MANUEL AMOEDO: A PREVENÇÃO É A CHAVE PARA INVERTER A EPIDEMIA SILENCIOSA DA DOENÇA RENAL
2026-05-04 21:09:18

05/02/2026 HealthNews (HN) , Qual é a sua opinião sobre a criação de um Dia Nacional da Diálise e que impacto real acredita que esta data pode ter na sensibilização da sociedade portuguesa para a doença renal crónica? Manuel Amoedo (MA) , É muito importante a criação de um Dia Nacional de Diálise para que a sociedade portuguesa aumente o seu conhecimento acerca da doença renal e sobre a diálise - terapêutica que substitui os rins quando estes deixam de funcionar. Em 2025, realizámos um estudo que mostrou que a maioria da população portuguesa desconhece a doença renal crónica e a diálise. Esperamos que, com a criação do Dia Nacional da Diálise, esta realidade mude. HN , Vivemos com a realidade de cerca de um milhão de portugueses com doença renal crónica e mais de 13 mil a fazer diálise. O que é que estes números nos dizem sobre o estado da saúde renal no país e porque é que esta é considerada uma “epidemia silenciosa”? MA , Estamos a falar de cerca de 1,2% da população que faz diálise. Em termos numéricos é uma percentagem pequena, mas consome recursos elevados, cerca de 2,5% do orçamento do SNS, tendo apenas em consideração custos da diálise e transportes. A prevenção é o factor-chave, o que nos compele a tentar disseminar o conhecimento acerca desta doença junto da população chamando à atenção para as duas principais causas de doença renal que são a diabetes e a hipertensão arterial, como se pode verificar no registo da doença renal crónica da Sociedade Portuguesa de Nefrologia. É esperado que, em 2040, a Doença Renal Crónica seja a 5ª maior causa de morte a nível mundial. Está nas nossas mãos fazer com que esta previsão não se concretize em Portugal. HN , Porque é que a doença renal crónica continua a ser diagnosticada tão tardiamente, quando bastariam análises simples de sangue e urina para a detetar precocemente? O que falha no sistema de saúde e na literacia da população? MA , É uma doença silenciosa que não causa sintomas na sua fase inicial. Está a fazer-se um grande esforço para se detectar mais precocemente a doença renal que afecta, em particular, a população mais desfavorecida que é que tem maior dificuldade no acesso a cuidados de saúde. Como é do conhecimento de todos, temos uma percentagem importante de doentes sem médico-família o que contribui para o diagnóstico tardio da doença renal a que se soma baixa literacia em saúde da população portuguesa. HN , Sendo a diabetes e a hipertensão as principais causas da insuficiência renal, até que ponto o controlo destas doenças crónicas poderia travar a necessidade de chegar à diálise? Há esperança de inverter esta tendência? MA , O registo de diálise crónica da Sociedade Portuguesa de Nefrologia mostra que a hipertensão e a diabetes são a causa de diálise em quase 40% dos doentes. O adequado controlo da hipertensão e da diabetes pode diminuir ou protelar a necessidade de diálise. Os números mais recentes divulgados pela Sociedade Portuguesa de Nefrologia apontam para uma ligeira redução do número de doentes que iniciaram diálise em 2025 vs 2024. Acreditamos que a prevenção e a literacia estão na base desta alteração, mas este é apenas um primeiro sinal. Temos que insistir na tendência. HN , Para além do impacto físico, a diálise representa uma enorme sobrecarga psicológica e social. Como descreve o dia a dia de um doente que vive dependente deste tratamento e o que ainda pode ser feito para melhorar a sua qualidade de vida? MA , Qualquer modalidade de diálise , Hemodiálise ou Diálise Peritoneal , interfere com a qualidade de vida dos doentes porque estamos perante uma doença crónica e um tratamento que é a linha da vida para o doente. É desgastante fisicamente e torna o doente dependente de uma terapêutica para sobreviver o que causa elevado impacto psicológico e afecta também a família. O doente que faz hemodiálise tem de se deslocar, em média 3 vezes por semana, a uma Unidade de Diálise para fazer o seu tratamento, que dura, em regra, 4 horas. Além do tempo de tratamento, é necessário ter em consideração o tempo de ida e regresso ao seu domicílio e o tempo de espera por outros doentes (por uma questão de gestão de transportes os doentes são agrupados, sempre que possível, no mesmo transporte). Os doentes que vivem em zonas mais isoladas são particularmente atingidos porque, nas circunstâncias actuais, não é possível ter Unidades de Diálise em zonas remotas por falta de recursos humanos e inviabilidade económica para os prestadores. A Diálise Peritoneal, tal como a hemodiálise domiciliária, permite que o doente faça o tratamento em sua casa. Com excepção dos países nórdicos, em Portugal e no resto da Europa a percentagem de doentes em tratamento domiciliário representa menos de 10% da população em diálise. Falando concretamente de Portugal é importante realçar que a população em diálise é cada vez mais idosa e frágil com elevada comorbilidade, tem baixo status socioecónomico e deficit de literacia em saúde. Estes são alguns dos factores que contribuem para a baixa prevalência de doentes em diálise domiciliária entre nós. O sistema de pagamento da diálise também não diferencia se o doente faz diálise em casa ou em Unidade de Diálise, será que os custos são os mesmos? A família, como já referi antes, é um apoio importante, mas não nos podemos esquecer que o cuidado de um doente em diálise domiciliária é continuo o que provoca burn-out do cuidador em pouco tempo. Não temos ainda a diálise assistida que será a melhor maneira de se conseguir aumentar o número de doentes a fazer terapêutica no domicílio. Talvez se possa realocar os gastos nos transportes e integrá-los no pagamento dos cuidadores. HN , A OMS alerta que, sem prevenção, a doença renal crónica poderá ser a quinta principal causa de morte no mundo em 2040. Este cenário é reversível e qual o papel de uma data como o Dia Nacional da Diálise nesse combate? MA , A doença renal crónica vai ser efectivamente a quinta causa de morte ultrapassando algumas doenças neoplásicas. A prevenção é a melhor solução para tentar minimizar este cenário. O dia nacional de Diálise é uma forma de chamar à atenção da doença renal crónica porque se vai falar das principais causas de doença renal e de que maneira se podem controlar para diminuir o número de doentes em diálise. HN , Se este dia for instituído, o que gostava que ficasse na memória das pessoas? Qual deve ser a principal mensagem para quem ainda desconhece o impacto real da doença renal e da diálise em Portugal? MA , Gostaria que as pessoas tivessem um maior conhecimento sobre a doença renal e do impacto económico e social que acarreta. Essencialmente parece-me que será uma excelente oportunidade para falar sobre as causas mais frequentes de doença renal crónica - diabetes e hipertensão - reforçando a mensagem que a prevenção é fundamental para diminuir o número de doentes em diálise e também a mortalidade associada à doença renal crónica. Outros conteúdos na revista HealthNews aqui Em entrevista, o médico nefrologista Manuel Amoedo sublinha a importância do Dia Nacional da Diálise para aumentar a literacia em saúde em Portugal. O especialista alerta para o peso silencioso da doença renal crónica, que afeta cerca de um milhão de portugueses, e defende que a prevenção, aliada ao controlo da diabetes e hipertensão, é o caminho para travar o avanço da doença e reduzir o número de doentes em diálise.