CARPE DIEM - SARAMAGO, SEMPRE!
2026-05-05 21:02:38

O assunto sobre o qual hoje reflito neste texto torna-se, só pela necessidade, pelo facto de o tratar, já algo ridículo. A obra saramaguiana dispensa apresentações e, como outras, precisou da validação e valoração do estrangeiro para obter o merecido reconhecimento nacional. De facto, somos pobres, como já lamentava o nosso Poeta (o grande génio Camões), em talento, em esforço, em perseverança, mas, sobretudo, somos um povo pobre de espírito, com carácter invejoso e persecutório. Este talvez justificado pelos longos anos de ditadura ou, no sentido contrário, estes longos anos é que talvez se justifiquem pelo tal carácter deste povo. Na peça Felizmente há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, o título surge na peça primeiro nas palavras do opressor, congratulandose de o castigo aplicado pela calada da noite ser, na sua ótica, felizmente, visível, funcionando como admoestação para os restantes resistentes e como lição dada a estes. No final da peça, estas mesmas palavras surgem também como consequência de uma tragédia, do castigo, injusto e penalizador, mas ditas por um oprimido, como uma espécie de consolação no meio da desgraça, pois, pelo menos, o luar permitiria ao povo ver o castigo, a injustiça praticada e abriria portas para o espírito rebelado contra a injustiça e a ditadura opressora. Deixando uma réstia de esperança. O contexto retratado nesta obra é marcante e tratase de uma época negra, infelizmente uma das, em que Portugal também se viu mergulhado na ditadura despótica de repressão e censura , a conspiração de Gomes Freire de Andrade contra o domínio inglês, na primeira metade do século XIX, alegoria à ditadura salazarista, contemporânea da escrita, apresentando questões universais sobre liberdade, poder, coragem e resistência. Quem passar nas imediações do labiríntico e degradado Hospital dos Capuchos, poderá sentar-se num dos bancos do jardim repleto de galináceos e outras aves e ver a tímida placa que resta na memória do nosso povo do General Gomes Freire de Andrade. Ora, temos espírito persecutório e memória curta, portanto Voltando a Saramago. Único Prémio Nobel da literatura portuguesa. Impedido, inicialmente, na candidatura ao Prémio Nobel que, posteriormente, viria, de forma tão justa, a ganhar, com o argumento de que a sua obra não era representativa da mentalidade vigente do povo (da norma, portanto). Quem percebesse do que falava acerca do assunto saberia que não poderia servir-se de tal argumento, pois justificava precisamente a candidatura. Tamanha ignorância e incompetência só se explica com a cegueira do tal espírito persecutório, sobretudo porque, nessa altura, vinha do líder político máximo da nação. Erradamente, perseguia-se a obra pelo homem. Volvidos anos da alteração da obrigatoriedade do Memorial do Convento em alternativa com o romance O Ano da Morte de Ricardo Reis que, logo por si, foi um erro crasso, pois apesar de serem ambos romances saramaguianos, no primeiro, como dizia um crítico literário célebre, “Está lá tudo!”. Além disso, deixar a opção ao docente pode parecer, à primeira vista, “democrático” e conferindo confiança e autonomia, mas quem percebe do assunto sabe que se trata de dividir por dois as possibilidades de investimento na leitura, no estudo, na reflexão, por parte dos alunos e de aparecer no exame nacional de 12º ano. Eis que o assunto regressa. Agora, a alternativa é tratar ou não as obras do autor. Ou seja, achou-se que era o momento, a conjuntura perfeita, para retirar o colosso da nossa literatura dos programas. E pergunto eu: os três contextos referidos o que têm em comum? Elementar, meu caro. Como não acredito no Pai Natal, nas renas voadoras, no trenó e afins, não posso deixar de verificar os factos: nestas ocasiões, a cor governante é sempre a mesma. “Verdades são verdades”, como dizia Saramago. Critérios? Persegue-se a obra pelo que foi o autor, o homem e as suas opções políticas. Mesmo após a morte do autor, a perseguição continua. Se já não pode ser feita ao homem autoexilado numa ilha, fazem-na ao que dele restou , a obra. Pensar é suspeito e indesejável. Ao aluno não se deve pedir espírito crítico. As ideias são perigosas. Cada ditadura queima os seus livros Por isso, o título desta crónica que iniciou com o lamento por a obra de Saramago estar, de novo, na berlinda, no tocante aos programas, agora termina como afirmação e apologia: “Saramago, sempre!” Recordo a minha pergunta de há muitos anos a alguém que dizia detestar a obra deste autor: “Que livro leste que detestas assim tanto?” e a resposta risível: “Comecei o Memorial, não entendi, deixei.” Ora aqui temos o ponto da questão. Fixem: Saramago brinca com as regras da pontuação, coloca a regra em causa, mas cria uma regra alternativa. Depois de a entender, em cinco minutos, domina-a e entra no jogo. Prende-se a ele. Se lhe der tempo, vai descobrir a originalidade dos temas, a ironia fina e inteligente, tão atual, a crítica reflexiva Ah, pois, mas refletir lá está não é conveniente para tanta gente! * Professora Anabela Ferreira