EDITORIAL - EDITORIAL - O QUE DEIXÁMOS DE SENTIR FALTA
2026-05-05 21:04:15

DIRETOR A democracia portuguesa, 52 anos depois: entre a coreografia e o silêncio. No passado sábado, a Assembleia da República voltou a engalanar-se para a sessão solene dos 52 anos do 25 de Abril. Flores, hinos, vénias, lugares definidos ao milímetro. Coreografia perfeita. Lá fora, milhares desciam a Avenida da Liberdade sindicatos, as - sociações de moradores, estudantes, ativistas climáticos. O país real fora do enquadramento. Dentro, discutia-se o cravo. Quem o usa. De que cor. É difícil imaginar imagem mais exata da democracia portuguesa em 2026. Em 1975, 91,7% dos eleitores votaram nas primeiras eleições livres. Em 2026, a abstenção na segunda volta das presidenciais atingiu 49,9%. Metade do país ficou em casa. Não é apenas desinteresse. É afastamento estrutural. A democracia deixou de ser conquista para ser rotina. Funciona, mas já não convoca. Convém não falsificar o retrato. Portugal consolidou um regime estável, expandiu direitos, universalizou educação e saúde. O país não é o de 1974. Mas essa normalização tem um custo: a política tornou-se representação. E o 25 de Abril também. O cravo gesto improvisado, im - perfeito, de rutura foi embalsamado. Exibido. Repetido. Sem risco. Sem consequência. Tomemos a habitação. Em 2025, os preços subiram 17,6%. Em dez anos, 180% de valorização. As rendas aumentaram 40%. A habitação pública não chega a 2%. Isto não é crise. É deslocação estrutural de riqueza. Um despejo geracional. O Estado intervém pouco, tarde e com cautela. Programas sucessivos não travam a escalada. Invoca-se o direito à habitação enquanto se aceita a sua erosão prática. Afirma-se o princípio. Evita-se o conflito. A precariedade laboral fecha o ciclo. Mais de metade dos jovens trabalha sem estabilidade contratual. Não é transição. É sistema. Em março, centenas de jovens manifestaram-se contra alterações laborais que, segundo os organizadores, perpetuam a precariedade. O Governo recuou parcialmente. Não por convicção, mas por pressão. No mesmo dia, no Parlamento, entrou a disputa simbólica. André Ventura ergueu um cravo verde e reclamou-o como símbolo da «comunidade emigrante». Não é ingenuidade. É estratégia. A apropriação de símbolos fundadores só é possível quando o símbolo já perdeu densidade política. A resposta «cra - vos geneticamente modificados» tem brilho. Mas não resolve. O problema não é a cor. É o vazio. OServiço Nacional de Saúde oferece outro retrato. O diretor-executivo admitiu: não será possível eliminar listas de espera. Faltam profissionais, meios, capacidade. As metas existem. Não serão cumpridas. Os utentes esperam. Sem dramatismo. Sem colapso. Mas em erosão contínua. E isso é mais difícil de ver, mais difícil de corrigir, mais difícil de mobilizar. Também o Parlamento começou a falar outra linguagem. Um deputado virou as costas à presidência no fim de uma sessão solene. Forma discutível, mas sinal claro. Quando o gesto substitui a palavra, é porque a palavra já não chega. E depois houve o episódio mais revelador: em 2025, o Governo decretou três dias de luto nacional pela morte do Papa incluindo o 25 de Abril. A liber - dade entrou em calendário alheio. A ex-plicação foi formal. Mas, politicamente, é outra coisa: a hierarquia simbólica foi reordenada sem debate. O 25 de Abril deixou de ser intocável. Passou a negociável. O que separa 1975 de 2026 não é emoção. É política. Em 1975, discutia-se o país por construir. Em 2026, gere-se um país em erosão. Habitação inacessível. Trabalho instável. Saúde sob pressão. Abstenção estrutural. E um Parlamento que discute símbolos enquanto o país discute sobrevivência. A esquerda invoca a Constituição. Mas cumpre-a? A direita invoca a liberdade. Mas para quem? E o centro onde se decide gere equilíbrios: apoios à renda que não travam preços, incentivos fiscais que não alteram a estrutura, reformas que suavizam sem transformar. Evita o conflito. Evita o erro. Evita a mudança. A estabilidade que produz é real, mas insuficiente. A democracia portuguesa não está em colapso. Está em perda de intensidade. E isso raramente faz notícia. A abstenção cresce. A precariedade fixa-se. A habitação expulsa. O SNS esgota-se. A confiança fragmenta-se. Sem rutura. Sem evento. Só desgaste. O 25 de Abril continua a oferecer um critério simples, quase incómodo: até que ponto as políticas ampliam liberdade concreta e igualdade material? A pergunta permanece. Quase nunca é respondida. Na Avenida, cantou-se «Grândola». No parlamento, cumpriu-se o protocolo. Entre uma coisa e outra há um espaço vazio. Político. Crescente. O cravo ainda está lá. Mas já não interrompe nada. E talvez o mais inquietante seja isto: já não sentimos falta do que deixou de nos interromper. NUNO MOURINHA