OS DOIS ERROS DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
2026-05-04 21:09:18

Depois da banalização da palavra de Marcelo, arriscamo-nos a ter em Belém um sucessor que se auto-impõe cargas de trabalhos impossíveis de concretizar e que entram na esfera do Governo. Agora que já toda a gente percebeu que não vai existir pacote laboral, comenta-se por aí que “Seguro se livrou de um problema”. O dito “problema” era vetar, cumprindo a promessa da campanha eleitoral de não deixar passar as leis laborais sem aprovação da UGT. Ou então, não vetar, como várias notícias sobre a incerteza do veto admitiram ser possível. Sendo que era politicamente insustentável para Seguro não vetar sem o acordo da UGT, resta saber o que passou pela cabeça do Presidente quando quis que se soubesse que o veto, naquelas condições, já não era óbvio. Deliberadamente, Seguro quis introduzir na opinião pública dúvidas sobre a sua decisão final, sem que o alcance dessa estratégia consiga ser percebido. A insistência do Presidente em chamar a si o “diálogo” e convocar para Belém os parceiros são coisas mais ou menos anódinas e dali não vem mal ao mundo. Agora, não lembra ao diabo vir dizer (ou passar a mensagem aos jornalistas de uma forma discreta) que o veto poderia não acontecer, mesmo com a oposição da UGT. Objectivamente, para quem votou em Seguro na primeira volta por, entre outras coisas, ter dito que não deixava passar o pacote laboral se não houvesse acordo com a UGT, essa mensagem a introduzir dúvidas foi incompreensível. Além de dinamitar uma promessa de campanha, Seguro começou a dinamitar a sua imagem numa ala do espectro político que tinha reconquistado e contribuiu para a sua eleição como Presidente da República. António Galamba, amigo íntimo e homem da confiança máxima do Presidente da República, veio fazer o controlo de danos num artigo no Observador, reconduzindo as coisas ao sítio de onde nunca deveriam ter saído. “Sobre o compromisso de veto assumido por Seguro, importa lembrar o que foi público, explícito e prévio à eleição. Os eleitores votaram conhecendo-o e cumpri-lo é fidelidade ao mandato, não capricho”, escreveu Galamba. É isto mesmo. Incompreensível foi o facto de o Presidente da República ter alimentado as notícias de que o veto não estava adquirido e, de caminho, ter promovido “sensações” sobre a hipótese da sua eventual incoerência. Se Marcelo desvalorizou o poder da palavra, Seguro arrisca-se a desvalorizar o poder da acção presidencial Outro erro de Seguro é a nomeação de Adalberto Campos Fernandes como um quase segundo ministro da Saúde, com equipa e tudo, para pôr em prática o famoso pacto para a Saúde. Esse pacto já existe desde que António Arnaut criou o Serviço Nacional de Saúde. Os governos PSD não o destruíram e, com mais ou menos PPP, o consenso sobre o SNS dura. O problema do SNS é do foro governativo e da Assembleia da República e o pacote de exigências que, nesta questão, o Presidente se autopropôs extravasa bastante os poderes presidenciais. Seguro, numa demarcação evidente de Marcelo, prometeu-nos que “a palavra do Presidente conta”. Mas, depois das vertiginosas declarações de Marcelo, arriscamo-nos a ter em Belém um sucessor que se auto-impõe cargas de trabalhos impossíveis de concretizar e que entram na esfera de responsabilidade do Governo. Se Marcelo desvalorizou o poder da palavra, Seguro arrisca-se a desvalorizar o poder da acção presidencial. A escolha de Adalberto Campos Fernandes para líder do “pacto da saúde” é duvidosa. É alienar de imediato o PS, como escreveu na sexta-feira o Expresso. Desde que saiu de ministro de Costa, Adalberto foi um grande crítico dos governos PS, a quem acusou inclusive de terem gerido mal a pandemia de covid-19. “É um mito urbano a ideia de que Portugal geriu extraordinariamente bem a pandemia”, disse a 6 de Março de 2023 ao Observador. Adalberto é próximo da ministra da Saúde, a “governamentalização” pode ser tolerada pela tutela, mas tudo ameaça acabar num molho de brócolos. Mariana Vieira da Silva, a socialista indicada pelo PS, não vê razões para a existência do pacto. Há também que “pactuar” com o Chega. Na verdade, o Presidente não escolheu um seu apoiante de primeira hora. Não deixa de ser engraçado lembrar que já Seguro tinha a campanha na rua e Campos Fernandes continuava a achar que Mário Centeno dava um muito melhor Presidente. Aliás, os apoiantes de primeira hora de Seguro, Francisco Assis ou Álvaro Beleza, não foram chamados a nada. Falta saber se, daqui a um ano, existe algum “pacto” para apresentar. O Presidente avançou por um caminho desnecessário. tp.ocilbup@sepol.as.ana Ana Sá Lopes