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ENTRE A RETÓRICA E A REALIDADE

Farmácia Distribuição

2026-05-05 21:04:29

O debate público há temas que regressam ciclicamente, como se fossem novidade. Na Saúde, isto é ainda mais evidente. Repetimos diagnósticos, slogans e intenções com a mesma naturalidade com que adiamos decisões difíceis. E, no entanto, os factos continuam a pedir mais do que declarações de princípio: pedem coragem, método e responsabilidade. Os desafios que enfrentamos não são exclusivos de Portugal. o envelhecimento acelerado, a pressão das doenças crónicas, a escassez de profissionais, a integração tecnológica, as ameaças epidemiológicas e a desinformação compõem um quadro global. A tudo isto juntam-se dois fatores que moldam profundamente o presente: as desigualdades socioeconómicas e a crescente instabilidade geopolítica. As desigualdades são o maior determinante da Saúde e, por isso, o maior desafio das políticas públicas e do SNS. Décadas de investigação mostram a relação entre esperança de vida, qualidade da saúde e fatores como escolaridade, rendimento ou território. E no SNS que desaguam falhas de outros sectores: pobreza, precariedade, baixa escolaridade, iliteracia, insegurança rodoviária, habitação indigna, vulnerabilidade energética, isolamento social, ambientes poluídos e alimentação inadequada. Ainda assim, o sistema tem sido subfinanciado, frequentemente rotulado de despesista e obrigado a funcionar a prestações, enquanto é usado como arma de arremesso político. Nenhum sistema, por mais eficiente que seja, consegue compensar sozinho desigualdades estruturais. E é aqui que reside parte do equívoco do debate público: discutimos o SNS como se fosse possível resolver problemas sociais apenas com mais consultas, mais urgências ou mais investimento. Existem também constrangimentos internos: uma cultura de silos, burocracias inúteis, agendas corporativas, má distribuição de recursos e um edificado envelhecido que compromete eficiência, qualidade e contas públicas. Resolver isto exige construir pontes e assumir responsabilidade para com as gerações futuras. Haverá resistentes, conformados e velhos do Restelo , haverá sempre. Mas a evidência é clara: a Saúde melhora mais depressa com políticas sociais robustas do que com reformas clínicas isoladas. ? não podemos ignorar o contexto económico. Sem crescimento, não há Estado Social; sem Estado Social, não há Saúde sustentável. Exige-se ação. Exige-se que se discuta o país real, não o imaginado. Que se reconheça que inovação, digitalização, reorganização dos cuidados e valorização das equipas não são luxos, mas condições de sobrevivência. Priorizar implica escolher e escolher implica assumir custos. A rubrica Políticas com Evidência nasceu para isto: substituir o ruído pela análise, o instinto pela evidência. Pensar com rigor, decidir com coragem e agir com consequência. Este é um até já. Obrigado a todos OS que apoiaram e acompanharam esta jornada! + Tiago Rodrigues Farmacêutico, Mestre em Saúde Pública Tiago Rodrigues