pressmedia logo

UMA VIDA PUNK, UM ASSALTO MILIONÁRIO, UMA LOJA DE DISCOS EM LISBOA

Público

2026-05-04 21:09:17

Quem comprava discos na Torpedo não sabia. Atrás do balcão lisboeta, um vocalista punk que participara num dos maiores assaltos da história de França. Gilles Bertin contou tudo no livro Trinta Anos a Monte. QI. uem é que não gosta de uma boa história de piratas?”, sorri José Smith Vargas. O autor de banda desenhada, também músico e actor, está com O ípsilon numa esplanada no Jardim das Amoreiras em Lisboa, numa tarde de Abril. A história de que fala tem um homem no centro e toca vários tempos e geografias, dos anos 1980 ao presente, de Bordéus e Toulouse a Barcelona passando, de forma determinante, por Lisboa. Um vocalista e baixista de uma banda punk francesa em ascensão, OS Camera Silens, heroína e marginalidade, um assalto milionário, dos maiores que a França já testemu-nhou, uma loja de discos na Estação do Rossio, a Torpedo, marcante para a juventude sónica lisboeta (e mais além) na década de 1990. Trinta Anos a Monte , A Minha Vida Punk, de Gilles Bertin, é o livro que conta aquela história na primeira pessoa. Editado originalmente em França em 2019, conhece agora edição portuguesa, pela Chili com Carne, com tradução de António Pedro Marques. José Smith Vargas, autor dessa obra imprescindível sobre a queda das nossas cidades às mãos da especulação e da gentrificação, Vale dos Vencidos (Chili com Carne, 2023), assina um exclusivo da edição portuguesa: uma banda desenhada que, em 24 páginas, põe os que passaram pela Torpedo a recordar a comunidade melómana que ali gravitava, colocando a lente sobre a parte desta história que nos é mais próxima. Escrever o livro, publicado originalmente no mesmo ano em que Gilles Bertin morre precocemente, aos 58 anos, foi uma forma de expiar a dor provocada nos outros e em si mesmo e nasceu da vontade de deixar um testemunho de persistência. “Quando caímos, não temos de ficar no chão. E preciso esforço, uma acção que compense de alguma maneira a queda, uma aprendizagem que permita agir de outra forma”. Temos no ecrã Cecilia Miguel.companheira de Gilles Bertin. Catalã cujas raízes familiares se encontram em Castela e Leão vive hoje em Los Santos, aldeia nas proximidades de Salamanca por onde passou também a vida na clandestinidade de Gilles =, conheceu-o no início da longa fuga, era ela estudante de Jornalismo que assinava textos sobre discos e bandas na imprensa musical. “E O início do que viria a ser o meu último concerto. Uma vez no palco, esqueço tudo. Não há bófia, não há prisão. Não preciso de me preocupar mais...”, escreve Gilles Bertin, que alguns também conheceram como Jim Ballet. Após aquele dia de 1988, não mais teria o palco como liberdade e refúgio. Poucos meses depois está em fuga, procurado pela polícia por um dos maiores assaltos que a França conheceu: 12 milhões de francos (cerca de 2,6 milhões de euros) rapinados da caixa-forte dos armazéns da Brink s de Toulouse, empresa multinacional de transporte de dinheiro e bens valiosos, numa operação audaciosa, preparada ao longo de mais de um ano e montada por um grupo de 12 elementos, formado por punks, anarquistas, independentistas basCOS. Armados com revólveres que nunca usaram, alguns disfarçados de gendarmes com uniformes comprados na Feira da Ladra local, concluíram a operação sem vestígios de violência física. Enquanto os companheiros eram capturados um após o outro, Gilles Bertin continuou a monte. Esteve em Salamanca a fazer-se passar por agente musical francês, assistiu no sul de Espanha, nos arredores de Lloret del Mar, à explosão cultural-hedonista-musical da Rota del Bakalao, onde a música electrónica irrompeu em Espanha e cujas discotecas ficavam abertas 24 horas sobre 24 horas de quinta-feira até domingo. Esteve também mais perto de nós, no coração de Lisboa. No primeiro andar do Centro Comercial da Estação Ferroviária do Rossio, encontrávamos no início dos anos 1990 a Torpedo.com a sua criteriosa selecção, foco no rock n roll, ôno punk, no metal, nas várias manifestações de música independente, tornou-se um importante centro agregador da comunidade melómana lisboeta. Ali se encontravam as fanzines que começavam a multiplicar-se, os cartazes dos concertos das cenas locais. A influente editora Bee Keeper, ícone do indie português dos anos 1990, que teve ao leme Elsa Pires e Luís Futre, nasceu praticamente na Torpedo. Ele não chegou a viver esse período. E muito mais tarde que, em conversas com amigos, começa a dar-se conta da “mitologia” que rodeava a loja. Na investigação para a banda desenhada que acompanha Trinta Anos a Monte, iam-se acumulando as pessoas com ligação à loja, pessoal do metal, pessoal do straight edge, pessoal da célebre casa ocupada da Praça de Espanha. Lembravam-se de Cecilia e do circunspecto Gilles, sempre de camisolas de manga comprida a tapar-lhe as tatuagens, por receio que estas pudessem denunciar-lhe a identidade. Já havia lojas especializadas, como a Bimotor ou a Contraverso, mas a Torpedo, “para os miúdos de Lisboa, é um alien total”. Em Barcelona, Gilles passava grande parte do seu tempo nas lojas de discos da cidade. E essa frequência que lhe alimenta a ideia de abrir ele mesmo uma com Cecilia. Barcelona, sobrelotada de oferta, não era hipótese viável. “Mas havia ali perto, noutro país, outra capital, completamente por explorar”, nota José Smith Vargas. Lisboa a ferver O casal muda-se em 1990. Loja no Rossio, casa em São João do Estoril , mais tarde, mudar-se-iam para a margem sul do Tejo, para o Lavradio, no Barreiro. O facto de não conhecerem o mercado português e os seus interesses acabou por ser uma vantagem. Guiou-os nada mais que a sua “curadoria de bom gosto”, o conhecimento do que borbulhava ôno meio musical. “Eles chegam com uma mala com dinheiro e a possibilidade de fazerem o investimento inicial”, refere Smith Vargas. “Fazer as primeiras encomendas e despejar aqui música que sabem que é boa, fulgurante, brutal, mas que mais ninguém conhece ainda. Isso começa a pegar e a alastrar. E as pessoas sabiam que ali era o epicentro.” o raio, na verdade, alargava-se bem além de Lisboa, através da publicidade na imprensa. Uma das primeiras encomendas, recorda Gilles Bertin ôno livro, chega de Castelo Branco. Seis discos de vinil: Fugazi, Nirvana, Pussy Galore, Butthole Surfers, Pixies e Afghan Whigs. “Aquele assalto à Brink s financiou a cultura musical de uma geração em Lisboa. Esse arco é uma coisa inacreditável”, nota José Smith Vargas. O cliché do fado e da melancolia lusitana são rapidamente ultrapas-sados. Gilles entusiasma-se com o Monty Python s Flying Circus e o Blackadder de Rowan Atkinson na televisão pública. Descobre “o John Peel local”, António Sérgio, e um jornal, o Blitz, farol na divulgação de música independente. “Afinal, mesmo que o fado seja sem dúvida a música mais triste do mundo, aos portugueses não lhes falta nem humor nem espírito rock and roll”, escreve. Uma cidade que vive num “doce murmúrio”, sem grandes convulsões a “alterar o ritmo diário dos seus habitantes”. Através da Torpedo, nome e logótipo retirado da série de banda desenhada de Abulí e Bernet, a do assassino a soldo Luca Torelli na Nova Iorque da Grande Depressão, contactaram com uma comunidade melómana diversa, informada e muito activa. Cecilia fala de uma sensação de “liberdade”, de “um intercâmbio muito enriquecedor”: “continuámos a falar disso mesmo depois [de saírem de Lisboa]. Havia qualquer coisa de especial. Parecia estar a ferver por todos os lados.” Gilles Bertin e Cecilia regressam a Barcelona em 2000, seriam pais dez anos depois. Tiago foi o segundo filho de Gilles. O primeiro, deixara-o para trás em França quando da fuga, e a vigilância policial espanhola tornouimpossível reagrupar-se com ele e com a mãe: quando o viu novamente, já Nathalie morrera há muito, vítima da epidemia de sida, já Loris tinha 30 anos. Em 2016, Gilles decide entregar-se. Não queria continuar a fugir, não queria impor essa vida clandestina ao filho de 5 anos, Tiago, e a Cecilia. “Não havia nele medo nenhum, porque sentia estar a fazer o correcto em entregar-se. Era o momento certo.” E nessa altura, quando o reaparecimento começa a ser notícia, que os antigos clientes da Torpedo e os amigos portugueses de Gilles e Cecilia conhecem a história daquele homem reservado atrás do balcão. “Qualquer pessoa te dirá que O Gilles era muito calado, que falava muito, muito pouco”, diz Cecilia. “Mas calava por respeito ao outro”, para não comprometer ninguém na sua clandestinidade. Alguns seriam até surpreendidos ao descobrir que aquele homem era afinal Gilles, francês, e não Jim, escocês , Luís Futre, membro dos Jardim do Enforcado, banda dos anos 1980, agora regressados, coleccionador e investigador do nosso passado punk e rock n roll, e Ondina Pires, figura destacada do nosso punk, com passagem pelos Pop Dell Arte, voca-lista dos Great Lesbian Show, escritora e crítica musical =, foram dos primeiros clientes e um lapso fonético quando entraram pela primeira vez na Torpedo, Gilles por Jim, deu a Gilles uma identidade escocesa provisória. Em sentido contrário, Cecilia e Gilles aperceberam-se também do impacto que tivera a Torpedo. “Quando começaram a sair as primeiras reportagens, muita gente portuguesa contactou-o no Facebook com lembranças. Só nessa altura é que tivemos consciência, no momento não.” Compreende-se que Cecilia e Gilles não se tivessem apercebido. “Vivíamos numa paranóia constante, em que qualquer carro que ficasse estacionado dois dias seguidos à nossa porta era um problema”, conta Cecilia. Gilles “tinha de combinar hermetismo com honestidade, tinha de ocultar uma parte muito importante do seu viver, mas tinha de se dar verdadeiramente [aos outros]”. Quando um dia um francês de origem portuguesa o identifica, perguntando-lhe pelos Camera Silens e trauteando algumas das letras da banda, a Gilles resta-lhe negar e continuar a negar quando esse rumor redunda num outro, de que era um etarra a congeminar atentados a partir da Torpedo. O ruído acabaria por serenar. Mas, além da paranóia, havia algo mais. E durante o tempo passado em Portugal que Gilles descobre ser seropositivo, contaminado pelo vírus nos anos da toxicodependência. Perderá o olho esquerdo, mas sobreviverá. No livro agradece ao Serviço Nacional de Saúde português ter-lhe salvado a vida. Cecilia faz agora o mesmo. Apesar de indocumentado, nunca lhe foi negado tratamento. “Em Portugal deram-lhe atenção médica e um acompanhamento sempre humano”, diz Cecilia, recordando aquele período em que a ciência não dominara ainda o vírus e a epidemia grassava. “Estávamos a sair do elevador no hospital e, de uma sala, víamos dois corpos a serem transportados. Saíam constantemente pessoas a morrer. Aconteceu o mesmo em todo o lado. Foi uma geração.” Quando se entrega à justiça francesa em Toulouse, Gilles tinha pendente sobre si uma pena de dez anos de prisão efectiva, condenação determinada à revelia em 2004. Defendido por Cristian êtelin, advogado que tem apoiado ao longo dos anos anarquistas e pessoas ligadas a movimentos revolucionários, levara consigo para o tribunal uma mala com roupa, esperando a prisão. Não foi necessário. Cinco anos de pena suspensa. Gilles estava finalmente livre. Ou quase. “Foi libertado pelo juiz, mas o castigo administrativo continuou. Isso foi duro, mesmo muito duro”, suspira Cecilia. Dado como morto delas autoridades francesas, atravessaria um pesadelo burocrático nos anos seguintes para provar que sim, que estava mesmo vivo. Poucos dias depois de, finalmente, ter o novo bilhete de identidade nas mãos, caiu num coma de que não acordaria. Ou a fábrica ou a rua Tudo começa com a explosão punk inglesa, em 1976. Nascido em Paris, Gilles Bertin abraça a nova vaga em Bordéus, para onde se mudara com os pais quando tinha 11 anos. Filho da classe operária, sentindo-se afiliado a ela por questões familiares e culturais, ainda que nunca tivesse trabalhado numa fábrica, tem como guias bandas como os Clash, os Damned, OS Ramones, os UK Subs ou os Buzzcocks, que reencontraria muitos anos depois em Portugal, em Cascais, em 1994, actuando na primeira parte dos Nirvana , deplorou o som que minou o concerto dos ingleses, não apreciou particularmente o dos americanos, considerando que, entre a plateia e o palco, se abriu um fosso entre o vocalista idealista de saúde mental debilitada e um público que, assinala no livro, já era mais fruto de MTV e Coca-Cola do que do punk. Os Camera Silens nascem em 1981 , O nome, latim para “câmara de silêncio”, refere-se às celas de isolamento onde onos anos 1970 eram encarcerados os membros do grupo alemão Baader-Meinhof. Ao ler o liVTO, acompanhando esse percurso musical inicial, de que resultaria o óptimo Réalité, álbum de estreia dos Camera Silens, editado em 1985, Gilles Bertin como vocalista furioso, voz rouca gritada, sobressai a forma como nele e naqueles que o rodeavam, vida e música pareciam indistintas. Vida à margem, à procura de dinamitar os alicerces de um mundo em que não acreditavam, injusto, apodrecido. “Quem vai para o punk [naquela altura] é sempre pessoal que tem de tomar uma decisão. Ou é a fábrica ou é a rua”, reflecte José Smith Vargas. “Não é como na nossa geração, em que, devido ao progresso e a certas conquistas sociais, toda a gente se aburguesou um bocado, e ainda bem.” Gilles Bertin vinha de outro mundo. “são mesmo outcasts. Se não estás a tocar, também não estás em casa da mãe a comer saladas. A banda vive junta onde pode, toca aos fins-de-semana. E como tocar ao fimde-semana não chega [para as despesas], há ali um do or die”. “Não temos um tusto, o estômago mia, estamos gelados, mas que sa foda. Temos 20 anos e futuro nenhum , No future , e a sensação de sermos livres acalma a nossa fome e multiplica a nossa energia”, assim descreve Gilles o espírito que o animava. Cenário: um apartamento partilhado, “tão sinistro como um disco dos Cure em ácidos”, entre discos e a literatura revolucionária (Bakunin, Proudhon, Kropotkin) que surripiava de uma livraria próxima. Depois, a queda na toxicodependência, os assaltos, a detenção. “Surpreendido por uma patrulha na posse de um pé-de-cabra, acabado de sair de um prédio com metade das portas arrombadas, deixei de tentar fugir”, conta. Faz a desintoxicação no estabelecimento prisional de alta segurança de Gradignan, em Bordéus, onde cumpre uma sentença de nove meses. Novamente livre, a heroína fora deixada para trás, mas não os assaltos. Escolhera roubar o sistema a ser escravizado por ele. “Havia um lado anarquista, uma desculpa ideológica, não era simples delinquência. Mas havia também o facto de ter deixado uma adição que provocava muita adrenalina, que é a mesma adrenalina que provoca um concerto. Juntam-se as duas coisas, a justificação ideológica e a procura dessa sensação máxima de emoção”, explica Cecilia Miguel. Nesse período, Gilles Bertin regressa à banda, mas os companheiros dos Camera Silens desconhecem a sua actividade paralela. A 27 de Abril de 1988, o grande golpe na Brink s de Toulouse. Doze milhões de francos, dos quais apenas uma ínfima parte seria recuperada pela polícia. Começavam OS 30 anos a monte. Quando a Interpol se põe em cena, Gilles Bertin eclipsa-se. “Começar do zero. Tudo o que houve antes já não existe. Os meus pais, a minha adolescência caótica, os Camera Silens, a heroína, os assaltos, as revol-tas, a Nathalie: é o fim. Seccionar, cortar, amputar, é mesmo isso, amputar o meu passado”, escreve. Acrescenta: “Com o Loris é diferente. Nenhum humano consegue amputar os seus filhos. Podemos esquecer os pais, os amigos, os amantes, mas nunca os filhos”. José Smith Vargas foi atraído pela premissa básica , punk francês assalta banco e abre loja de discos em Lisboa =3 mas encontrou algo maior. “Quanto mais aprofundas, mais impressionante é. Aprendemos sobre os quotidianos e as diferentes cenas à medida que ele se vai movimentando, mas vemos também o outro lado, a dureza, o lento apagar e o peso da clandestinidade. ê uma história clássica de piratas, um romance épico, uma coisa que não se inventa.” Quando se entrega, quando conhece a sentença de pena suspensa, reencontra-se com Loris, apresenta-o ao irmão Tiago. “Ele é realmente especial, muito generoso. Disse-lhe és bem-vindo [a Gilles]”, recorda, emocionada, Cecilia. “Construímos uma relação de família, continuamos a falar e a encontrar-nos mesmo depois da morte do Gilles. Os irmãos estão felizes.” ê por isso que, história contada, entrevista a chegar ao fim, depois do lento suspiro perante a ironia cruel da morte precoce, a lembrança de que Gilles só aueria então, acima de tudo, ter uma vida normal, calma, a ver os filhos crescer, Cecilia dirá: “Apesar de tudo, acaba bem.” Repete: “Apesar de tudo, acaba bem.” Depois de ter fechado as suas personagens na sala de um pequeno cinema (O Cinema), nas traseiras de um pequeno café (OS Aliens), ou no interior de um pequeno bed & breakfast (John), sempre lugares numa esquecida província, distantes de qualquer agitação artística, Annie Baker, naquela que é, talvez, a mais inquietante das suas peças, enfia sete homens e duas mulheres numa writers room. Juntos, e às ordens de um senior, estes guionistas partilham histórias à procura daquela que melhor corporize uma ideia de monstruosidade que devem alcançar. Para que servirá a história (série de TV, filme, videojogo?), ninguém sabe. Provavelmente, nem Annie Baker. Pouco importa qual é o propósito que fecha Sandy, o seu assistente Brian e seis guionistas numa sala , mais a secretária Sarah, dentro e fora, afadigada com pedidos para os almoços, telefonemas, etc. O que realmente interessa é que ninguém sabe o que é esperado de si, o que interessa é que todos querem agradar a Sandy e mostrarem-se à altura da confiança desse reputado autor, o que interessa é que Sandy lhes pode pedir a partilha de histórias íntimas sem que ninguém o ponha em causa, o que interessa é que nesta sala há uma exploração emocional quase sem limites, o que interessa é alimentar uma qualquer cadeia de produção de conteúdos que. neste caso, vampiriza uma das mais inocentes e autênticas criações humanas , as histórias. Os Antípodas é uma peça da dramaturga norte-americana Annie Baker, escrita em 2017 (três anos depois de ter recebido O Pulitzer por O Cinema), e foi um dos vários textos que Os Possessos leram numa noite em que tentavam descobrir projectos para a sua actividade futura. João Pedro Mamede tinha comprado o texto em Nova Iorque, os cinco elementos do núcleo duro leram-no em inglês e aquilo que primeiro ressoou no grupo não foram tanto as questões laborais levantadas pela autora. “Aquilo a que achámos piada foi estarmos a fazer um género de americanos e a percebermos essa coisa que nós, portugueses, temos tanto em comum com o povo americano”, conta Mamede ao ípsilon. Hesita na forma como deve colocar a conclusão dessa noite: “Não quero ofender ninguém, mas há uma certa superficialidade nestas personagens que nós abraçámos.” A superficialidade a que se refere Mamede, que assina a encenação da peça em cena no Teatro do Bairro Alto (TBA), Lisboa, de 7 a 16 de Maio, éa de uma certa “máscara ou persona social” que identifica muito õnos Estados Unidos, um jogo de convenções e artificialidade assumido como se-gunda pele. Mas o jogo de Os Antípodas é também , ou sobretudo o da cultura empresarial norte-americana (e exportada para todo o mundo). Neste mundo, em que há sempre um CEO como sombra ameaçadora e invisível a exigir resultados, Sandy espreme o mais que pode a sua equipa e não desfaz o seu sorriso na videochamada (cheia de interferências) com o seu chefe directo. Ninguém sabe o que está a fazer, mas todos sabem que resultado devem produzir para se manterem peças úteis à máquina. E, numa estranha história contada por Sandy que soa a ameaça, ficam também a saber que uma antiga guionista que denunciou um ambiente hostil num projecto anterior talvez não tenha acabado da melhor maneira. Embora não haja nada de gritante em OS Antípodas, para o encenador, esta é uma peça atravessada por abusos laborais e que atrai na medida em que “contém em si coisas muito desagradáveis”. “Vai havendo abusos e todos os vamos engolindo ao longo da peça, uma série de coisas que se tornam dinâmicas e a forma como este sítio funciona. Depois, dá-nos algum gozo descobrir personagens meio abjectas , no caso, estes homens ,, e há com frequência ensaios em que descobrimos o quão terríveis são algumas falas ou alguns momentos”, conta. “é uma peça sobretudo desagradável. E depois tem uma certa melancolia nas personagens. que é importante e pode tornar tudo mais cómico.” Uma comicidade sempre enviesada, estranha, incómoda, num microuniverso masculino, em que a fanfarronice impera e a fragilidade tem pouco espaço para existir , a existir, será convidada a sair. “Dentro da obra da Annie Baker, esta peça é absolutamente desigual e algo abstracta. Caótica, desconfortável = até em demasia.” Embora possa não parecer, são só elogios. Em xeque No seu discurso de primeiro dia, numa mistura entre boas-vindas e prelecção motivacional, Sandy (João Pedro Vaz) apresenta-se como “um chefe mesmo querido”. Daqueles que não despedem pessoas , “a não ser que sejam uns absolutos cretinos”, apressa-se a acrescentar. Ninguém trabalha depois das sete nem aos finsde-semana. “E não preciso que me venham com merdas inteligentes a toda a hora ou que tenham a ideia mais brilhante do mundo”, diz. “Quer dizer, se a tiverem, é óptimo, mas o mais importante é que toda a gente se sinta à vontade para dizer qualquer merda marada que vos venha à cabeça.” Assim mesmo, sem vírgulas, que as falas nesta writers room não têm tempo a perder. “Não temos um tusto, 0 estômago mia, estamos gelados, mas que sa foda. Temos 20 anos e futuro nenhum” Gilles Bertin Trinta Anos a Monte - A Minha Vida Punk Gilles Bertin Chili com Carne H Gilles Bertin fez parte de uma banda punk francesa, OS Camera Silens 0 assalto de Gilles Bertin e companhia "financiou a cultura musical de uma geração em Lisboa. Esse arco é uma coisa inacreditável” José Smith Vargas A edição portuguesa do livro de Gilles Bertin inclui uma BD de José Smith Vargas sobre a Torpedo e seus acólitos. Em baixo, Gilles na loja de discos lisboeta Mário Lopes