pressmedia logo

OPINIÃO - A NOVA INSÍGNIA CULTURAL DE BRAGA

Correio do Minho

2026-05-05 21:04:40

9 Ideias Antes de mais, e em absoluto respeito pela transparência, vocábulo tão verbalizado nos últimos dias, mas escassamente cumprido, impõe-se que faça desde já uma declaração de interesse: sou amigo de José Teixeira e de toda a sua família, e tenho muito orgulho nessas relações de amizade, nascidas e alimentadas ao longo de muitos anos. Obviamente, e como os leitores compreenderão, tal circunstância não me coloca numa situação de capitis diminutio, ou seja, não me retira a liberdade de poder escrever sobre temas que envolvam actividades daquela família. Acontece que no pretérito dia 25 de Abril, precisamente na data em que se comemoraram 52 anos da “Revolução dos Cravos”, Braga passou a contar com mais um relevante atractivo cultural, o MUZEU Pensamento e Arte Contemporânea dst , um museu desde há muito sonhado, e concretizado, por José Teixeira, num investimento da ordem dos 40 milhões de euros. Penso que o reconhecimento, quer da importância da obra, quer do papel que ela virá a desempenhar, designadamente como insígnia de uma cidade que pretende assumir uma posição de grande centralidade no mapa cultural português e europeu, é absolutamente incontroverso. E há razões robustas para a consensualidade que o novo espaço obteve. Desde logo, por se tratar do primeiro museu de arte contemporânea; depois pelo extraordinário prestígio dos artistas ali representados, o que se reflecte, naturalmente, na qualidade das obras em exposição; fi-nalmente, pela declarada ambição de ultrapassar a normal missão de espaço expositivo para passar a assumir-se também como plataforma de pensamento crítico e de intervenção cultural. Acresce, a este conjunto de razões, o facto de o ponto de partida ter sido um belíssimo projecto do premiado arquitecto bracarense José Carvalho Araújo, que conseguiu colocar a arte da arquitectura em diáloco permanente com as outras formas artísticas que enchem o espaço exposicional. Deste belíssimo trabalho de José Carvalho Araújo, resultou também uma bem conseguida reabilitação do vetusto imóvel onde há anos funcionou o Tribunal de Braga, O que não será de minimizar. Não por acaso, na inauguração do Muzeu, José Teixeira, reconhecidamente um empresário amante de arte e de filosofia, realçou o facto de se tratar de um local de meditação e silêncio, sublinhando que "um museu é um sítio de contemplação, onde mesmo os não crentes podem rezar". Nesse sentido, descreveu este novo espaço como uma "catedral" de silêncio e reflexão, que considerou essencial num mundo acelerado como aquele em que vivemos. "Sem arte não existe vida", disse ainda, colocando grande ênfase na importância da arte para a existência plena, e assumindo a criação do museu como um "dever social", antes de explicar que, na actual conjuntura, "a ignorância é pior do que a pobreza". é também por essa razão que a missão do Muzeu não se esgota na exposição de arte, antes constitui também um espaço comunitário para o exercício da política, da liberdade e da imaginação. Colocar Braga no mapa turístico mundial constitui um dos assumidos propósitos do mecenas desta nova unidade cultural que não hesita em apontar o caso de Bilbau, com o seu museu Guggenheim, como exemplo para a ambição deste projecto. Do ponto de vista de conteúdo, a verdade é que o Muzeu alberga obras de um extenso rol de artis-tas renomados como Picasso, Anselm Kiefer, Paula Rego, Helena Almeida, Pedro Cabrita Reis, Ana Vidigal, Vhils, alvaro Lapa, Fernanda Fragateiro, angelo de Sousa, Rui Chafes, Eduardo Batarda, Alberto Péssimo, Luis Coquenão, entre tantos outros. Aliás, a obra do alemão Anselm Kiefer tem particular realce com uma sala permanente que lhe é dedicada, onde estão expostas oito obras de grande dimensão que reflectem sobre a memória histórica, a responsabilidade ética, e o diálogo entre o passado e o presente. Desse ponto de vista, a sua monumentalidade e o apelo à reflexão sobre a história, encaixa como uma luva no tema radical recuperado do movimento de Maio de 68, “sejamos realistas, exijamos o impossível”, e, de certo modo, assume-se como um dos pilares deste espaço de arte contemporânea. Reconhecer mais esta acção mecenática de José Teixeira e do grupo empresarial que ele dirige com grande sucesso, a DST, é apenas um acto de justiça. Aliás, o próprio Presidente da República, que presidiu à inauguração, salientou precisamente que este museu é um exemplo bem representativo de responsabilidade social. António José Seguro fez questão de valorizar o investimento do sector privado (dstoroun) na cultura e na comnidade não deixando de lembrar a importância da arte na vida. Uma vida sem arte não pode ser celebrada em pleno", disse o Chefe de Estado, sublinhando a arte contemporânea como essencial para a vivência plena e para o desenvolvimento humano. Nesse sentido, destacou igualmente a importância do Muzeu como um espaço onde a cidade "conversa consigo própria", fomentando o pensamento crítico, a reflexão e a participação cultural. A aproximação da cultura à comunidade, tornando a arte mais acessível à população, como acontece com esta acção de José Teixeira, foi outro dos aspectos que mereceu particular reconhecimento por parte do Presidente da República. Em conclusão, pode-se afirmar que Braga passou a ter o seu primeiro museu de arte contemporânea, não um museu ao estilo tradicional, mas um espaço criado para fruir arte mas também para apreciar e participar em outras áreas da criação, e para desenvolver o pensamento e exercitar o espírito crítico. Jornalista (0 autor escreve em total desacordo e intencional desrespeito pelo dito Acordo Ortográfico, declarando-se objector do mesmo). JORGE CRUZ