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PEDRO ROSADO

Revista Pós

2026-05-05 21:03:16

A questão já não é se os elétricos vão criar pós-venda. É quem vai estar preparado para esse pós-venda PEDRO ROSADO, CEO EVA NETWORK A reparação e manutenção de veículos eletrificados continua a ser uma área vista por muitas oficinas como um território complexo, caro e reservado a poucos. Para Pedro Rosado, CEO da EVA Network, essa leitura está errada e a rentabilidade até surge muito rapidamente. Criada em 2019, a EVA (Electric Vehicle Assistance) tem vindo a afrmar-se como um conceito diferenciador no pós-venda automóvel, combinando rede ofcinal especializada em veículos eletrifcados, formação certifcada, reparação avançada de baterias, soluções para colisão em elétricos, equipamentos e até áreas como carregamento e extensões de garantia. Em entrevista à Revista Pós-Venda, Pedro Rosado fala da evolução da rede, do negócio da reparação de elétricos, da consultoriaeformaçãoedeixaumavisoàsofcinas que continuam a olhar para esta área como algo distante: “mais cedo ou mais tarde, todas vão ter de lidar com isto”. Quem é Pedro Rosado e como surge o seu percurso no pós-venda automóvel? O meu percurso profssional começou em meados de 2004 e sempre teve uma ligação forte entre tecnologia, gestão e setor automóvel. Tenho formação em informática de gestão, mas também uma base técnica ligada à mecânica e à óleo-hidráulica, o que me deu desde cedo uma visão muito abrangente do setor. Sempre fui apaixonado pelo aftermarket automóvel e, ao longo dos anos, especializei-me sobretudo na criação e desenvolvimento de modelos corporativos e redes de negócio, muito assentes em tecnologia, inovação e criação de valor para os operadores independentes. Diria que a minha carreira foi muito construída em torno dessa lógica de antecipar tendências. Mais do que acompanhar o mercado, sempre tentei perceber para onde ele vai e chegar um pouco antes. Esse posicionamento foi, aliás, determinante para o aparecimento da EVA. Acreditámos cedo que a eletrifcação iria transformar profundamente o pós-venda e que haveria necessidade de criar um conceito especializado, estruturado e tecnicamente sólido para responder a essa evolução. Foi dessa visão que nasceu a EVA Network. No fundo, o meu percurso acaba por resultar da combinação entre paixão pelo setor, experiência na gestão de redes e essa vontade constante de desenvolver modelos de negócio diferenciadores, assentes em inovação e em antecipação do mercado. Um dos projetos mais visíveis da empresa é precisamente a EVA Network. Em que consiste esta rede? A EVA Network é, no essencial, uma rede especializada exclusivamente em veículos eletrifcados, mas é mais do que isso: é um conceito completo, estruturado como um modelo “chave-na-mão”, pensado para permitir que uma ofcina entre neste negócio de forma profssional, segura e tecnicamente preparada. Costumo dizer que há duas formas de entrar na reparação de elétricos: de forma improvisada ou de forma estruturada. Nós optámos claramente pela segunda. Estamos a falar de uma atividade com risco associado, que exige procedimentos, equipamentos, conhecimento e elevada especialização. Não é uma área para curiosos. A rede foi desenhada precisamente para dar resposta a essa exigência. Quem adere tem acesso a um pacote completo que vai muito além da formação. Inclui competências técnicas, equipamentos específcos, ferramentas de segurança, consumíveis, apoio técnico, soluções para reparação de baterias, componentes eletrónicos, processos e até a própria organização do espaço ofcinal dedicada aos eletrifcados. No fundo, cobrimos todo o ecossistema necessário para operar nesta área de A a Z. Porque entende que é um conceito diferenciador? Porque dá às ofcinas a capacidade de atuar em reparações altamente especializadas, incluindo áreas onde, em muitos casos, nem os próprios concessionários têm solução. Um exemplo claro é a reparação de baterias, onde dispomos de soluções para intervenção ao nível de células, módulos e componentes eletrónicos, evitando muitas vezes substituições integrais extremamente dispendiosas. No caso de algumas marcas, como a Tesla, temos inclusive competências para operações que normalmente não existem fora de contextos muito especializados, como substituição de células individuais em vez da troca de módulos completos - o que pode representar uma diferença muito signifcativa em custo e viabilidade económica da reparação. Essa lógica estende-se também à eletrónica, onde muitas vezes é possível reparar componentes em vez de substituir conjuntos completos, algo especialmente relevante em veículos elétricos, onde determinados módulos têm custos muito elevados. A EVA posiciona-se precisamente nesse espaço, uma rede especializada que procura cobrir praticamente todo o universo dos veículos eletrifcados, da manutenção à reparação avançada. Trata-se de um conceito multimarca? Temos soluções e material de reposição para um conjunto muito alargado de marcas, desde BMW, Mercedes-Benz, Audi e Hyundai, até fabricantes mais recentes, incluindo marcas chinesas e novas tecnologias de baterias como as Blade. A ambição sempre foi essa: não ser apenas uma rede ofcinal para elétricos, mas uma plataforma técnica especializada preparada para responder à quase totalidade das necessidades que o mercado eletrifcado exige e vai exigir. O EVA Box, dentro da ofcina, acaba por ser o espaço ofcinal dedicado aos eletrifcados? Sim, a materialização do conceito acontece também através da EVA Box. Mais do que um espaço identifcado, trata-se de uma baía de serviço dedicada aos eletrifcados. Quando equipada com capacidade laboratorial, evolui para laboratório completo. Esta lógica de zonas dedicadas traduz bem a flosofa da rede, que passa precisamente por criar ambientes preparados para trabalhar estas tecnologias com critérios próprios. Para as ofcinas que já tenham um espaço para os eletrifcados, onde pode entrar o vosso conceito? Outra evolução do nosso conceito é a URB (Unidade de Reparação de Baterias). Foi pensada para ofcinas que já dispõem de parte da infraestrutura, nomeadamente concessionários ou estruturas independentes com forte base técnica, sendo uma solução que se con-centra em equipamentos e formação para reparação de baterias. Evita que as ofcinas dupliquem o investimento e acaba por ser uma proposta particularmente interessante para um mercado onde a reparação de baterias tende a ganhar peso estratégico nos próximos anos. Um dos pilares do projeto é a formação certifcada... Sem dúvida. A formação é um dos grandes pilares diferenciadores do projeto e, mais do que isso, é uma das razões pelas quais procurámos construir uma distância técnica relevante face ao mercado. O objetivo nunca foi apenas acompanhar o que existe, mas antecipar o que vem a seguir. Nesse sentido criámos a EVA Academy, uma academia própria de formação, integrada no conceito da rede e pensada para suportar diferentes níveis de especialização. Atualmente trabalhamos seis níveis de formação, algo pouco comum no mercado. Os aderentes da rede têm acesso até ao nível 4, que cobre desde os requisitos legais e operacionais até diagnóstico avançado. O nível 3, por exemplo, é já obrigatório por lei para determinadas intervenções e é também nesse âmbito que emitimos certifcação profssional. O nível 4 entra numa componente muito forte de diagnóstico e localização de avarias, algo absolutamente crítico nesta área. Depois existem os níveis 5 e 6, que já entram num patamar muito mais avançado. O nível 5 é focado em eletrónica e reparação de componentes, enquanto o nível 6 entra em engenharia inversa, um domínio altamente especializado, com investimentos que podem facilmente situar-se entre os 200 mil e os 400 mil euros em laboratório e equipamentos. Esses níveis mais avançados não são pensados para a generalidade das ofcinas, mas demonstram até onde pode ir a especialização neste setor. Ofcinas independentes fora da rede podem aceder a esse conhecimento? Durante os primeiros seis anos fomos totalmente exclusivos para os aderentes da rede EVA. O foco era consolidar o projeto, proteger o know-how e criar massa crítica dentro da rede. Mais recentemente começámos a abrir algumas valências a operadores externos que estão a dar os primeiros passos nesta área e precisam de equipamentos, formação ou acesso a determinadas soluções técnicas. Porém, o verdadeiro ecossistema completo está dentro da rede. Quem está fora pode aceder a algumas ferramentas, equipamentos ou suporte, mas os centros EVA têm sempre um nível superior de acesso e capacidade. A empresa também comercializa equipamentos especializados para esta área. Isso é outra vertente importante do projeto? Não faria sentido falar de especialização sem falar de equipamentos. Representamos algumas das marcas mais avançadas em instrumen-tação e tecnologia para reparação de baterias e eletrónica, o que nos permite colocar no mercado soluções que muitas ofcinas difcilmente conseguiriam estruturar sozinhas. Para os aderentes da rede isso surge integrado em pacotes completos. Para operadores externos pode haver acesso a soluções mais avulsas, numa lógica de entrada gradual, para mais tarde integrarem a rede. Aliás, achamos que não faz muito sentido vender apenas o equipamento, pois o nosso objetivo é integrar esses equipamentos num conceito técnico, com formação, processos, suporte laboratorial e acesso a componentes específcos. Aliás, em determinadas áreas, como reparação de baterias de modelos como o BMW i3, dispomos de soluções e componentes que não disponibilizamos fora da rede, precisamente para garantir essa diferenciação competitiva. No fundo, o posicionamento da EVA é esse e passa por não vender apenas máquinas ou formação, mas criar um verdadeiro ecossistema técnico especializado para o pós-venda dos eletrifcados. A rede tem seis anos de atividade. Que balanço faz desta evolução e em que ponto está hoje o projeto? Começámos em 2019 e, olhando para o percurso feito, a principal conclusão é que havia espaço para um conceito especializado como este e que esse espaço continua praticamente sem concorrência direta estruturada. Hoje podemos dizer que a EVA Network ocupa uma posição muito diferenciada, não só em Portugal, mas também num contexto europeu onde existem poucos conceitos verdadeiramente especializados nesta área. Há operadores que começaram a olhar para os eletrifcados, há grupos que começam a criar propostas nesse sentido, mas redes construídas exclusivamente para este segmento, com este nível de profundidade técnica, são ainda muito raras. Como se tem desenvolvido a rede? Hoje estamos acima das 30 ofcinas e a crescer. Mas o mais interessante é perceber de onde está a vir a procura por este tipo de serviços. Hoje somos contactados não apenas por ofcinas, mas por seguradoras, gestores de frota e até marcas, incluindo fabricantes chineses que entram no mercado e procuram capacidade técnica em elétricos no pós-venda. E isso é muito relevante, porque mostra que o mercado está a reconhecer valor numa rede especializada. Essas marcas novas que chegam ao mercado sentem essa necessidade? Sim, sobretudo porque muitas chegam com produto, mas sem estrutura de assistência. E aí a rede independente especializada pode ter um papel muito relevante. No nosso caso, a rede opera com processos normalizados e enquadramento dentro do regulamento MVBER, o que permite garantir consistência e conformidade na operação. Ou seja, não é apenas ter ofcinas espalhadas pelo país, mas sim ter ofcinas a trabalhar segundo o mesmo padrão. Isso para frotas e fabricantes é muito importante. A procura por parte de frotas está a crescer? É uma área com enorme potencial. As frotas estão a eletrifcar-se rapidamente e precisam de parceiros que consigam assegurar manutenção e reparação especializada. E procuram duas coisas: competência e previsibilidade. É preci-samente aí que uma rede especializada ganha força. Temos vindo a ser envolvidos em projetos e concursos muito relevantes precisamente por essa capacidade de oferecer cobertura nacional, serviço normalizado e rastreabilidade técnica. Esse é hoje um dos grandes motores de crescimento do projeto. No fundo a rede está também a captar negócio para as ofcinas... Esse é um dos grandes objetivos. Uma rede não deve limitar-se a recrutar aderentes, tem de gerar negócio para eles, e esse é um dos pontos em que acreditamos ter criado valor. Quando atraímos frotas, seguradoras ou oportunidades com fabricantes, esse trabalho é canalizado para a rede. A questão do acesso à informação técnica e formação dos fabricantes continua a ser uma barreira no pós-venda independente ao nível dos veículos eletrifcados? Continua a ser uma das grandes questões do setor, mas também uma área onde o aftermarket independente tem vindo a conquistar espaço. Um dos princípios que defendemos desde o início é que o acesso à informação, à formação e às peças é essencial para que a reparação independente possa evoluir neste segmento. E, em muitos casos, esse acesso não é apenas desejável, é enquadrado pela própria regulamentação europeia (MVBER). Foi muito nessa lógica que conseguimos trabalhar soluções e competências em marcas particularmente exigentes, como a Tesla. Hoje dispomos de acesso a ferramentas, informação técnica e formação específca da marca, algo que foi conquistado e desenvolvido ao longo do tempo e que reforça uma convicção que temos: o pós-venda independente pode e deve ter capacidade para intervir em veículos eletrifcados de elevada complexidade. Começaram também a desenvolver o conceito EVA Collision Center. Em que consiste? A reparação de colisão em elétricos não é simplesmente chapa e pintura aplicada a um veículo diferente. Há procedimentos específcos de segurança, há protocolos e há normas a cumprir. Por exemplo, antes de um veículo sinistrado entrar na ofcina, pode ter de passar por procedimentos de verifcação que confrmem que a bateria e o veículo podem ser acondicionados e trabalhados em segurança. Se não cumprirem determinados critérios, o risco é sério. E muita gente ainda não tem consciência disso. Criámos o conceito EVA Collision Center precisamente para responder a essa necessidade. Esse conceito de rede associada à colisão, especializada em elétricos, pode ser importante para a seguradoras... Cada vez mais importante, porque percebem o risco e querem trabalhar com operadores que consigam garantir processos e segurança. Aliás, esse é um dos fatores que está a acelerar procura por este tipo de certifcação. Há seguradoras que já privilegiam centros preparados para trabalhar colisão em elétricos precisamente por isso, pois sabem que o risco operacional diminui. Por outro lado, isso cria oportunidades muito relevantes para ofcinas que invistam nessa área. Além da assistência, desenvolveram áreas complementares como carregamento... No conceito EVA integramos o carregamento. Vendemos os equipamentos e somos operadores certifcados. A ofcina pode inclusive, através da EVA, explorar postos de carregamento para veículos eletrifcados e aparecer nos principais mapas de carregadores públicos. Há também projetos ligados a extensões de garantia para baterias usadas? Sim, estamos a desenvolver isso e pode ser muito disruptivo, porque elimina o receio na compra de veículos elétricos usados, para além de gerar negócio para a rede. As ofcinas portuguesas estão preparadas para a transição para a manutenção / reparação de veículos eletrifcados? Na generalidade, não. Diria que uma pequena percentagem estará realmente preparada, mas faltam competências, faltam condições e muitas vezes o maior problema e que falta de mentalidade. É preciso mudar a forma de pensar da ofcina ao nível dos processos, segurança, especialização, imagem e organização. Há ofcinas muito boas que vão adaptar-se muito bem, mas muitas não farão esse caminho. A questão já não é se os elétricos vão criar pós-venda. É quem vai estar preparado para esse pós-venda. E isso decide-se agora. Que conselhos dá a quem quer investir neste área da manutenção / reparação de veículos eletrifcados? O primeiro é simples: começar cedo. Quem entra primeiro ganha tempo, e o tempo aqui é uma vantagem competitiva. Costumo dizer que “o pássaro madrugador apanha a minhoca gorda”. Segundo conselho: entrar com método. Não improvisar, pois isto não é uma área para curiosos. A manutenção e reparação de veículos eletrifcados é hoje um negócio rentável? Claramente, apesar de ainda ser um negócio de nicho. Uma pequena intervenção pode pagar a mensalidade de integrar a rede EVA. O “break-even” é muito baixo, e há mais procura do que oferta, o que ajuda muito a quem já investiu neste negócio. Além disso, são serviços com valorização técnica elevada e, como tal, são muito mais bem pagos. Dos anos que leva com este projeto que conclusões tira? Que havia um vazio no mercado e que o negócio da “bateria” vai ter um enorme mercado no pós-venda. Por outro lado, a economia circular vai ter um papel gigantesco aqui, porque reparar baterias, prolongar vida útil e recondicionar não são tendências, são uma necessidade. Aliás, nós somos embaixadores para Portugal do movimento mundial “Repair Dont Waste”. Apostar todas as fichas no desenvolvimento de uma rede de manutenção e reparação de veículos eletrificados, foi a estratégia da EVA Network A EVA Network é, no essencial, uma rede especializada exclusivamente em veículos eletrificados, mas é mais do que isso: é um conceito completo, estruturado como um modelo “chave-na-mão” Uma pequena intervenção pode pagar a mensalidade de integrar a rede EVA. O “break-even” é muito baixo, e há mais procura do que oferta Um dos princípios que defendemos desde o início é que o acesso à informação, à formação e às peças é essencial para que a reparação independente possa evoluir neste segmento PAULO HOMEM