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CONSTRUTORES PROPÕEM CURSOS NAS ESCOLAS PROFISSIONAIS PARA COMBATER FALTA DE MÃO DE OBRA

Jornal de Leiria

2026-05-04 21:09:15

Trabalhadores Faltam recursos humanos, sobretudo especializados. os empresários sentem que sobram arquitectos e engenheiros na medida em que faltam técnicos para a construção redaccao@jornaldeleiria.pt Quando em Janeiro de 2021 (há cinco anos), a ARICOP (Associação Regional dos Industriais de Construção e Obras Públicas da região de Leiria e Ourém) enviou ao Governo um grito de alerta sobre a escassez de mão de obra, o problema não tinha ainda a dimensão que hoje tem. Mas já nessa altura aquela estrutura empresarial o considerava grave. O envelhecimento dos operários da construção civil revelava-se problemático, e desde então tem vindo a escalar. Em Março deste ano, um estudo da Manpower Group revelou dados preocupantes: em Portugal, 83% dos empregadores do sector da construção admitem dificuldades em encontrar os profissionais de que necessitam. O número situa-se 12 pontos acima da média dos da maioria dos sectores de actividade (71%), apenas atrás da hotelaria e restauração. Numa região muito marcada pela construção civil, os empresários vão somando aflicões, já que sem mão de obra não conseguem o almejado crescimento. Na mesma ocasião em que escreveu ao Governo e à Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, a ARICOP criou uma academia co para incentivo e formação de jovens com vista ao desempenho de funções na área da construção, com a parceria com os serviços do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Leiria”. Mas a RAMP = Construction Academy especializada na formação de 9 jovens para o sector da construção, não tem bastado para resolver o problema. Mesmo com várias actualizações, como a versão Summer RAMP , , cuja primeira edição decorreu em 2024, permitindo o contacto de jovens estudantes com o contexto de trabalho em obras de construção, durante as férias escolares. Por diversas ocasiões, os dirigentes da ARICOP insistem, nas suas intervenções públicas, na necessidade de “repor essa realidade no currículo do ensino básico, nomeadamente através de disciplinas como trabalhos oficinais ”. O problema da falta de mão de obra só não é (ainda) mais dramático porque o sector tem-se alimentado da imigração. A tábua de salvação imigrante Gerson dos Santos veio para Portugal há dois anos e logo na primeira semana na região de Leiria conseguiu trabalho. No Brasil, de onde nunca tinha saído até 2024, era operador de máquinas numa pedreira, no estado de Minas Gerais. “Tinha meses muito difíceis. Quando a minha mulher fre orárrid: donncnosso segundo filho, comecei a pensar em emigrar. O facto de falar a mesma língua, o sonho de conhecer o país dos meus avós, e sobretudo viver num ambiente tranquilo, onde possamos criar os nossos filhos (com dois e seis anos) acabaram por pesar”, conta ao JORNAL DE LEIRIA, ao final de um dia de trabalho árduo numa obra em Coimbra. “o meu patrão constrói em vários lugares, mas neste momento estamos mais dedicados à cidade de Coimbra. Noto que quanto mais construímos mais é preciso”, sublinha. Depois de instalado, numa moradia que arrendou na freguesia de Colmeias, conseguiu reunir condições para receber a mulher, Rosemary, e os filhos , o mais novo ainda bebé. Em meses bons, diz que chega a ganhar 1.500 euros, e essa tem sido a média depois da tempestade, quando não a suplanta. Aos sábados e domingos Gerson tem feito pequenos trabalhos de reparação õnos telhados e nas casas das redondezas. Bem mais que o salário mínimo auferido pela mulher, auxiliar num lar de idosos. Depois de Gerson, o empreiteiro que o emprega já contratou vários compatriotas seus. “Mais de metade somos brasileiros, na obra”, enfatiza este homem cuja categoria profissional é servente de pedreiro, embora na prática “já faça tudo o que faz um pedreiro”, acrescenta. Até chegar a Portugal, com 32 anos, este mineiro nunca fizera “um balde de massa”. Aprendeu rápido, assegura. A história de Gerson tem muitas réplicas por toda a região. Não há empresa de construção onde não encontremos uma maioria de trabalhadores vindos do Brasil, da India, da Guiné, Angola ou Cabo-Verde. F oinda ncim são poucos para as necessidades. A falta de mão de obra , sobretudo qualificada na construção civil está à cabeça das preocupações no sector. Os dados oficiais mais recentes, disponibilizados pelo Ministério do Trabalho e pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, dão conta de que 35% da mão de obra no sector é estrangeira. A escassez de trabalhadores é notada há vários anos, mas agravou-se com a tempestade Kristin, tendo efeitos mais severos na região centro. Num artigo publicado em Fevereiro na revista Recursos Humanos Magazine, a arquitecta Maria João Correia colocava o dedo na ferida: “o país quer comprar tudo feito. Portugal quer construir mais, mas não quer formar ninguém”. E por isso concluía que “a crise no sector não é de mão de obra, é de cultura , existe um problema mais profundo: trabalhar em obra continua a ser visto como algo menos digno ou simplesmente impensável para quem tem 18 ou 20 anos”. O empresário Bruno Gonçalves, proprietário da BMLG (pisos industriais) e da imobiliária Pombal Living, subscreve cada palavra deste pensamento. Aos 43 anos, sentiu na pele o estigna desde muito cedo, quando em casa lhe diziam que estudasse, ou então “ia para as obras”, como se fosse um castigo. Acontece que era ali que sonhava trabalhar desde menino, ele que é neto de um constru- » tor da região, com muita casa feita entre as décadas de 70 e 80. Bruno recebe o JORNAL de LEIRIA no escritório da empresa, na Zona Industrial da Formiga, e ali desfia todas as contas de um rosário que dá a volta aos problemas do sector. â cabeça, identifica como estrutural na falta de mão de obra “o facto de não existir formação nenhuma. Nós não podemos ter só engenheiros e arquitectos, precisamos de técnicos para a construção”, afirma, ele que recentemente enviou uma carta à administração da ETAP (Escola Tecnológica Artística e Profissional de Pombal), em que sugeria precisamente a criação de um curso na área da construção civil. Até agora ainda aguarda resposta. O concelho de Pombal foi um dos que mais mão de obra exportou para a emigração, no todo nacional. Bruno é neto de um construtor, filho de um trabalhador da construção civil radicado em Bordéus, França. Por conhecer tão bem as linhas com que se cose a emigração, está sempre disponível para contratar imigrantes. Na verdade, por esta altura, são eles que representam quase metade da mão de obra da sua empresa. Brasileiros e guineenses à procura de trabalho e melhor vida, como aconteceu com os pais, nos anos 80, em França. Da infância guarda ainda a imagem do momento em que o pai passava o cheque para pagar a renda: “sofremos muito o abuso imobiliário. Vivíamos sem condições e era altamente caro”, rarordo que 3 passa hoje em Portugal eul já o vivi, lá, quando era criança”. Bruno, natural da aldeia da Escoura, na freguesia da Ilha, regressou a Portugal na adolescência, ele próprio foi aluno da ETAP, num curso de marketing “que não correu bem”. Afinal, era nas obras que queria trabalhar. Retornou ao sudoeste de França, jovem adulto, e começou por construir casas para vender. Aos 27 anos já era patrão. “Sempre com o intuito de vir para Portugal”, sublinha. Tinha o sonho de construir na sua região e de mudar as regras do jogo no que toca ao imobiliário. Hoje tem 50 trabalhadores a seu cargo, a maioria a trabalhar ônos vários prédios que está a construir na periferia da cidade. “Desde que criei a imobiliária, em 2018, percebi que a maioria dos jovens casais ia fugir para Leiria, não ia comprar casa em Pombal porque não tinha oferta que conseguisse pagar”. Foi . assim que Bruno decidiu construir com “preços mais baixos que a concorrência, através de uma construção mais eficiente”, como lhe chama. São apartamentos com áreas menores, sem garagem, mas “sem poupar ônos materiais”, garante. Sobra trabalho, faltam braços O presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI), Manuel Reis Campos, afirmou recentemente que nos últimos três meses duplicaram os processos de contratação, e também o número de imigrantes para quem foi solicitado visto. Há novos pedidos em preparação , cujo volume é três vezes superior ao registado em Novembro. Depois de um arranque lento, o mecanismo começa agora a suscitar maior interesse por parte das empresas, aguçado pela necessidade: a tempestade Kristin veio aumentar sobremaneira a forte pressão sobre o sector da construção, onde a escassez de mão de obra já é estrutural. os últimos dados revelam que, actualmente, cerca de 35% da mão de obra é estrangeira. Há um ano, em Abril de 2025, O Governo criou um canal especial de recrutamento, na sequência do fim das chamadas manifestações de interesse e do encerramento dos vistos para procura de trahalho avcannãn faita aos profissionais altamente qualificados. Esta solução permite às empresas contratar trabalhadores directamente nos países de origem, com o apoio das confederações empresariais. Até ao início de Março, a CPCI tinha encaminhado 211 processos de pedidos de visto para a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. Um artigo publicado pelo Expresso revela que a maioria destes pedidos é colectiva e envolve 1.427 trabalhadores destinados ao sector da construção, aos quais se juntam 259 processos ainda em preparação. Mas muitos destes profissionais já se encontram a trabalhar em obras em Portugal. As principais origens continuam a ser de países como Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Seguem-se países da América Latina, nomeadamente Brasil, Colômbia e Peru, bem como Marrocos, Senegal, Paquistão e índia. Entre as empresas que já recorreram ao mecanismo encontram-se algumas das maiores construtoras nacionais, como a Mota-Engil, o Grupo Casais e o DST Group. Mas apesar do aumento recente dos pedidos, o número de profissionais disponíveis continua longe de responder às necessidades das empresas. A Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas estima que faltem cerca de 80 mil trabalhadores para dar resposta à procura actual. Os dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional evidenciam a dimensão do problema: em Dezembro de 2025 estavam registados como disponíveis 9.343 profissionais da construção em todo o país. Na região Centro, a mais afetada pelos danos da tempestade, existiam 1.002 trabalhadores inscritos. 83% Cerca de 83% dos empregadores do sector da construção admitem dificuldades em encontrar os profissionais de que necessitam 1002 Era o número de trabalhadores da construção inscritos no IEFP, em toda a região centro, no primeiro trimestre deste ano 35% Os números mostram que 35% por centro da mão de obra na construção em Portugal é estrangeira O problema da falta de mão de obra só não é (ainda) mais dramático porque o sector tem-se alimentado da imigração Paula Sofia Luz