HOMEM EM FUGA
2026-05-04 21:09:17

Cantava numa banda punk, assaltou um banco em França, abriu uma loja de discos em Lisboa e escreveu um livro: a saga de Gilles Bertin contada por quem o conheceu No início da década de 90, a Torpedo, loja de discos localizada na Estação Ferroviária do Rossio, foi ponto de passagem para uma geração de melómanos em Lisboa. Ao balcão estava Cecilia, catalã de origem, e o seu parceiro, Gilles. Aos olhos dos locais, o francês era reservado, mas a suposta timidez escondia o seu cadastro - e uma tremenda história de vida, aqui recordada por quem o conheceu. TRINTA ANOS A MONTE: A MINHA VIDA PUNKDe Gilles BertinChili com Carne, 2026, trad. de António Pedro Marques, 224 págs., EUR15Autobiografia A 27 de abril de 1988, um grupo formado por uma dúzia de homens assaltou um depósito da Brink s, uma empresa de gestão de valores, em Toulouse, França, o culminar de um plano germinado quase dois anos antes. O roubo, que se fez com recurso a disfarces e sem que se tivesse registado um único disparo ou ferido, valeu-lhes uma verdadeira fortuna: 11 milhões, 751 mil e 316 francos, cerca de 2 milhões e 600 mil euros, ao câmbio atual. No espaço de dois anos, quase todos seriam capturados pelas autoridades, sem que, no entanto, se viesse a descobrir onde estava o dinheiro. Ênfase no quase : um desses homens, Gilles Bertin, andou a monte durante três décadas. No seu caso, pelo menos, sabe-se o que fez com uma parte do roubo: abriu uma loja de discos em Portugal. A ideia foge tanto ao padrão hollywoodesco do ladrão de bancos - nada de refúgios em ilhas paradisíacas, nada de estourar o seu quinhão em grandes carros ou relógios de marca - que quase parece irrisória. E é uma história que, à época, passou completamente (ou quase, como se verá mais à frente) despercebida, mesmo entre aqueles que privaram de perto com Bertin, fosse em encontros privados entre amigos ou no balcão da Torpedo, a loja que manteve com a sua companheira, Cecilia, na Estação do Rossio. O próprio Gilles acabaria por contá-la em “Trinta Anos a Monte: A Minha Vida Punk”, a sua autobiografia, editada em França em 2019, ano da sua morte, e agora lançada em português, pela mão da Associação Chili Com Carne. Contou-a já depois de se ter entregado às autoridades francesas, cansado de uma vida a olhar por cima do ombro, cansado pela doença maldita - a sida - que contraiu durante os seus tempos de heroinómano e que lhe roubou o olho esquerdo. No livro, a ação começa em 2016, em Barcelona - para onde Gilles e a catalã Cecilia se mudaram assim que abandonaram Lisboa - no dia em que o primeiro sai de casa e se despede da companheira e do filho de ambos, Tiago, à altura com apenas cinco anos. A decisão de se entregar à justiça, tomada em conjunto pelo casal, teve a criança em mente, assim como Loris, fruto de uma relação anterior. “Atabalhoadamente, tento explicar à juíza que me entreguei para permitir ao meu filho e à sua mãe viverem vidas normais, e que não sou um charlatão nem um mentiroso”, lemos. O veredicto foi melhor, bem melhor do que o que se poderia pensar: cinco anos de prisão, com pena suspensa, já depois de em 2004 ter sido condenado a 10 anos de prisão efetiva in absentia. Finda a paranoia, seguiu-se a beatitude de uma vida minimamente “normal” e a entrada na burocracia, que é humoristicamente relatada em “Trinta Anos a Monte”: tendo sido dado como desaparecido, não tinha como renovar o seu bilhete de identidade, a identidade que escondeu durante tantos anos e procurou reaver. “O senhor não existe e portanto eu não posso fazer nada por si”, disseram-lhe no registo civil. Era uma vez em Bordéus Tempos houve em que Gilles foi efetivamente Gilles, apelido Bertin, vocalista de uma banda punk de Bordéus que acabaria por gerar algum burburinho e algum culto em circuitos oi! , a fação do género mais conectada com a classe operária. A banda chamava-se Camera Silens, nome retirado às celas de isolamento sensorial onde, anos antes, os membros do grupo Baader-Meinhof tinham sido encarcerados, e a música seguia esse ímpeto politizado, sobretudo anarquista: Gilles era leitor de Guérin, Kropotkine, Bakunine, Malatesta e Proudhon, e afirmava-se um homem com consciência de classe. “Na minha cabeça, é evidente que pertenço à classe operária, mesmo que eu seja um atado da pior espécie e nunca tenha rebentado os pés no chão de uma fábrica”, escreve, salientando, até por ter pai comunista, que o seu sentimento de pertença ao meio operário era “uma coisa cultural”. A bomba punk , que havia rebentado no Reino Unido por volta de 1976 e espalhado as suas ondas de choque por todo o continente europeu nos anos subsequentes, levou Gilles a apaixonar-se não só pelas ideias como, especialmente, pela música. The Clash, Ramones, Buzzcocks, Sham 69, UK Subs: como para tantos outros milhares de jovens, três acordes, a verdade, nada mais senão a mesma falta de futuro que os Sex Pistols gritavam. Durante esse período, ao qual se refere como “os anos da palhaçada”, Gilles viaja com amigos até Inglaterra para ver os Damned, começa a consumir heroína, procura largar o vício, grava umas quantas canções e vê um dos seus camaradas mais próximos ser baleado no peito, antes de ser detido por furto. O embate primário com as autoridades vale-lhe nove meses de prisão, passados em Gradignan, prisão de alta segurança de Bordéus. É nessa prisão que conhece Iñaki, basco em fuga do regime franquista, que será um dos seus parceiros numa onda de crimes subsequentes, antes do grande assalto em Toulouse. Fora dela, o seu caminho cruzou-se com o de Nathalie, que se veio a tornar na mãe do seu primeiro filho, Loris. Um e outro acabariam por ficar para trás, na sequência da fuga de Gilles e comparsas para Espanha. Em Barcelona, cruza-se com Cecilia Miguel, estudante de jornalismo que o iria acompanhar até ao fim dos seus dias. E com a efervescência do rock alternativo e independente que, filho do punk, marcaria o final da década de 80 e inícios dos anos 90: Nirvana, Mudhoney, Sonic Youth, Pixies. O bichinho que lhe incutiria a vontade de criar uma loja de discos infiltrou-se-lhe aí no sangue. “Ele era alguém com muito magnetismo”, afirma hoje Cecilia ao Expresso. “Tinha algo de puro, de autêntico.” Cecilia foi, em Portugal, uma das poucas pessoas que souberam, desde o primeiro dia, quem Gilles era de facto. “Estava com um amigo francês, que me apresentou ao Gilles e ao Philippe. Ele disse-me, imediatamente, quem era e o que fazia. Soube, desde o primeiro momento, que tinha feito um assalto e que se encontrava em fuga”. Philippe é Philippe Rose, amigo de Gilles e outro dos comparsas do assalto à Brink s, cuja captura em Valência motivou a fuga do casal para Portugal. Num dos momentos mais ternos de “Trinta Anos a Monte”, Gilles conta como Cecilia o tentou fazer aprender espanhol, com a ajuda da literatura. “Interesso-me, mas pouco convicto, pelas obras de García Márquez, de Borges e de Cortázar”, narra. A “salvação” surgiu pela mão de Tolkien e da sua obra-prima, “O Senhor dos Anéis”. “Ele ampliou o seu leque de gostos; sempre teve, e continuou a ter, uma inclinação pela ficção científica”, revela Cecilia. Com a mudança, o castelhano é trocado pela língua lusa, com o casal a optar por ter aulas de português. “Foi a primeira coisa que fizemos. A única maneira de estar dentro de uma sociedade é falar a língua”, explica. Amigos em Portugal No início dos anos 90, Lisboa era um lugar estranho e quase mágico: mesmo que por cumprir, a Revolução de Abril tinha trazido ares de liberdade a um país e a uma capital outrora retidos no mesmo fado triste que celebravam. “Era muito diferente da Catalunha. Foi uma descoberta. Havia mais liberdade de pensamento, eram menos politizados”, argumenta Cecilia. “Sobretudo no meio musical em que estávamos inseridos. Havia mais sabedoria, mais conhecimento do mundo. O que me surpreendeu, vinda da universidade, onde estudava jornalismo, foi a diferença ao nível da cultura. A Espanha política corrompia tudo, e isso limita muito a mente. Em Portugal encontrei liberdade.” Lisboa foi sempre a primeira opção do casal, que tinha passado férias em Portugal meses antes da mudança propriamente dita; assentaram arraiais em São João do Estoril e fundaram a Torpedo pouco depois. No livro, Gilles denota o seu fascínio por aquilo que encontrou na capital portuguesa, do simples facto de a televisão transmitir episódios de “Monty Python s Flying Circus” e “Blackadder”, ao programa do falecido António Sérgio na rádio, passando pelo então semanário “Blitz”. “Mesmo que o fado seja sem dúvida a música mais triste do mundo, aos portugueses não lhes falta nem humor nem espírito rock and roll”, escreve. A vida em Portugal foi tranquila até ao dia em que um francês lhe entra na loja e o questiona: “Tu és o cantor dos Camera Silens, não és?” A Torpedo “era brutal”, conta João Rolo, antigo funcionário da editora MVM, homem que viveu intensamente esse período, dentro e fora da indústria. Funcionava quase como que um oásis, num circuito que contava com lojas como a Bimotor ou a Palladium; o que tinha de especial, em comparação com a concorrência, “era a música, mesmo”. Discos de artistas straight edge, uma boa secção de reggae, bandas como os Flipper, os Big Black, os Gun Club. “Eram uma lojeca, de 12 por 4 metros, e a [concorrente] Bimotor preocupava-se com o que os gajos tinham”, brinca Rolo. A qualidade da seleção musical atraiu toda a espécie de junkies do som, figuras para as quais a melomania não é um hobby e sim um estado de espírito. Naquela “lojeca” tanto se cruzavam os fãs de black metal como as grandes figuras do alternativo português, como Elsa Pires, falecida fundadora da editora Bee Keeper. Ao balcão estavam Cecilia e Gilles, que a dada altura chegou a ser conhecido como “Jim” e rotulado de escocês, depois de um faux pas linguístico que envolveu o casal e um outro, formado por Luís Futre (primo de Paulo, o grande futebolista, vocalista do Jardim do Enforcado, colecionador, figura de ponta da cena rock lisboeta dos anos 90 e cofundador da Groovie Records, em Lisboa) e Ondina Pires (pioneira do punk nacional, vocalista dos Great Lesbian Show, escritora e crítica musical). Esse encontro é narrado no livro e na BD que o finaliza e começa com Futre, depois de muita deambulação pelo Rossio, a ligar para a Torpedo com os seguintes dizeres: “Mas onde é que está a puta da vossa loja?” “Esse relato é verdadeiro. Aquele trocadilho que eu faço, com Gilles e Jim, foi porque o gajo era alto, loirinho, ter um ar entre o nórdico e o inglês”, conta Futre. O primeiro impacto com a Torpedo assombrou-o: “Quando me abrem a porta, vejo discos completamente estapafúrdios, coisas impensáveis de se ver no mercado português”, continua. “Dentro da cena alternativa, o mercado português andava muito à volta do pós-punk, de todo aquele imaginário da 4AD. A Torpedo rompeu com aquilo tudo; como não tinham conhecimento do mercado português, trouxeram material que tinha mais ou menos a ver com o francês e o espanhol.” Um passado a esconder A importância da Torpedo granjeou ao casal Gilles-Cecilia uma panóplia de amigos para a vida, como Paulo Abreu, à altura estudante de fotografia na ArCo (onde veio a ser, mais tarde, professor), que assina algumas das fotografias mais íntimas da vida portuguesa de Gilles Bertin. Paulo conheceu Cecilia numa festa na Parede, na casa de um amigo em comum, acabando a viver com a sua namorada, Britta (hoje esposa), numa casa em São João do Estoril bem próxima da dos primeiros. “Ele falava, participava nas conversas, mas era reservado. Achávamos que era tímido”, conta. “Era desconfiado das forças de autoridade, mas era só isso que sabíamos.” Paulo conheceu bem de perto o ambiente da Torpedo, uma loja “com uma frequência muito gira, muito alternativa, com pessoas muito respeitosas”. “Estive lá na altura dos Nirvana e eles já sabiam que aquilo ia explodir”, relata (e, de facto, no livro, Gilles conta que viu, com Cecilia, a única incursão do grupo de Kurt Cobain por terras lusas, no Dramático de Cascais). “Era um recanto espetacular, com fanzines, anúncios de todos os concertos, a cena alternativa de Lisboa... Estava lá tudo”. Apesar de o seu rosto ter sido vislumbrado por muitos dos que fizeram parte, à altura, da cena musical lisboeta, a verdadeira identidade de Gilles Bertin nunca foi descoberta. Até ao dia em que um homem francês, português de origem, lhe entra na loja e o questiona: “Tu és o cantor dos Camera Silens, não és?” O rumor acabaria por se espalhar, levando Gilles e Cecilia a tentar apagar o incêndio . “O que tentámos fazer foi negá-lo. É como quando estás numa esquadra e te perguntam: mataste fulano? ”, conta agora Cecilia. “Quando se está em fuga, a paranoia é constante. Felizmente, não aconteceu nada.” Luís Futre recorda que, ao longo da sua vida em Portugal, Gilles Bertin usava sempre t-shirts de manga comprida, de forma a poder esconder as muitas tatuagens que tinha. “Ele nunca mostrou os braços. Só percebi isso uma vez, quando fui dormir a casa deles”, conta. “[As tatuagens] são uma coisa que denuncia logo, não é? O gajo que lhe visse os braços e reconhecendo mais ou menos o rosto...” Futre foi uma das pessoas que Cecilia abordou, na tentativa de apaziguar a história que circulava, de que a Torpedo era “um covil de terroristas”, como teria afirmado alguém da concorrência. “Contou-me a história toda do assalto e, quando chegou ao fim, disse-me que se a ouvisse era tudo mentira”, recorda. João Rolo, aliás, só descobriu a verdadeira identidade de Gilles através do Facebook, muitos anos depois. “Diziam-me que o gajo era etarra. A vida pessoal das pessoas não me interessava para nada, só a música”, afirma. O mesmo sucedeu com Paulo Abreu, que só o veio a saber depois de Gilles Bertin se entregar à justiça. “Sabíamos que havia qualquer coisa, mas eu não sabia a história que estava por trás”. Anarquista, amigo, pai A meio da década de 90, entra na vida de Gilles Bertin o temido diagnóstico: o teste de VIH deu positivo. Ainda hoje, Cecilia mostra-se muito grata para com o Serviço Nacional de Saúde português, que cuidou de Gilles. “Tomaram conta dele de uma maneira inacreditável. Salvaram-no”, diz. “Não morreu graças aos médicos portugueses.” A doença acabaria por lhe roubar o olho esquerdo, mas não o impediu de ter um filho com Cecilia, anos depois, no regresso a Barcelona. Após essa mudança, Paulo Abreu e Britta continuaram a manter contacto com o casal amigo. O fotógrafo e professor recorda com amizade os fins de semana que passou na companhia de Gilles e Cecilia. “Fizemos algumas viagens à Barragem do Zêzere, porque tínhamos um amigo que tinha lá casa”, lembra, abordando ainda o género de conversas que tinha com Gilles, homem com uma enorme bagagem cultural. “Ele tinha aquele ar de punk, mas falávamos tanto do negócio, como de política, de livros... Ele era antiestablishment, tinha uma desconfiança muito saudável, diria, das forças da ordem, da corrupção que às vezes pode haver desse lado.” Em 2016, não obstante a desconfiança, Gilles decide então entregar-se , revelando ao mundo, e aos que o conheceram de perto, a sua verdadeira identidade. Questionamos Cecilia se Gilles, depois de tanto tempo em fuga, conseguiu por fim encontrar alguma paz interior. “Só ele poderia responder a isso”, conta. O facto de a história de Gilles continuar a despertar interesse é uma outra coisa. “Estou muito feliz pelo Loris, o seu filho mais velho, que esteve muito tempo sem pai e se reencontrou com ele. É uma pena que Gilles tenha morrido. Poderia ter continuado a compor, a escrever ” Talvez tivesse acrescentado mais alguns capítulos aos seus “Trinta Anos a Monte”, tão pungentes quanto as linhas que escreveu sobre a sua decisão de responder perante a justiça: “Acontecia-me muitas vezes pensar na morte, representá-la. Mas render-se, mesmo que tenhamos falado disso muitas vezes, continuava a ser do domínio do abstrato ( ) Prefiro explicar aos meus filhos: Eu fiz asneiras, mas vou pagá-las , em vez de continuar a assumir um passado que já não se parece comigo.” Gilles Bertin, punk, anarquista, assaltante, fugitivo, homem de negócios, amigo culto, seropositivo, pai. Vários epítetos, como que para provar que um homem não é uma coisa estanque. Como se nessa indefinição estivesse uma ideia de liberdade. Fotografias cedidas pela Associação Chili com Carne Paulo André Cecílio Jornalista Paulo André Cecílio