MOTOR HÍBRIDO DA VOLKSWAGEN A CAMINHO DA AUTOEUROPA COM 30 ANOS DE ATRASO
2026-05-04 21:09:15

A Volkswagen acreditava mesmo que ia ser tudo elétrico. Acreditava tanto que atrasou-se imenso a chegar à festa dos motores híbridos. Acredito que na sede da Volkswagen, em Wolfsburgo, haja responsáveis da marca meio embaraçados com o atraso da última semana. E todos sabemos como os alemães são comichosos com as horas. Falo do atraso na apresentação do primeiro motor híbrido da Volkswagen. Ao contrário do que é habitual nestes momentos, os responsáveis da marca alemã fizeram tudo para não dar nas vistas. Como aquelas pessoas que chegam tarde a uma festa, ou a meio de uma sessão de cinema, e fazem tudo para não serem notadas. O problema é que a Volkswagen entrou na sala com um motor híbrido ao colo. Um objeto que é, convenhamos, substancialmente maior que um balde de pipocas. Trata-se de um motor há muito prometido e cujas especificações técnicas só foram reveladas, finalmente, na semana passada. Mas ao contrário do que é habitual não houve nenhum evento de apresentação, nem um comunicado muito elaborado a discorrer sobre as virtudes da nova maravilha tecnológica da marca. Nada. Apenas libertaram a informação e ponto final. Como referi mais acima, podem estar constrangidos pelo momento. Constrangidos porque estão a lançar um motor híbrido com, mais ou menos, 30 anos de atraso. É isso mesmo, três décadas. Nem a minha esposa, que tem por hábito despachar-se à última da hora, chega tão tarde. Os tais “são só mais cinco minutos” que nunca “são só mais cinco minutos”. Mas a minha mulher, ao contrário da Volkswagen, não é um dos motores da indústria europeia. Durante anos, a Volkswagen fez uma escolha clara: mild hybrid para cumprir, plug-in para mostrar serviço e elétricos para o futuro. Pelo meio, nada. Três décadas foi o tempo que a Volkswagen demorou até lançar-se finalmente nos motores híbridos, ou se preferirem, full hybrid, com um princípio de funcionamento semelhante ao que a Toyota introduziu em 1997 no Prius: um motor térmico associado a um motor elétrico, ambos com capacidade para mover o carro de forma autónoma. Sem baterias enormes, sem necessidade de carregamentos e com um apetite por combustível muito abaixo da média. Um atraso que pode ser parcialmente justificado. Todos sabemos com o que é que a Volkswagen andou entretida: motores Diesel. Correu bem, aliás, correu muitíssimo bem até receberem a notificação da União Europeia: estavam a fazer demasiado fumo. E por “demasiado fumo” tanto posso estar a falar do Dieselgate como de uma reprogramação mais intempestiva do famoso e incansável 1.9 TDI PD130. Motor ao qual decidi (vale o que vale ) atribuir o título de melhor Diesel de sempre. E por falar em Dieselgate, essa é outra coisa que os alemães não gostam: de serem apanhados na curva. Foram do oito ao oitenta. Travaram os investimentos na combustão e apostaram as fichas quase todas nos 100% elétricos. Com tanta convicção que chegaram a anunciar o fim de modelos como o Golf. Este foi o pecado da Volkswagen: quis voltar a ser um exemplo. Desde então, o compromisso da Volkswagen com a eletrificação não olhou a meios. Convocaram todas as marcas do grupo e estão a lançar elétricos em praticamente todos os segmentos. É hoje o grupo que mais elétricos vende na Europa. O problema é outro: nem toda a gente quer (ou pode) ter um 100% elétrico. E assim chegamos ao momento atual: a Volkswagen precisa de um motor híbrido. Precisa porque o mercado quer e porque as regras de emissões o exigem. © Toyota Enquanto a Volkswagen apostava nos elétricos como solução universal, o mercado fazia outra coisa: escolhia híbridos convencionais. Em muitos mercados, representam metade das vendas. A Toyota e a Renault que o diga. O construtor alemão tem de baixar a sua média de emissões e os motores híbridos são - depois dos elétricos, naturalmente - a melhor forma de o fazer. Deixem-me colocar isto de forma mais clara: a adoção do carro elétrico não está a correr à velocidade que todos esperavam. Não é só na Europa, na China está a acontecer o mesmo. Os planos chineses contemplam carros com motor de combustão até, pelo menos, 2040. Mercado onde curiosamente a Volkswagen voltou a liderar nos últimos três meses. Foi episódico? Eventualmente. Mas já não acontecia um episódio assim há três anos. Dito isto, a Volkswagen equivocou-se. E naturalmente que este motor híbrido não chega com 30 anos de atraso - a Toyota é que chegou cedo demais. Mas pelo menos com seis anos chegou seguramente. Agora é tempo de correr atrás do prejuízo e, por isso, uma das primeiras fábricas a receber este novo motor híbrido alemão é a Autoeuropa. O motivo é simples: é na fábrica de Palmela que é produzido o Volkswagen mais vendido na Europa. Compreendo que a Volkswagen chegou tarde aos híbridos e agora não quis dar nas vistas. Mas daqui em diante é altura de colocar o ego para trás das costas. Este motor não pode passar despercebido. Se passar, não são só os egos em Wolfsburg que vão ficar em maus lençóis. Guilherme Costa