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ANTES, APÓS E AGORA, NÚMEROS PARA PENSAR

Brados do Alentejo

2026-05-05 21:06:06

PROFESSOR Portugal tem vivido profundas mudanças, na sua maioria com efeitos positivos e dos quais nos devemos orgulhar. Escolhi comparar dados relativos a diferentes momentos da nossa história contemporânea: 1960, o ano anterior ao início da guerra colonial, com o país ainda sob a ditadura de Salazar; 1986, já em democracia, no ano da adesão à CEE; e 2024, o último ano com dados estatísticos disponíveis. A população residente variou entre 8,8 milhões, em 1960, e 10,8 milhões, em 2024, crescendo quase sempre ao longo deste período e diminuindo apenas com alguma expressão na segunda metade da década de 60. Em 1960, existiam 2,6 milhões de pessoas com até 14 anos e 715 mil com mais de 65 anos. Em 2024, os números mostram uma realidade profundamente diferente, marcada pelo envelhecimento da população: 1,4 milhões até aos 14 anos e 2,6 milhões com mais de 65 anos. Os nados-vivos e, em consequência, a taxa bruta de natalidade (nascimentos por mil residentes) desceram de forma muito signifci ativa desde 1960: 214 mil nascimentos (24 ), passando para 127 mil em 1986 (13 ) e 85 mil em 2024 (8 ). A taxa de mortalidade infantil (número de crianças que morrem antes de completar um ano por cada mil nascimentos) registou uma evolução extraordinária. Em 1960 era de 78 ; em 1986, após a cria - ção do SNS, baixou para 15,8 ; e em 2024 situou-se nos 3 . A idade média da mãe no nascimento do primeiro filho e o número médio de filhos por família também sofreram alterações profundas: de 25 anos e 3,2 filhos, em 1960, passou-se para 30,5 anos e 1,4 filhos, em 2024. Registo quer a diminuição expressiva dos nascimentos, quer o facto de as mulheres serem mães cada vez mais tarde. A esperança média de vida à nascença (número médio de anos que uma pessoa pode esperar viver desde o nascimento) rondava os 64 anos em 1960. Em 1986 subiu para 74 anos e, em 2024, situa-se nos 82 anos. As pensões de velhice, aposentação, reforma, invalidez ou sobrevivência pagas pela Segurança Social e pela Caixa Geral de Aposentações passaram de 120 mil, em 1960, para 2,2 milhões, em 1986, atingindo 3,7 milhões, em 2024. Também os gastos do Estado em Saúde e Proteção Social, em percentagem do PIB, revelam bem a transformação do país. Em 1960, a despesa em Saúde representava apenas 1% do PIB, enquanto a Proteção Social não abrangia a universalidade da população e tinha expressão reduzida quando comparada com os países da Europa Ocidental. Em 2024, a despesa em Saúde representou 6,6% do PIB e a Proteção Social 17,1% do PIB. Estamos hoje confrontados com problemas muito complexos, que exigem compromissos reais e alargados para poderem ser ultrapassados. Apesar de os estudos apresentarem números, avanços e riscos, demasiadas vezes a sociedade em geral não lhes atribui a devida importância, optando por escolhas de curto prazo. Essa falta de visão tem permitido que muitas destas questões continuem a agravar-se, atingindo proporções cada vez mais exigentes para a sua resolução. Ficam, por isso, algumas questões para reflexão: Teremos políti- cas laborais e sociais suficientemente incentivadoras da natalidade para rejuvenescer a população? Perante a dureza do desequilíbrio geracional, como assegurar a sustentabilidade da Proteção Social? JOSÉ ALBERTO FATEIXA