pressmedia logo

CITROËN QUER RESSUSCITAR O 2CV POR MENOS DE 15 MIL EUROS

LusoMotores Online

2026-05-04 21:09:18

Num mercado europeu onde os automóveis novos se tornaram cada vez mais inacessíveis, a Citroën prepara uma verdadeira revolução. A marca francesa confirmou o desenvolvimento de um novo citadino 100% elétrico com um preço abaixo dos 15 mil euros, resgatando o espírito e a filosofia do lendário 2CV , modelo que, entre 1948 e 1990, democratizou a mobilidade no Velho Continente. A promessa do construtor francês é devolver “poder de compra a quem hoje não está disposto a adquirir carros novos”, nas palavras do CEO da marca, Xavier Chardon. A apresentação oficial deverá ocorrer sob a forma de protótipo no Salão Automóvel de Paris, em outubro deste ano, com a versão de produção a chegar ao mercado em 2028. Um regresso anunciado pela necessidade do mercado A decisão da Citroën não surge por acaso. Os números do mercado europeu são preocupantes: em 2019, vendiam-se cerca de um milhão de veículos novos com preços inferiores a 15 mil euros; em 2024, esse número caiu drasticamente para apenas 90 mil unidades. “O mercado europeu é o único que não recuperou após a Covid. Os Estados Unidos recuperaram, a China cresceu, a América do Sul também recuperou e ainda nos faltam três milhões de pessoas a comprar carros novos todos os anos na Europa”, explicou Xavier Chardon à revista britânica Autocar. Para o CEO da Citroën, “cerca de 60% desse défice é motivado pelo simples facto de já não existirem carros abaixo dos 15 mil euros”. Este diagnóstico tem consequências visíveis no parque automóvel europeu, cuja idade média já ultrapassa os 12 anos , mais dois anos do que há meia década. A estratégia da Citroën passa por inverter esta tendência, oferecendo um veículo que recupera a missão original do 2CV: proporcionar mobilidade acessível às massas. Pierre Leclercq, diretor de design da marca, sintetiza a ambição: “Se pensarmos num 2CV, um carro económico para as pessoas, é fundamental manter a sua filosofia e os seus valores. Se os pudermos reinterpretar num automóvel atual, fá-lo-emos”. Enquanto isso, a Renault colhe os frutos da moda neo-retro com o R5 E-Tech, que já ultrapassou as 120 mil unidades matriculadas na Europa, provando que há mercado para elétricos com alma e história. Plataforma inteligente e rivalidade anunciada Tecnicamente, o futuro 2CV assenta na plataforma de baixo custo “Smart Car”, desenvolvida pelo grupo Stellantis e já utilizada em modelos como o Citroën ë-C3 e o Fiat Grande Panda. Esta arquitetura permite reduzir custos de produção sem comprometer a qualidade e a segurança. O novo modelo será mais pequeno que o ë-C3 (que parte dos 17.100 euros), posicionando-se como um sucessor indireto do antigo Citroën C1 térmico e um rival direto do futuro Renault Twingo Elétrico. As especificações técnicas apontam para um motor com cerca de 80 CV e uma bateria LFP (fosfato de lítio e ferro) de aproximadamente 27,5 kWh, capaz de oferecer uma autonomia na ordem dos 260 quilómetros. O objetivo não é a performance, mas sim a eficiência e a acessibilidade, num veículo concebido principalmente para o ambiente urbano. As suspensões, elemento icónico do 2CV original, deverão ser adaptadas à realidade contemporânea, muito provavelmente abdicando das complexas soluções hidráulicas originais para manter o preço controlado. A própria União Europeia está a criar condições para o sucesso deste tipo de veículos com a nova categoria M1E, que concede “super-créditos” de emissões aos fabricantes , cada elétrico deste segmento conta como 1,3 veículos para efeitos de cálculo da média de emissões. As recuperações históricas e os ajustes ao século XXI A aposta da Citroën insere-se numa tendência mais ampla da indústria automóvel. Nos últimos anos, assistimos a uma vaga de renascimentos de modelos icónicos: o Fiat 500 (2007), o Mini (2000), o Renault 5, o Renault 4, o Ford Capri e o Fiat 600 são apenas alguns exemplos de como os construtores olham para os seus espelhos retrovisores em busca de inspiração e rentabilidade. A moda neo-retro, outrora recusada pela própria Citroën , que em 2019 afirmava não querer ser “um fabricante de automóveis retro ” , acabou por se impor como uma estratégia comercial de sucesso. No entanto, a Citroën sublinha que não se trata apenas de nostalgia. O novo 2CV não será uma réplica moderna do modelo original, mas antes uma reinterpretação do seu propósito fundamental. Adaptando o famoso caderno de encargos original , que exigia transportar “quatro agricultores e 50 kg de batatas” ,, a marca propõe uma versão atualizada: “Podemos substituir o agricultor por uma enfermeira”, ironizou Pierre Leclercq, sugerindo um veículo direcionado para os jovens profissionais urbanos. Esta flexibilidade conceptual permite honrar a herança do modelo sem cair no mero revivalismo estético. O desafio é, contudo, considerável. A eletrificação impõe custos que os velhos motores de dois cilindros e 375 cc não conheciam. Manter o preço abaixo dos 15 mil euros será um exercício de rigorosa engenharia financeira, que poderá passar pela integração de tecnologias da Leapmotor (marca do grupo Stellantis especializada em soluções de baixo custo) e pela produção em volume na Europa. A Citroën parece, porém, determinada em honrar o compromisso, consciente de que está em jogo não apenas um novo modelo, mas a própria relevância da marca num mercado cada vez mais polarizado entre o low-cost e o premium. J.R. / LusoMotores Jorge Reis