LITERACIA EM SAÚDE NA FARMÁCIA - PROFISSIONAIS DEFENDEM MAIOR INTEGRAÇÃO NAS POLÍTICAS NACIONAIS
2026-05-05 21:04:24

As farmácias comunitárias estão a assumir um papel crescente na promoção da literacia em saúde e na prevenção da doença em Portugal, alicerçadas na proximidade à população e na confiança dos utentes. Ainda assim, especialistas consideram que o seu potencial permanece subaproveitado, defendendo maior integração nas políticas públicas de saúde. As farmácias comunitárias têm um papel “estratégico” no reforço da literacia em saúde preventiva em Portugal, sobretudo devido à proximidade com a população e à relação de confiança com Os utentes. A posição é defendida por Cidália Almeida da Silva, presidente do Conselho do Colégio de Farmácia Comunitária da Ordem dos Farmacêuticos, que destaca o potencial destes espaços enquanto pontos privilegiados de educação para a saúde. «Em muitos casos, o farmacêutico é o profissional de saúde mais acessível no dia a dia das pessoas», afirma. Essa acessibilidade permite que cada interação , seja na dispensa de medicamentos, no aconselhamento ou na prestação de serviços se torne «numa oportunidade de educação para a saúde». Segundo a responsável, a intervenção dos farmacêuticos é essencial para «esclarecer dúvidas, combater a desinformação, promover a utilização responsável de medicamentos e capacitar os cidadãos para reconhecer fatores de risco, sinais de alerta e medidas de prevenção». O objetivo, sublinha, é que as pessoas «compreendam melhor a sua saúde e participem de forma mais informada nas decisões relacionadas com a prevenção da doença». Para a presidente do Colégio, as iniciativas com maior eficácia são aquelas que combinam proximidade, aconselhamento personalizado e acompanhamento continuado. Entre as mais relevantes, destaca rastreios e avaliações de risco como medição da pressão arterial, glicemia, colesterol ou avaliação do risco cardiovascular = bem como aconselhamento farmacêutico individualizado, adaptado à situação clínica e ao perfil de cada utente. Programas estruturados, como o apoio à cessação tabágica, à gestão do peso ou à promoção da adesão à terapêutica, também apresentam resultados positiVOS. A par disso, campanhas de vacinação e ações de sensibilização, «permitem transformar a informação em ações concretas de proteção da saúde». «Estas iniciativas são particularmente eficazes porque decorrem num ambiente de confiança e continuidade de contacto, permitindo reforçar mensagens preventivas e acompanhar mudanças de comportamento ao longo do tempo», explica. Norma de Boas Práticas sublinha abordagem centrada na pessoa A presidente do Colégio sublinha ainda a importância de uma «abordagem centrada na pessoa», conforme previsto na Norma de Boas Práticas de Farmácia Comunitária. Na prática, isso implica compreender o contexto, hábitos e expectativas de cada utente antes de apresentar recomendações. Essa abordagem traduz-se numa «comunicação clara e adaptada ao nível de literacia em saúde da pessoa», evitando linguagem técnica excessiva, e numa «escuta ativa» que permita «identificar necessidades reais e eventuais fatores de risco». Inclui também a «explicação adequada sobre a utilização correta dos medicamentos», a identificação de «oportunidades de intervenção preventiva», como vacinação, alimentação, atividade física ou a realização de rastreios. Outro aspeto essencial é o envolvimento do utente nas decisões sobre a sua saúde. Na perspetiva de Cidália Almeida da Silva, «este modelo de comunicação transforma a farmácia num espaço privilegiado de promoção da literacia em saúde e de capacitação das pessoas para o autocuidado responsável». Potencial ainda por explorar Apesar das vantagens, a presidente do Colégio considera que o papel das farmácias na promoção da literacia preventiva ainda não está plenamente aproveitado em Portugal. O país dispõe de uma rede alargada de farmácias e profissionais qualificados, o que representa «uma oportunidade única» para reforçar a literacia em saúde. Para isso, defende uma maior integração das farmácias nas estratégias nacionais de prevenção, bem como a valorização de serviços farmacêuticos orientados para a educação e prevençáO. A especialista aponta também a necessidade de campanhas de Saúde Pública que mobilizem a rede das farmácias e de um reconhecimento institucional mais claro do papel do farmacêutico comunitário. Num contexto de envelhecimento da população e aumento das doenças crónicas, reforçar a literacia e apostar na prevenção torna-se, na sua perspetiva, «essencial para melhorar os resultados em saúde e garantir maior sustentabilidade do sistema de Saúde». «os farmacêuticos comunitários acompanham as pessoas ao longo de toda a sua jornada de saúde e, por essa proximidade contínua, reúnem condições únicas para assumir um papel ainda mais relevante na promoção da literacia em saúde e na prevenção da doença», conclui. AFP destaca contributo na redução das desigualdades Num contexto de reforço das políticas de prevenção, a presidente da Associação de Farmácias de Portugal (AFP), Isabel Cortez, sublinha o contributo das farmácias comunitárias na redução das «desigualdades no acesso à informação em Saúde», sobretudo junto de populações mais vulneráveis. Segundo a responsável, a proximidade e capilaridade da rede de farmácias permitem chegar a cidadãos que enfrentam maiores dificuldades no acesso a informação fiável, nomeadamente «pessoas com menor literacia, menor capacidade financeira ou com limitações no uso de ferramentas digitais». Pela sua capacidade de «traduzir informação clínica de forma simples», o farmacêutico é muitas vezes «o primeiro profissional» a quem recorrem para «compreender um diagnóstico, um tratamento ou uma recomendação clínica». Isabel Cortez destaca ainda o papel dos farmacêuticos «no que diz respeito à orientação do cidadão para a correta navegação pelo sistema de Saúde, explicando, por exemplo, como marcar consultas com o médico de família, a que serviços recorrer perante determinada situação ou como utilizar ferramentas digitais como a aplicação SNS24». Na sua perspetiva, «integran plenamente as farmácias nas políticas públicas de promoção da literacia em saúde ajuda a aproximar a informação e os cuidados das pessoas, independentemente da sua capacidade financeira, contribuindo para um sistema de Saúde mais equitativo e centrado no cidadão». Serviços farmacêuticos promovem decisões mais conscientes Serviços como a medição de parâmetros clínicos, aconselhamento personalizado, acompanhamento de doentes crónicos, revisão farmacoterapêutica ou preparação individualizada da medicação «permitem identificar precocemente fatores de risco, muitas vezes antes de surgirem complicações». Nomeadamente, o acompanhamento de doentes crónicos, aliado à revisão da terapêutica e à preparação individualizada da medicação, contribuem para a «redução de erros, esquecimentos e redundâncias terapêuticas, facilitando a toma correta e melhorando a adesão ao tratamento». A responsável da AFP defende ainda que esta abordagem preventiva não só permite detetar doenças em fases iniciais, como também reforça a sensibilização dos cidadãos para a importância de hábitos de vida saudáveis, promovendo comportamentos mais conscientes. O resultado traduz-se num tratamento «mais eficaz, com menos complicações e efeitos secundários», reduzindo as «idas desnecessárias às urgências ou consultas adicionais», com impacto positivo nos custos para os utentes e para o Serviço Nacional de Saúde. A automedicação é outra área em que O papel das farmácias se revela determinante. Isabel Cortez alerta para a necessidade de reforçar a literacia dos cidadãos quanto aos riscos associados ao uso de medicamentos não sujeitos a receita médica. Apesar de frequentemente utilizados em situações ligeiras, estes medicamentos «não estão isentos de riscos», podendo originar interações, efeitos adversos ou atrasar o diagnóstico de patologias mais graves quando utilizados de forma inadequada. Neste contexto, defende o reforço de campanhas de sensibilização e a valorização do aconselhamento farmacêutico como forma de promover uma utilização mais segura e racional dos medicamentos. Maior integração pode reforçar acompanhamento de proximidade Para a presidente da AFP, O potencial das farmácias comunitárias ainda não está plenamente aproveitado no sistema de Saúde português. A responsável defende medidas que aprofundem a integração destas estruturas, nomeadamente através de projetos que permitam uma intervenção mais direta em situações clínicas de menor complexidade. Recorda, a propósito, o projeto de resolução aprovado em fevereiro de 2025 na Assembleia da República, que prevê a criação de um programa-piloto para a gestão de afeções ligeiras em farmácia, com base em protocolos clínicos validados e em articulação com as autoridades de saúde. «Este tipo de abordagem poderia facilitar o acesso dos cidadãos a cuidados de saúde, ao mesmo tempo que contribuiria para aliviar a pressão sobre os cuidados de saúde primários e os serviços de urgência», afirma. A aposta em modelos colaborativos entre farmácias, autoridades de saúde e programas de prevenção «permitiria assim otimizar recursos, melhorar o acesso aos cuidados de saúde e reduzir desigualdades, garantindo que todos os cidadãos beneficiam de informação e acompanhamento de proximidade». ANF destaca combate à desinformação A presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), Ema Paulino, sublinha igualmente o contributo das farmácias comunitárias na promoção da literacia em saúde preventiva. Segundo a responsável, a intervenção das farmácias concretiza-se sobretudo na identificação de oportunidades de prevenção ao longo do contacto regular com os utentes, seja através da monitorização de parâmetros clínicos, da vacinação ou da referenciação para rastreios e avaliações de risco. Ema Paulino destaca, em particular, o impacto da adesão à terapêutica nos resultados em saúde. «Uma melhor compreensão da medicação e o cumprimento adequado dos esquemas terapêuticos traduzem-se num melhor controlo das doenças crónicas», refere, apontando a redução de complicações e de episódios de descompensação, com a necessidade de recurso a cuidados diferenciados. Outro fator determinante, acrescenta, é o nível de confiança que a população deposita nas farmácias e nos farmacêuticos, o que facilita a transmissão de informação rigorosa e baseada na evidência científica. Esta confiança é sustentada «por um investimento contínuo na capacitação das equipas farmacêuticas, assegurando a sua preparação para apoiar, de forma qualificada, as decisões em saúde dos cidadãos». Paralelamente, «as farmácias têm vindo a adaptar-se a novos contextos de comunicação, recorrendo também a canais digitais e redes sociais para disseminar informação e incentivar comportamentos preventivos». Num cenário marcado por uma elevada circulação de informação, nem sempre validada, «este contributo assume particular relevância na orientação dos cidadãos para fontes fiáveis» Dados da Cientis apoiam a prática profissional A responsável da ANF destaca também o contributo da Cientis na valorização dos dados gerados pelas farmácias comunitárias. «Através da recolha sistemática e análise de dados provenientes de serviços farmacêuticos e de projetos de intervenção, torna-se possível identificar necessidades emergentes da população, padrões de utilização dos cuidados de saúde e oportunidades concretas de atuação ao nível da prevenção». Este processo de transformação de dados em evidência «permite não só apoiar a prática profissional - através do desenvolvimento de ferramentas, orientações e conteúdos dirigidos aos farmacêuticos como também demonstrar, de forma consistente, o contributo das farmácias comunitárias para a promoção da Saúde Pública». Além disso, «a evidência gerada constitui um suporte relevante para a tomada de decisão em saúde, podendo informar a definição de políticas públicas e estratégias que reforcem o papel das farmácias na prevenção da doença, na promoção da literacia em saúde e na melhoria dos resultados em saúde da população». Jovens farmacêuticos apostam nas plataformas digitais Pela sua familiaridade e dinamismo de expressão através das novas formas de comunicação, «os jovens podem trazer disruptividade à divulgação da evidência científica e à promoção de hábitos saudáveis junto da população das várias faixas etárias, particularmente junto dos seus pares», defende o presidente da Associação Portuguesa de Jovens Farmacêuticos (APJF). Considerando que a prevenção na comunidade «é sobretudo uma estratégia de longo prazo», João Diogo defende que se torna fundamental «impulsioná-la junto das novas gerações». Ao fazê-lo, «aumentamos a probabilidade de transformar atitudes de maior risco em hábitos saudáveis duradouros, permitindo que essas mudanças se consolidem num horizonte geracional e dissipando, por vezes, uma aura mais paternalista ou disciplinatória" com que debatemos ou abordamos o tema da prevenção em sociedade». As redes sociais e as tecnologias digitais «são ferramentas essenciais para ampliar o alcance das mensagens de prevenção». Por um lado, «permitem divulgar informação científica de forma rápida, criativa e eficaz»; por outro, constituem também «um recurso crítico e um palco incontornável para, ao mesmo tempo, combater a desinformação em saúde que, de forma também preocupante, prolifera com muita facilidade nestas mesmas plataformas». E precisamente nesta dualidade que reside o desafio: as mesmas plataformas que potenciam a literacia em Saúde podem igualmente fragilizar a mensagem preventiva e a confiança na ciência. Por isso, o presidente da APJF defende que esta «é mesmo uma missão urgente: continuar a aproximar os profissionais de saúde, a evidência e a verdade científica da população, sobretudo dos mais jovens». As novas gerações de profissionais «assumem com grande empenho esta missão na comunidade e querem continuar a contribuir, numa lógica de articulação com outros profissionais de saúde e agentes da comunidade, para uma prática mais centrada na literacia em saúde, na prevenção e na capacitação para o autocuidado». Segundo o responsável, procuram, acima de tudo, «sentir o impacto da sua ação na vida das pessoas reconhecendo que, perante os atuais desafios de sustentabilidade que existem ao longo do nosso modelo de cuidados, devemos estar dispostos a pensar e construir novas abordagens que, no final do dia, permitam que tenhamos comunidades mais saudáveis». Nesse sentido, João Diogo sublinha que o envolvimento ativo na promoção da saúde e na educação da população «contribui também para a valorização da profissão farmacêutica, evidenciando o seu impacto na Saúde Pública e na qualidade de vida das comunidades». + «Integrar plenamente as farmácias nas políticas públicas de promoção da literacia em saúde ajuda a aproximar a informação e os cuidados das pessoas (..), contribuindo para um sistema de Saúde mais equitativo e centrado no cidadão», defende Isabel Cortez Ema Paulino destaca, em particular, o impacto da adesão à terapêutica nos resultados em saúde. «Uma melhor compreensão da medicação e o cumprimento adequado dos esquemas terapêuticos traduzem-se num melhor controlo das doenças crónicas»