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SOCIEDADE - IA, TRABALHO INTELECTUAL E SERVIÇOS PÚBLICOS

Monde Diplomatique (Le)

2026-05-05 21:03:31

Lógicas neoliberais ou de bem comum? Impactos da IA no trabalho intelectual e nos serviços públicos Perante governos e empresas seduzidos pelas promessas de eficiência e produtividade da Inteligência Artificial (IA), que papel podem ter os trabalhadores como garantes do princípio da precaução e da preservação do bem comum? Osonho de que a maior parte do trabalho fabril fosse executável por operários indiferenciados e imediatamente substituíveis foi há muito concretizado pelo capital. Não obstante o seu alastramento a atividades de menor complexidade no setor terciário, esse trabalho mecânico, repetitivo e desumanizado tem recaído em grande medida sobre o trabalho manual. Os chamados trabalhadores de colarinho branco puderam acreditar que a sua formação académica e os seus conhecimentos especializados lhes garantiam, se não uma posição laboral segura, pelo menos um lugar na classe média, acima dos setores populares. Porém, os algoritmos de Inteligência Artificial (IA) são hoje capazes de reproduzir de forma muito convincente um vasto conjunto de tarefas intelectuais que antes se considerava impossíveis de realizar por uma máquina. Pela mão da IA, todos os trabalhadores do setor dos serviços poderão vir a exercer tarefas indiferenciadas, pondo em causa a utilidade dos seus conhecimentos e capacidades e, portanto, o próprio emprego. São esses impactos que exploramos neste artigo. Devemos explicitar dois pressupostos nos quais baseamos a nossa análise. o primeiro é o de que a tecnologia tem dono e, portanto, não é neutra. O desenvolvimento tecnológico exige enormes investimentos de capital e o capital só se move pela prossecução dos seus próprios interesses. A IA promete embaratecer mercadorias, desenvolver novos produtos e mercados, concentrar poder económico, político e simbólico, tudo isto pelo seu potencial de ampliação da extração de mais-valia[]. Por isso as empresas de IA têm hoje valores bolsistas astronómicos, que ultrapassam o produto interno bruto (PIB) de muitos países desenvolvidos[ ]. Os trabalhos fabril ou de escritório serão elevados a novos patamares de ritmo e de vigilância, em suma, de exploração. O segundo pressuposto é o de que não é a tecnologia que é responsável pelas mudanças sociais, mas exatamente o contrário; a tecnologia emerge e é aplicada no contexto de relações sociais de produção já existentes. Karl Marx explorou esta questão quando assina-lou que primeiro foi necessária uma minuciosa divisão do trabalho dentro da manufatura para permitir a introdução de máquinas-ferramenta capazes de reproduzir os movimentos manuais específicos de cada grupo de operários fabris[ ], ou seja, para lançar a revolução industrial do século XVIII. Qual é o paralelismo com a IA? E que muitas atividades que são consideradas trabalho intelectual já foram decompostas em tarefas que mortificam a inteligência e a criatividade humanas. E essa a condição necessária para a sua realização por máquinas de IA desprovidas de inteligência. Que o digam os trabalhadores dos centros de contacto (call-centers) ou da banca, ou ainda os funcionários públicos envolvidos em tarefas rotineiras de tratamento de dados, preenchimento de formulários, envio de emails padronizados e tantas outras atividades que preenchem o seu dia de trabalho. A IA é um meio de trabalho que se dissemina velozmente numa organização da produção que está madura para a receber. Desenganem-se, pois, aqueles que creem que a IA representa uma nova alvorada para a humanidade, uma sociedade com menos trabalho e mais tempo livre, com mais oportunidades para dar azo à criatividade e à realização pessoal. A corrida ao algoritmo Em Portugal, a introdução da IA é liderada pelas grandes empresas (49,15% usavam alguma tecnologia de IA em 2025), ao passo que nas pequenas empresas a adoção é ainda baixa (9,43%), seguindo o padrão da União Europeia[ ]. As principais razões para a não adoção de IA pelos empresários portugueses são a falta de trabalhadores especializados no tema e a perceção dos altos custos envolvidos (possivelmente associados à contratação de pessoal ou de serviços especializados). Enquanto a principal aplicação da IA nas grandes empresas é a automatização de fluxos de trabalho e o apoio à tomada de decisão, nas pequenas e médias empresas é sobretudo a pesquisa e geração de texto ou de programas informáticos. Parecem aplicações limitadas, mas o trabalho social que a adoção generalizada requer está em marcha. Governos e empresas, mobilizam-se na promoção da IA. As consultoras internacionais encorajam as empresas a avançarem mais rapidamente na transformação da natureza do trabalho[ ], que parece não passar das velhas fórmulas de incremento da exploração: intensificação dos ritmos de trabalho e mais responsabilidade( ], otimização dos processos existentes e substituição de funções , o mesmo padrão que se pode identificar na aplicação da IA nas empresas portuguesas. Substituir funções vai implicar, a prazo, substituir trabalhadores por máquinas. E OS exemplos internacionais mostram que, mesmo que a IA não esteja ainda a substituir em massa a força de trabalho, já está a ser usada como justificação para despedimentos em vários setores dos serviços[ ]. Ao contrário do privado, no setor público espera-se que a aplicação da IA permita colmatar a crónica falta de pessoal. A redução da carga administrativa, a qualidade e a rapidez da resposta ao público, o tratamento de dados e a elaboração de previsões são algumas das áreas em que a Comissão Europeia pretende aplicar a IA nos serviços públicos. Há ainda uma segunda intenção, não menos relevante, de promoção da indústria de IA europeia, sendo OS Estados encarados como grandes clientes, que podem dar lastro aos negócios das start-ups europeias[]. Desta forma, o setor público é colocado ao serviço da competição estratégica com a China e OS Estados Unidos (em relação aos Estados Unidos, a União Europeia tem uma dependência quase total em serviços de tecnologia da informação e comunicação [TIC] e de IA),e dos interesses privados. Em Portugal, a Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) realça a necessidade de fazer aumentar a produtividade da economia nacional, mas, num país em que os ganhos salariais ficam sempre muito abaixo dos ganhos de produtividade[ ], podemos com al-guma segurança antever quem vão ser os grandes ganhadores da era da IA. Na Administração Pública, a ANIA estima que 74% das funções têm potencial de aplicação de IA generativa, o que configura a oportunidade de transformar o setor público no catalisador para a disseminação da IA na economia. Mais do que um grande cliente da tecnologia, o setor público é tomado como laboratório de teste de aplicações de IA, bem como uma fonte importante de dados (dos cidadãos) para o desenvolvimento de modelos e algoritmos. Mas será que devemos acreditar que os governos se regem pelo princípio da precaução na adoção de IA? Ou que devemos delegar neles a salvaguarda do interesse público? Os problemas da aplicação de algoritmos de IA nos serviços públicos na Europa não são novidade, mostrando que toda a cautela é pouca nesta questão. o relatório da Amnistia Internacional sobre a automatização da Segurança Social na Dinamarca[], ou o caso dos abonos de família ónos Países Baixos[ “], demonstram como supostas tentativas de melhorar a eficiência dos serviços se transformam em armas de vigilância e punição dos mais pobres. Não se trata de um mero defeito técnico dos modelos. O problema está mais a montante e diz respeito aos vieses normativos com os quais os algoritmos de IA são produzidos e alimentados. Estes modelos já estiveram na origem de erros e da perpetuação de injustiças sociais que acabam por afetar diretamente quem estava já mais fragilizado pelas políticas públicas. Em dezembro de 2024, a ministra da Saúde Ana Paula Martins e o dono de um «unicórnio» de IA na área da saúde, a Sword Health, propuseram ao país embarcar numa aventura: a implementação pro bono, pelo dito «unicórnio», de um sistema de IA para o atendimento das chamadas do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). A oferta tinha os propósitos, nada ocultos, de colmatar a crónica falta de pessoal do serviço nacional de emergência médica e, ainda, de substi-tuir trabalhadores em greve, anulando o seu poder reivindicativo. O potencial conflito de interesses entre o acesso a dados dos cidadãos por parte da empresa privada, que também trabalha em seguros de saúde, foi imediatamente identificado. Qual seria o nível de controlo da Sword Health sobre os dados dos utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e que destino poderia dar-lIhes? Seriam os dados usados no treino de modelos comerciais dirigidos a esses mesmos utentes? Perante o rol de críticas, a aventura foi abandonada, não sem antes o dono do «unicórnio» ter assegurado que, sem ele, o colapso do INEM era iminente. No meio desta deplorável promiscuidade, sobressai a clarividência da Comissão de Trabalhadores da Emergência Médica: «O INEM não precisa de um sistema de substituição incapaz de lidar com as subtilezas do discurso e análise humanos. O problema está identificado e encontra-se em resolução e passa pela contratação de recursos humanos» [ 2]. Mais recentemente, o ministro da Educação Fernando Alexandre anunciou uma redução de 50% nos quadros de pessoal do Ministério, graças à introdução de sistemas de IA para realizar várias tarefas["]. Na verdade, muitos dos trabalhadores foram reafectados para outros serviços públicos ou para reforçar pessoal docente e administrativo das escolas. Os impactos da introdução da IA terão outras consequências para os trabalhadores da Administração Pública.com uma enorme capacidade de análise de dados, de pesquisa e de elaboração textual, a máquina alimentará os trabalhadores com doses sempre crescentes de produtos complexos, que exigem um moroso rastreio e validação humanos. Aqui terão de ser feitas escolhas: ou se dá aos trabalhadores o tempo e os recursos para verificar criticamente os resultados da máquina ou aceita-se sem mais questões o que a máquina nos dá e passa-se para o trabalho seguinte. A tentação da segunda opção é quase irresistível, perante a urgência dos tempos políticos e dos executivos, e perante a temerosa solicitude de direções e chefias intermédias. Processos de trabalho assim configurados afastarão cada vez mais os funcionários públicos da elaboração ponderada de conteúdos de natureza técnico-científica. As chefias veem a produtividade das suas equipas aumentar, os governantes deleitam-se com a profusão de pareceres técnicos para guardar na gaveta ou para justificar decisões que já foram tomadas. E o problema da delegação cognitiva, tornando o trabalho cada vez mais indiferenciado, acabará, a prazo, por toldar o juízo crítico dos executantes humanos das tarefas, assoberbados pela insuperável capacidade de produ-ção da máquina.com os conhecimentos e capacidades técnicas entregues aos algoritmos, restará ao futuro técnico superior indiferenciado dos serviços públicos uma atividade como frenético elaborador de prompts[ ], acompanhada pela responsabilização pelos erros e pelas consequências da aplicação dos resultados da IA. A IA como objeto de luta dos trabalhadores Tudo isto é provável, mas não é inevitável. Como mostra o exemplo do INEM, a intervenção dos trabalhadores pode introduzir um importante grau de lucidez na tomada de decisões sobre as aplicações da IA. Em todo o caso, abre-se um novo campo de ação para as organizações dos trabalhadores. A luta pela não utilização de IA em setores críticos é um dos problemas com que teremos de nos defrontar. é uma questão que tem tanto a ver com as condições de trabalho como com as garantias ao público de que certos serviços só podem ser prestados por humanos, pois é a condição de manutenção de um patamar mínimo de dignidade e de segurança na interação entre os serviços públicos e os cidadãos. Falamos, entre muitos outros, do atendimento de chamadas de emergência, do SNS 24, do atendimento ao público e da avaliação de processos da Segurança Social. Por outro lado, será necessário ofe- recer uma saída política para o previsível exército de desiludidos com a ascensão social prometida pela economia do conhecimento[5]. Todos aqueles que apostaram no estudo como forma de aceder a uma vida melhor que a dos seus pais e que se verão na situação de trabalhadores indiferenciados, intercambiáveis entre as mais diversas tarefas e, em muitos casos, tornados inúteis pelo trabalho intelectual automatizado. O trabalho não é só salário, e as frustrações do dia-a-dia, as hu-milhações e a desqualificação não são falhancos individuais, ao contrário do que a ideologia neoliberal inculcou na consciência dos trabalhadores. A essas frustrações é necessário dar uma consciência de que os efeitos das tecnologias são um processo social de que todos fazemos parte, embora com papéis diferentes. A IA vai mudar o mundo do trabalho e, assim, terão de mudar a política e a organização coletiva dos trabalhadores. RUI BORGES [1] Herbert Marcuse, «Algumas implicações sociais da tecnologia moderna», em Tecnologia, Guerra e Fascismo, Editora UNESP, SaO Paulo, 1999, [2] Stock Analysis, htps/stockanalyais.com/ist/ai-stock [3] Karl Marx, O Capital, Livro Primeiro, Tomo Il, Capítulos 12 e13, Edições Avante!, Lisboa, 1990. [4] EUROSTAT, «Artificial intelligence by size class of enterprise, online data code: isoc eb. ai». [5] Deloitte, «State of Al in the Enterprise = The untapped edge», janeiro de 2026, p. 10, www.deloitte.com[6] Deloitte, lbid., p. 19. [7] Daniele Abril, «Tech companies are cutting jobs and betting on Al. The payoff is far from guaranteed», The Guardian, 6 de abril de 2026. [8] Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu e ao Conselho , Estratégia de Aplicação da IA, COM(2025) 723 final, Bruxelas, 8 de outubro de 2025, https://eur-lexeuropa.eu [9] Maria Caetano, «Remunerações sobem abaixo da produtividade há duas décadas», Jornal de Negócios, 15 de Abril de 2024. [10) Amnistia Internacional, «Coded Injustice: Surveillance and Discrimination in Denmark s Automated Welfare State», 12 de Novembro de 2024, www.amnesty.org[11] Melissa Heikkilã, «Dutch scandal serves as a warning for Europe over risks of using algorithms», Politico, 29 de Março de 2022, www.politico.eu [12] Tiago Ramalho, «Uma "bomba-relógio": trabalhadores do INEM desmentem "opinião alarmista” da Sword Health», Público, 7 de fevereiro de 2025. [13] Lusa, «Reforma do Ministério da Educação permitiu reduzir pessoal em 50%», Público, 27 de março de 2026. [14] Um prompt é uma instrução, comando ou entrada textual fornecida a um sistema de inteligência artificial para orientar ou desencadear uma resposta, ação ou geração de conteúdo. [15] Frédéric Lordon, «Marx va avoir raison (IA et lutte de classes)», La pompe à phynance, 2 de março de 2026, https:// blog.mondediplo.net VASCO ARAúJO . Máquina de Escuta #1, 2021 © Jorge das Neves & Anozero26 . Em exibição até 5 de julho, na Bienal de Coimbra RUI BORGES