ACORDO MERCOSUL-UNIÃO EUROPEIA ENTRA HOJE EM VIGOR PROVISORIAMENTE: PORTUGAL E BRASIL ANTECIPAM NOVOS INVESTIMENTOS
2026-05-04 21:09:17

Ouça este artigo Clique para reproduzir Esta sexta-feira, 1 de maio, marca a entrada em vigor provisória do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, um entendimento negociado ao longo de mais de duas décadas e que agora passa a ter aplicação prática, abrindo uma nova etapa nas relações económicas entre os dois blocos. A promulgação do tratado foi feita ontem pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que sublinhou o carácter histórico do acordo e a sua dimensão estratégica para a economia do Brasil e da região sul-americana. O processo, que esteve em discussão durante mais de 25 anos, chega agora ao terreno num momento em que as relações comerciais globais atravessam uma fase de reconfiguração. Montenegro destaca o café como símbolo da relação entre Portugal e Brasil Em reação à entrada em vigor do acordo, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, sublinhou em declarações ao Público que o momento representa uma oportunidade para aprofundar as relações económicas entre Portugal e o Brasil, com o café a assumir um papel central nesta ligação. Montenegro descreveu o produto como um dos exemplos mais claros de uma relação já consolidada entre os dois países, mas ainda com espaço de crescimento significativo. Segundo o chefe do Governo português, o café brasileiro continua a ser a principal matéria-prima da indústria cafeeira em Portugal, alimentando cadeias de produção que têm impacto direto nas exportações nacionais. O primeiro-ministro recordou ainda a recente visita do presidente brasileiro a Lisboa, no Palácio de São Bento, e afirmou que o momento atual abre uma fase de maior intensidade nas trocas comerciais. Para Montenegro, apesar da ligação já existente, o potencial de expansão continua longe de estar esgotado, sobretudo no que diz respeito à presença de produtos portugueses no mercado brasileiro. Continue a ler após a publicidade A ligação económica entre Portugal e Brasil é ilustrada pelo caso da Delta Cafés, empresa portuguesa que utiliza café em grão proveniente do Brasil como base da sua produção. A empresa registou no último ano um volume de negócios de 650 milhões de euros e anunciou recentemente a expansão da sua unidade industrial em Campo Maior, no Alentejo, o que permitirá duplicar a capacidade produtiva. Atualmente, a Delta está presente em cerca de 50 países e as exportações representam cerca de 35% da sua faturação anual. A presença no mercado brasileiro é também relevante, com distribuição em vários estados e forte presença em pontos estratégicos como aeroportos. Para Luís Montenegro, este modelo de relação económica ilustra bem a forma como o acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode reforçar cadeias de valor já existentes, permitindo não apenas importar matérias-primas, mas também aumentar a exportação de produtos transformados com origem portuguesa. Continue a ler após a publicidade Portugal aposta na atração de investimento com foco no interior O primeiro-ministro destacou ainda que o Governo português está a reforçar políticas de atração de investimento, com especial enfoque no interior do país. Essas políticas incluem incentivos fiscais e mecanismos de redução de custos destinados a captar novos projetos empresariais. No centro desta estratégia está o Programa de Transformação, Recuperação e Resiliência de Portugal, que prevê a criação de novas zonas empresariais equipadas com infraestruturas essenciais como energia, abastecimento de água e logística. O objetivo é criar condições mais competitivas para a instalação de empresas e para o desenvolvimento industrial fora dos grandes centros urbanos. Montenegro sublinhou que esta aposta não se limita à indústria tradicional, abrangendo também setores ligados à inovação, ciência e tecnologia, considerados fundamentais para a nova fase de cooperação internacional. Neste contexto, o Brasil surge como parceiro prioritário, devido às afinidades económicas e ao potencial de integração entre os dois países. Cooperação tecnológica e presença empresarial brasileira em Portugal A relação económica entre Portugal e Brasil já se traduz em projetos concretos no setor tecnológico e industrial. Um dos exemplos mais relevantes é a presença da Embraer em Portugal, através da OGMA, em Alverca, onde são produzidos aviões militares do modelo A-29N Super Tucano, destinados a cumprir requisitos da NATO. Este tipo de cooperação é visto como um sinal da crescente interligação entre os dois países, não apenas ao nível comercial, mas também industrial e tecnológico, reforçando a ideia de Portugal como plataforma de entrada de empresas brasileiras no mercado europeu. Continue a ler após a publicidade Lula da Silva e o simbolismo político do acordo A promulgação do acordo pelo presidente brasileiro, realizada ontem em Brasília, foi acompanhada por declarações de forte carga política. Lula da Silva descreveu o processo como tendo sido feito “a ferro, suor e sangue”, criticando a demora nas negociações e apontando dificuldades históricas associadas à assimetria entre blocos económicos. O presidente brasileiro sublinhou ainda que o acordo representa uma afirmação do multilateralismo e uma resposta a políticas comerciais unilaterais adotadas por outras potências, defendendo que o Brasil deve reforçar a sua posição como ator económico global. Lula destacou também a necessidade de o país se afirmar em igualdade de condições no comércio internacional, rejeitando uma visão de dependência económica e defendendo uma estratégia de diversificação de parceiros comerciais. Com a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia esta sexta-feira, abre-se um novo enquadramento para o comércio entre os dois blocos, com impacto direto em setores como agricultura, indústria, energia e tecnologia. Para Portugal, o momento é visto como particularmente relevante devido à sua posição geográfica e histórica como ponte entre a Europa e o Brasil. O Governo antecipa que o novo quadro poderá reforçar exportações, atrair investimento estrangeiro e consolidar cadeias produtivas já existentes. Embora o impacto imediato dependa da implementação prática do acordo nos próximos meses, tanto Lisboa como Brasília apontam para uma intensificação gradual das relações económicas, com especial destaque para setores estratégicos como o agroalimentar, a indústria transformadora e a inovação tecnológica. Executive Digest