O PROBLEMA DO SNS NÃO É DE PROFICIÊNCIA, É DE ATITUDE
2026-05-05 21:02:40

Nuno Simões Enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação e em Enfermagem Médico-Cirúrgica O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem sido, nas últimas décadas, o coração da política social portuguesa. Contudo, esse coração parece sofrer de arritmias crónicas que nem as reformas sucessivas conseguem estabilizar. Em 2026, discute-se novamente o futuro do SNS, e o argumento mais recorrente é o da fal-ta de proficiência dos administradores hospitalares ou gestores em saúde. Será, porém, esta a verdadeira causa da crise estrutural que atravessamos? Ou estaremos perante um problema mais profundo o da atitude e da responsabilidade coletiva que perpassa desde a tutela até ao profissional que está na linha da frente? A gestão em saúde implica muito mais do que a aplicação de conhecimento técnico e de boas práticas de administração pública. Implica, sobretudo, uma cultura organizacional orientada para a excelência e para o serviço público. A literatura sobre sistemas de saúde indica que os países com melhores resultados não são necessariamente os que têm mais gestores tecnicamen-te competentes, mas os que cultivam equipas com sentido de missão e prestação de contas em todos os níveis da hierarquia. A atual narrativa que responsabiliza os administradores hospitalares ou gestores em saúde pela insuficiência de resultados no SNS revela uma tendência perigosa: a de transferir a culpa de baixo para cima (bottom-up), em vez de reconhecer a falha de liderança de cima para baixo (top-down). Quando uma unidade local de saúde não atinge os indicadores assistenciais previstos, o problema é normalmente e erradamente diagnosticado como incompetência local , e não como a consequência de políticas erráticas, ausência de investimento estratégico, ou fragilidade da governação em rede. Em paralelo, nas equipas multiprofissionais e transdisciplinares, quando os fluxos clínicos e os percursos assistenciais integrados se fragmentam, culpar os profissionais torna-se a solução fácil, ignorando a complexidade sistémica das decisões que a tutela impõe. Não é a falta de proficiência que afeta o SNS, mas sim a atitude perante a ex-celência. A gestão em saúde deveria ser entendida como uma prática ética, centrada na pessoa, no cidadão, onde a responsabilidade é bidirecional: da tutela para os profissionais da saúde e dos profissionais da saúde para a tutela. No entanto, persiste o distanciamento entre níveis hierárquicos , um verdadeiro Olimpo da Saúde onde relatórios e denúncias sobem, mas poucos ecos encontram nas decisões políticas e jurídicas dentro do Sistema da Saúde. Por isso, urge achatar o organograma da saúde. A simplificação dos níveis decisórios e a coordenação efetiva entre tutela, direção executiva do SNS, conselhos de administração, dirigentes intermédios e equipas clínicas poderia restaurar a confiança e a agilidade que o SNS hoje perdeu. Nuno Simões