pressmedia logo

OLHO SECO E FADIGA DIGITAL - QUEIXAS CADA VEZ MAIS COMUNS NA ERA DIGITAL

Farmácia Distribuição

2026-05-05 21:03:35

Ardor, visão turva, sensação de areia nos olhos, lacrimejo e dores de cabeça ao final do dia são sintomas cada vez mais frequentes entre quem passa muitas horas em frente a ecrãs. O olho seco , uma doença crónica da superfície ocular , e a fadiga ocular digital estão a surgir em idades cada vez mais jovens, impulsionados pelo uso intensivo de computadores, telemóveis e tablets. Segundo o oftalmologista Ricardo Portugal, coordenador do Serviço de Oftalmologia Hospital Privado Gaia Trofa Saúde, a redução do pestanejar durante tarefas visuais prolongadas é um dos principais fatores por trás deste problema crescente. Oolho seco não é apenas um desconforto ocasional, mas sim «uma doença crónica da superfície ocular», muitas vezes inflamatória e multifatorial. A explicação é do oftalmologista Ricardo Portugal, que sublinha a complexidade deste problema cada vez mais frequente na prática clínica. Segundo o especialista, a doença está associada sobretudo à «instabilidade do filme lacrimal», uma das componentes mais importantes da superfície refrativa do olho, sendo a primeira estrutura com a qual a luz interage. As lágrimas desempenham um papel essencial na proteção do olho. «Funcionam como um revestimento da córnea e da conjuntiva na interface entre o olho e o ambiente. Quando esse equilíbrio se perde, surge inflamação e um conjunto de sintomas característicos». Entre os sinais mais comuns estão «dor, desconforto, sensação de corpo estranho ou de “areia” nos olhos, vermelhidão e visão turva, sintomas que tendem a intensificar-se ao final do dia». Apesar de parecer contraditório, algumas pessoas com olho seco apresentam lacrimejo excessivo. o fenómeno explica-se pela «qualidade insuficiente das lágrimas produzidas». Quando as lágrimas evaporam de forma irregular, «o olho envia ao cérebro o sinal de que precisa de produzir mais». No entanto, «essas lágrimas adicionais não possuem a oleosidade ou viscosidade necessárias, evaporando rapidamente». Forma-se, assim, um círculo vicioso: «a pessoa lacrimeja precisamente porque tem os olhos secos. O problema não está na quantidade de lágrimas, mas na sua qualidade». Ecrãs reduzem drasticamente o pestanejar A exposição prolongada a ecrãs é um dos fatores mais associados ao aumento de casos de olho seco e fadiga digital. Ricardo Portugal explica que «a atenção visual prolongada reduz significativamente a frequência de pestanejar». «Quando estamos atentos a alguma coisa, passamos de piscar os olhos 10 a 20 vezes por minuto para cerca de 5 a 7 vezes por minuto. Ou seja, reduzimos quase para 30% o número de vezes que piscamos os olhos». Além disso, o pestanejar torna-se menos completo. «Como estamos mais tempo sem pestanejar, as lágrimas vão evaporando», acrescenta o oftalmologista. Como consequência, surgem vários sintomas associados à fadiga digital. «Se a lágrima evaporar de forma irregular na zona ótica, a visão vai ficar turva. Dor de cabeça e dificuldade na focagem são queixas frequentes; há pessoas que sentem mesmo dor ocular ou sensação de corpo estranho e outras dizem simplesmente que sentem os olhos secos». o aumento da incidência de olho seco não é recente e já era observado antes da pandemia. «Diria que ocorre desde há 10 a 15 anos», afirma o cirurgião ocular. A fadiga digital surge sobretudo entre quem passa muitas horas diante do computador. «Normalmente, SàO pessoas que trabalham mais de seis horas ao computador. E mesmo no seu tempo livre, a maior parte das vezes estão focadas no telemóvel». Mulheres após a menopausa e utilizadores de lentes são mais vulneráveis Alguns grupos apresentam maior risco de desenvolver sintomas mais intensos. «ê o caso dos utilizadores de lentes de contacto e das mulheres após a menopausa». De acordo com o cirurgião ocular, «um mês ou dois depois, quase todas as mulheres operadas às cataratas se queixam de secura ocular». Contudo, «isso raramente acontece nos homens». As alterações hormonais após a menopausa levam a que a qualidade das lágrimas seja muito diferente, explica Ricardo Portugal. «Perdem o componente lipídico. Por isso são tão importantes as lágrimas de conforto e a suplementação com ómega 3». Quem utiliza lentes de contacto também pode sentir agravamento dos sintomas durante o trabalho ao computador. «Não é boa ideia usar lentes de contacto ao computador, mas cada caso é diferente. Quem se sentir bem pode continuar a fazê-lo, mas se as pessoas se sentirem desconfortáveis com as lentes o melhor é trabalharem com óculos e não se esquecerem de fazer pausas frequentes». A regra 20-20-20 Para reduzir a fadiga ocular, existem algumas estratégias simples que podem ser aplicadas no dia-a-dia. «Uma das mais conhecidas é a regra 20-2020: vinte minutos ao computador e 20 segundos a olhar para lá de 20 pés, o equivalente a seis metros». Outras medidas incluem «piscar os olhos deliberadamente, ajustar a iluminação do ambiente, evitar o ar condicionado diretamente sobre os olhos, limitar o tempo excessivo em frente a ecrãs e, sempre que possível, privilegiar a exposição à luz natural». Os sinais da doença podem variar consoante a idade. «As pessoas com mais idade queixam-se principalmente de picadas, dor e sensação de corpos estranhos nos olhos; as pessoas mais jovens queixam-se sobretudo de visão turva ao final do dia». «Há cerca de 10 anos só víamos este tipo de sintomas a partir dos 40 anos, agora é a partir dos 20», diz o especialista. A principal explicação está nos hábitos digitais, «sobretudo quando os jovens entram no mercado de trabalho». Até o consumo de conteúdos audiovisuais mudou. «Há muitos jovens que também veem televisão no telemóvel, mas os televisores diminuem o esforço de focagem e o risco de evolução para miopia. Quanto mais próximo estiver o ecrã, pior». Lágrimas artificiais sem conservantes são «opção segura» Os sintomas persistentes devem ser avaliados por um especialista. «Qualquer pessoa que tenha sintomas persistentes, principalmente ao final do dia, deve marcar uma consulta». Na maioria das situações, «os sintomas de olho seco tornam o diagnóstico relativamente simples». Por vezes, «o lacrimejo pode estar relacionado com obstrução do canal lacrimal, mas nesses casos os sintomas são contínuos, isto é, as pessoas lacrimejam de manhã à noite, dentro e fora de casa». Quando surge apenas após longos períodos ao computador, «essa hipótese torna-se menos provável». Para alívio inicial dos sintomas, «as lágrimas artificiais, sem conservantes, são uma opção segura». Segundo o especialista, estes produtos podem ser «um bom ponto de partida no aconselhamento farmacêutico». A principal cautela «é garantir que não se mascara uma situação que necessite de avaliação médica. Caso os sintomas não melhorem ou se agFravem, a recomendação deve ser procurar avaliação clínica». Em contexto de aconselhamento farmacêutico, perante queixas de desconforto ocular, «há algumas perguntas essenciais que devem ser feitas» para despistar situações mais complexas. «No caso de pessoas que possam ter algum tipo de traumatismo ocular, um corpo estranho ou uma situação unilateral herpes ocular, por exemplo o farmacêutico deve recomendar ao utente que procure um médico». Neste contexto, o especialista alerta que «cerca de metade das pessoas que têm corpos estranhos nos olhos, inicialmente ou nega ou nem se lembra de uma situação de risco a que esteve exposta». Contudo, «alguém com uma limalha, um corpo estranho ou uma inflamação intraocular, vai sentir dor quer tenha os olhos abertos ou fechados, e dói igual de manhã, à tarde e à noite». Situações e particulares Alguns grupos apresentam maior risco de secura ocular. Nos idosos polimedicados, por exemplo, vários fármacos podem contribuir para este problema. Entre eles, «os antidepressivos tricíclicos, que frequentemente provocam diminuição da produção de lágrimas». Ainda assim, o especialista sublinha que estes medicamentos «são prescritos quando o benefício para o doente justifica os potenciais efeitos secundários». Outro exemplo é o tratamento com isotretinoína, «frequentemente utilizado em jovens com acne moderado a grave ou resistente a outras terapêuticas». O medicamento «pode melhorar significativamente a doença dermatológica, mas provoca frequentemente secura da pele e das mucosas, incluindo dos olhos». Ricardo Portugal assinala que «é comum os dermatologistas recomendarem hidratantes labiais, para proteger os lábios, mas nem sempre se recordam da necessidade de lágrimas artificiais para aliviar a secura ocular». Em alguns casos, «aconselha-se também evitar o uso de lentes de contacto durante o tratamento». As lágrimas de conforto podem igualmente ser úteis em outras situações, como em mulheres submetidas a quimioterapia para cancro da mama. «Embora a prioridade clínica seja naturalmente o tratamento oncológico, a secura ocular não deve ser desvalorizada, pois pode afetar significativamente o bem-estar destas doentes». Em qualquer situação, a secura ocular «pode afetar significativamente o quotidiano». De acordo com o especialista, «alguns estudos de qualidade de vida colocaram esta condição entre as patologias com maior impacto percebido pelos doentes, ao lado de doenças graves como patologia cardíaca ou cancro. Este resultado, que surpreendeu até os investigadores, evidencia o desconforto que pode provocar». Desequilíbrio no uso da tecnologia pode marcar o futuro No que diz respeito à fadiga digital, «tudo indica que continuará a aumentar». Ricardo Portugal explica que um dos motivos está na forma como consumimos informação. «Ao ler um livro em papel , geralmente em formatos A5 ou A4 cada mudança de página cria uma pausa natural de alguns segundos. Esse pequeno intervalo obriga a levantar ligeiramente a cabeça, pestanejar e descansar os olhos». Nos dispositivos móveis, pelo contrário, «o movimento contínuo do polegar e a ausência de pausas naturais favorecem a leitura prolongada sem interrupções». o especialista esclarece ainda um equívoco frequente: «não há evidência de que a luz emitida pelos telemóveis, por si só, seja nociva para os olhos. Se alguém lesse durante o mesmo número de horas e com igual intensidade de concentração um livro em papel, os efeitos sobre o esforço visual poderiam ser semelhantes. O verdadeiro problema está sobretudo na distância curta de visualização e na fixação prolongada do olhar». O digital «veio para ficar e trouxe benefícios claros, sobretudo no acesso à informação. O desafio não está em rejeitar a tecnologia, mas em aprender a utilizá-la de forma equilibrada». Mais do que uma questão de «sim ou não» ao uso de ecrãs, trata-se de «como usamos as tecnologias», um desafio mais complexo, mas «essencial para proteger a saúde ocular num mundo cada vez mais digital». + «Há muitos jovens que também veem televisão no telemóvel, mas os televisores diminuem o esforço de focagem e o risco de evolução para miopia. Quanto mais próximo estiver o ecrã, pior», avisa Ricardo Portugal Sintomas de olho seco Os sintomas do olho seco manifestam-se sobretudo no final do dia e incluem: Sensação de ardor, comichão ou sensação de areia nos olhos; . Dor ocular e em redor dos olhos; . Olhos vermelhos e irritados; . Visão turva ou com flutuações; . Sensibilidade à luz; . Lacrimejo (reação natural contra a secura ocular). Fadiga digital: os sintomas mais comuns Olhos cansados e secos: Sensação de peso, ardência, olhos vermelhos e necessidade de piscar mais; Alterações visuais: Visão turva, embaçada ou dupla, especialmente após uso prolongado; Dores físicas: Dores de cabeça (especialmente na zona frontal) e tensão/dor no pescoço, ombros e coluna devido à postura; Sensibilidade: Fotofobia e dificuldade em focar, inclusive ao mudar de distâncias.