isso aqui é um bocadinho habitual. Sim, vou dar um seis. Nota seis deixada pela Mafalda Pratas. Vamos avançar, falar do PTRR, apresentado nos últimos dias por Luís Montenegro, o programa Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, apontado pelo governo como a principal resposta estruturada ao impacto das tempestades e à necessidade de preparar o país para crises no futuro. Eunice, Luís Montenegro tem nota positiva na apresentação que fez ao país deste PTRR? Eu prefiro não dar nota ao Luís Montenegro e dar uma nota positiva a quem continua a ser resiliente nos territórios afetados, porque o PTRR podia ser uma boa peça de marketing político por agregar várias coisas, umas de resposta às tempestades, outras de prevenção de outros eventos climáticos e outras que estavam no programa do governo e que foram repescadas para ali, e podia ser um bom relançamento deste governo. Contudo, é apresentado com o histórico por trás, que é atrasos na resposta imediata, falhas na resposta quer às tempestades, quer ao apagão, ao qual o PTRR também pretende, no fundo, dar sequência e resposta, e as falhas vão ao ponto de nem sequer permitir que onde o Estado falha, outros sejam resposta. No Expresso online contamos a história da Caritas de Leiria, que tem cerca de EUR 2 milhões recolhidos, mas que pouco conseguiu até agora ajudar, porque como é complementar, é preciso que primeiro o Estado dê a resposta para depois irem dar a resposta que falta. E como o atraso na resposta do EstadoÉ grande. Há formas de ajudar que não estão sequer a conseguir ajudar. E vir apresentar o PTRR já com algum atraso em relação ao que tinha sido prometido pelo governo, que tinha prometido para o início de abril e foi no fim de abril. Aparentemente, podia ser um bom plano a médio e longo prazo e é necessário robustecer o país, dar-lhe, de facto, resiliência, dar instrumentos, capacidades às pessoas e às organizações para a resposta, quer a fenômenos como o apagão, quer às tempestades, quer aos incêndios, que vêm e vão, mas é difícil acreditar na execução de um plano que é apresentado no meio de falhas que estão a ser apontadas na resposta imediata. E, portanto, a minha nota vai para quem continua a resistir e a residir em territórios que não sendo sequer longínquos e no interior, sendo que em Portugal não há nada que seja assim muito longínquo, não somos um país assim tão grande, mas que se sente um bocadinho esquecido apesar de ainda só terem passado três meses ou 100 dias, como vamos assinalar na próxima semana, fazendo a edição do Expresso a partir de Leiria. E portanto, dou um 16 a quem resiste, persiste e não deixa de investir, de trabalhar, de residir, de lutar por uma vida digna e com futuro nos territórios afetados. Mafalda, queres também abordar esta apresentação do PTRR? É verdade e, de facto, o meu medo é que seja mais uma apresentação de marketing político e não um programa que venha a ser executado de forma que consiga realmente fazer alterações ao modo como Portugal responde a catástrofes, sejam naturais, climáticas, energéticas, etc. Parece-me um bocadinho arriscado. Eu percebo que do ponto de vista do governo há incentivos para fazer este tipo de anúncios e de planos, porque são coisas que as pessoas depois acabam por identificar com o governo e pensam: "De facto, o governo está a fazer alguma coisa, lançou este novo pacote." Não sei até que ponto é que é positivo misturar tantas coisas diferentes, é a minha primeira questão. Não sou obviamente especialista nestas matérias, mas de facto parece-me que há um lado que é: vamos tentar fazer disto um plano maior e que englobe várias coisas para que possamos anunciar algo maior. E portanto parece-me que há sempre esse desejo também, até pelo próprio nome, que é evocativo, eu sei que não é a mesma coisa, mas é evocativo do PRR e, portanto, as pessoas gostam de lançar estes grandes planos para efeitos de marketing político. O problema é que depois o diabo está sempre nos detalhes e parece haver ao longo dos anos, já houve com o PRR, e eu penso que o problema é que poderá haver também com este novo plano, há sempre grandes atrasos na execução destes planos. Parece-me haver sempre um subplaneamento, ou seja, não há um planeamento para cada ponto das políticas públicas reais e da integração que é necessário fazer com os vários organismos do Estado e as várias autarquias que já estão no terreno. E depois, um problema que pode vir a ser um grande problema e que acresce temporalmente a isto, é que isto acontece na sequência do fim do visto prévio do Tribunal de Contas para a contratação pública, o que pode significar que os fundos, é evidente que sem o visto prévio, as coisas podem avançar mais rapidamente, e isso é positivo, mas também há o risco, obviamente, disso ser aproveitado de forma mais negativa para premiar empresas próximas do governo ou das autarquias do PSD ou dos partidos do governo. E portanto, isso é sempre um risco muito grande, especialmente num país que tem um histórico como o nosso e fica para ver como é que este plano vai acabar, mas infelizmente eu não tenho grandes esperanças face àquilo que eu já vi terem sido os planos dos últimos 10 anos em Portugal. Vou dar um 10, porque se calhar ainda pode vir a ser positiva, mas as minhas esperanças não estão muito elevadas. Mafalda Pratas com poucas esperanças para a apresentação do PTRR. Temos cerca de cinco minutos até o final da edição de hoje de "E o Vencedor É", temos, Eunice, dois minutos para falar sobre o 1º de Maio e a reforma laboral, até porque tu queres dar uma nota precisamente ao Dia do Trabalhador. Quero dar uma nota a Mário Mourão, líder da UGT, e posso anunciar já. Quero dar um 14 a Mário Mourão por conseguir manter a UGT unida ao longo de todo este tempo de discussão e negociação, sendo provavelmente a figura mais pressionada no meio de toda esta negociação e de todo este confronto político, quer entre partidos, quer com o envolvimento do próprio presidente e a sua pressão para o diálogo, que acaba por também ser geradora de ainda maior pressão sobre a UGT. E quero dar essa nota também porque chegamos a este 1º de Maio com o governo praticamente a dar por perdido o pacote laboral. A afirmação de Luís Montenegro no debate quinzenal de que o país não acaba se não for aprovada esta legislação laboral é quase atirar a toalha ao chão, ainda que haja uma nova ronda negocial na próxima quinta-feira. E o primeiro-ministro diz que há abertura para negociações. Sim, que continua a haver abertura para negociações, mas isso também faz parte do jogo político, que é ninguém quer ser o culpado de acabar com as negociações. E depois ainda haverá um processo parlamentar, eventualmente, em que o Chega já se mostrou disposto a negociar, já recuou, já diz que assim não, e portanto vamos ver o que acontece, mas por agora parece-me que o pacote laboral está em grande dúvida e que Mário Mourão tem o ganho de pelo menos conseguir manter a UGT unida. E sabemos que na UGT estão também representantes dos sindicatos mais ligados ao PSD, aos TSD, aos Trabalhadores Social-Democratas, e que não quebraram essa unidade na UGT, apesar de ser um governo do PSD a tentar fazer esta reforma. Mário Mourão tem também essa nota 14 deixada pela Eunice Lourenço e Mafalda Pratas tenho dois minutos para escutar a nota que pretendes dar à revisão constitucional. É verdade. Nesta legislatura vai acontecer uma revisão constitucional, pelo menos é o que está planeado, digamos assim, mas parece-me que estamos a caminhar para um cenário em que vai haver muita dificuldade em atingir acordos constitucionais e vai haver muita telenovela, digamos assim, principalmente entre Chega, PSD e PS. O Chega tinha prometido que em abril iria abrir o processo de revisão constitucional, que pode ser aberto por qualquer deputado na Assembleia da República, mas acabou por não apresentar nenhum plano, provavelmente porque ainda não tem a proposta terminada e vamos ver o que é que vai acontecer. Mas simultaneamente, a AD, através do líder parlamentar Hugo Soares, veio dizer já várias vezes que a revisão não é neste momento uma prioridade do governo nem da AD e que só deve ser feita na segunda parte da legislatura. Parece-me que não é só uma questão de timing, digamos assim, de timings diferentes. Parece-me que este processo ainda vai dar muita discussão e muito desacordo entre Chega, PSD e eventualmente também PS, que, como já se viu pela nomeação aos juízes do próprio Tribunal Constitucional, para os quais é necessária uma maioria também qualificada, tal como para revisões constitucionais, parece-me que vai ser muito difícil chegar a um acordo e até lá vai haver muitas divergências, não só de timing, mas também das próprias propostas feitas. Penso que vai ser um processo. Sim, sem dúvida, e vai ser um dos temas, parece-me uma das questões altas desta legislatura, que vai trazer muitas divergências. Damos já uma nota? Sim, eu dou um nove. Por quê? Porque é uma nota negativa, porque ninguém na campanha eleitoral, antes de ser eleito, fez propostas claras sobre o que pretendia mudar na Constituição e portanto isto parece agora um bocadinho, não digo despropositado, porque evidentemente que a revisão constitucional tem que ocorrer de tempos a tempos, mas parece-me que há um déficit de legitimidade, não legal, porque isso os deputados claro que têm, mas que há um déficit de legitimidade democrática, digamos assim, porque as pessoas não sabiam em que é que estavam a votar relativamente a propostas constitucionais. Está feita a edição de sábado de "E o Vencedor É..." hoje com a análise da Eunice Lourenço, editora de política do Expresso, e ainda da Mafalda Pratas, cientista política e colunista do Observador. Esta e todas as edições de "E o Vencedor É..." ficam, como sempre, disponíveis em podcast. Rádio Observador