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PROGRAMA DOS ANOS 60 MUDOU NASCIMENTOS NA REGIÃO - ENTREVISTA A SÍLVIA SOARES

Diário de Notícias da Madeira

2026-05-05 21:06:07

ENTREVISTA PROGRAMA DE PROTECÇÃO MATERNO-INFANTIL DEU MAIS CONDIçôES AOS PARTOS ANDREIA DIAS FERRO aferro@dnoticias.pt No data em que se celebra o Dia Mundial da Parteira, fomos conhecer melhor a implementação do programa de Protecção Materno-Infantil, implementado em 1960, que veio dar mais dignidade às mães, aos recém-nascidos e lugar às enfermeiras puericultoras, que substituiriam as parteiras curiosas, ou seja, sem formação. Sílvia Soares é enfermeira e realizou um trabalho sobre o papel das primeiras enfermeiras “Parteiras Puericultoras” na Madeira. Como é que nós podemos descrever os partos na Madeira antes da implementação do Programa de Protecção Materno-Infantil? Os partos na Madeira até aos anos 1960 e tais faziam-se em casa, mesmo no Funchal, porque só havia o Hospital da Misericórdia, que era o Hospital do Monte, um lugar onde as grávidas iam somente quando estavam doentes, quando tinham apresentações da criança que não eram normais, ou então porque tinham patologias ou outras coisas. Se não, mesmo no Funchal, o nascimento era em casa. Podíamos dizer que as crianças nasciam em casa, que era uma normalização, uma aceitação para a população e não queriam sequer pensar no hospital, que para elas era uma coisa não natural de forma de nascimento. Estes partos que aconteciam em casa tinham acompanhamento por parte de alguém que tinha algum conhecimento básico? Não. Os partos em casa, normalmente, eram feitos por parteiras curiosas, sem formação. Era um mistério que era passado entre elas. As mais novas acompanhavam as mais velhas e iam aprendendo. Especialmente nas zonas rurais, isso era quase que feito sistematicamente, até porque a acessibilidade para o Funchal era terrível: levavam inúmeras horas para chegar ao Funchal. Por exemplo, no Curral das Freiras a ligação rodoviária foi após 1960. Antes disso ou era por barco ou era por redes, era uma coisa dramática e havia muita dispersão das famílias nas zonas rurais, que viviam também muito em isolamento. Era nessa fase que havia o recurso à medicina popular, em que as parteiras intervinham, mas com muitas crendices, com muitas superstições, com muitas mézinhas... elas faziam o que podiam, não havia mais ninguém, não havia ninguém que as ensinasse, era o que havia na altura. Estas parcas condições tinham influência também na mortalidade infantil? Tinham influência na mortalidade infantil, porque na contextualização da Madeira, as famílias viviam muita miséria. Para além dos problemas da acessibilidade, havia toda essa situação da miséria ligada à mortalidade infantil. Era muito interessante que, no primeiro ano após o nascimento, enquanto as mães amamentavam, as crianças morriam pouco. Depois, quando as mães deixavam de amamentar, o que é que elas faziam? Davam leites como o leite de cabra, leite de vaca, o que tinham à mão, com diluições que não deveriam ser feitas. Muita da parte da mortalidade infantil devia-se a doenças gastrointestinais, por erros alimentares, que davam depois transtornos nutritivos, raquitismo, debilidades, difterias graves: as crianças ficavam fracas, tinham diminuição de resistência a outro tipo de doenças, e muitas vezes com infecções respiratórias e acabavam por morrer. Havia também doenças infecciosas, porque a cobertura vacinal ainda não era ext. tensível a toda a população e isso também acrescentava estas questões da mortalidade infantil. Por outro lado, só a partir de 1974 é que se começou a falar de saneamento básico, das acessibilidades, que depois vieram ajudar um bocadinho esta questão das assimetrias em termos de acessibilidade. De outra forma, não havia nem enfermeiras qualificadas e nem médicos. Havia muito poucos médicos no início da década dos anos 90: estes eram normalmente ingleses, havia uns médicos madeirenses, formados em Coimbra e que depois iam para Madeira, e alguns formados, que houve uma escola médico-cirúrgica no Funchal, que acabou em 1910, mas daí também vieram alguns médicos com formação. No entanto, nenhum deles era obstetra. Eram médicos que faziam de tudo nas comunidades onde intervinham. Só a partir de 1964 é que veio o doutor Nélio Sílvia Soares, enfermeira e mestre em Comunicação em Saúde Mendonça, que trabalhava em Lisboa, na maternidade Alfredo da Costa, e foi convidado a integrar o Programa de Protecção Materno-Infantil, juntamente com as enfermeiras que vieram também de lá, e depois as nossas. Este programa de protecção materno-infantil consistia em quê? Quando é que se começou a pensar neste plano? o Programa de Protecção Materno-Infantil começou a ser pensado por várias razões.com a melhoria da acessibilidade, com a presença cada vez mais forte dos meios de comunicação social, a divulgação de ideias, o conhecimento do que se fazia ônos outros países, veio levantar as questões que as pessoas começaram a ler, começaram a ouvir: questões ligadas aos problemas sociais, aos problemas da mortalidade ôno infantil e houve um acrescento enorme da preocupação em saber lidar com isso e mudar, tentar diminuir a mortalidade do infantil. Também o Estado Novo teve aquelas grandes preocupações, já a partir de 1933, com a assistência pública e muito ligado a impulsionar as actividades sociais ôno sentido de proteger a maternidade e a defesa da família. Isto também já os vai lançar a criar a abertura de um caminho para que as coisas fossem evoluindo ôno sentido de dar o apoio à maternidade. Antigamente, esse apoio só se dava no momento do parto. As parteiras até podiam seguir as grávias, mas normalmente não o faziam. Era só na hora do parto que as iam chamar e depois as parteiras curiosas, sem formação, que após o parto também faziam uma visita ônos três ou cinco dias após o parto e depois desligavam-se. As crianças não tinham pediatras, as mães não tinham obstetras, nem enfermeiras, desligavam-se. Esta dimensão [do PPMI] é completamente diferente e começa,se a privilegiar uma atenção às grávidas desde o início da sua gravidez até ao parto. Depois as crianças eram seguidas até o primeiro ano de vida e já com outra implementação, com visitas domiciliárias das enfermeiras, com assistência, que era muito mais abrangente, não era só à mãe e à criança, mas também à família. Como ela entrava ônos meios rurais, isto já no tem-po do programa, ela ensinava, tentava ver quais eram as dificuldades e tentavam ajudar, às vezes tinham dificuldades monetárias e que elas poderiam eventualmente emprestar camas para as crianças, ou qualquer material, ou oferecer medicação, se as mães não tivessem capacidade económica. Quanto à mortalidade infantil, havia preocupações de várias ordens: porque é que as crianças morrem; de ordem moral, como o valor da vida humana nas sociedades ocidentais; a ordem económica, porque, embora possa parecer frio , tínhamos de pensar nas limitações fisicas e mentais de algumas crianças, que representavam um peso para a família e para a sociedade; e de ordem social, pois nessa altura, a emigração na Madeira era muito grande, com muita saída de jovens, pelo que não havia uma renovação da sociedade. Isso trouxe outros problemas: Portugal é dos países no mundo com a população mais envelhecida. Nessa altura, já havia essa preocupação. Quem eram as enfermeiras que integravam este Programa de Protecção Materno-Infantil? As primeiras enfermeiras que vieram aqui, foram formadas pelo Instituto Maternal, que era uma organização em Lisboa, que não tinha um espaço fisico, mas que foi integrado na Maternidade Alfredo da Costa, que congregoul várias maternidades de Lisboa e também dava apoio às maternidades do Porto. A preocupação era efectivar e ordenar a prestação da assistência médico-social à maternidade e à primeira infância. Outro objectivo era combater as causas da degenerescência física e crimes contrários aos deveres naturais e normais da procriação, ou seja, relacionados com o aborto. E tinha como fim, também, sempre assistir ao parto no domicílio e, por isso, o parto ainda continuava a ser em casa. Na altura, em 1943, havia uma dispersão tanto no continente, como na Madeira, dos prestadores de cuidados: não havia comunicação, cada um fazia à sua maneira e, por isso, só com o apoio do Governo se congregou todas essas organizações para uma só e a Neonatologia era igual para todos. Acho que isso foi muito interessante. Por outro lado, começaram a promover estágios de aperfeiçoamento dos médicos e, pela primeira vez, organizar e dirigir um curso especializado de enfermeiras puericultoras. Essa era uma formação que não havia. Apenas havia um curso de enfermeiras-parteiras na Universidade de Coimbra, mas era para mulheres quie ERAM POPEIAS faziam partos na comunidade, mas que não tinham curso de enfermagem. Só o Instituto Maternal congregoul todas estas situações. Os objectivos eram preparar tecnicamente os profissionais da área de cuidados materno-infantis e, mais uma vez, consideravam que a assistência não devia limitar-se às poucas horas do nascimento, mas abranger todos os aspectos da gravidez, do puerpério e que a mãe todos os apoios. No caso concreto do Instituto Maternal da Madeira, era uma ampla penetração nos meios rurais, porque era lá que se reuniam as pessoas mais pobres, as pessoas com menos capacidade em termos de literacia e, também, as pessoas com menos acessibilidade aos cuidados de saúde, que estavam todos concentrados no Funchal. Podemos então afirmar que não foi fácil a implementação deste programa? Eu realizei uma entrevista ao engenheiro Rui Vieira, que era presidente da Comissão Distrital de Assistência, e que, juntamente com O dr. Carvalho da Fonseca, do Instituto Maternal de Lisboa, acompanhados pelo médico da OMS, dr. J. G. Mettrop, fizeram a implementação do programa. De referir que, também a Organização Mundial de Saúde levantamento e viu que a mortalidade infantil em Portugal era terrível e precisavam ser tomadas medidas imediatas, de apoio a esta situação, para reverter a mortalidade infantil. Por isso, eles vieram cá, o dr. Carvalho da Fonseca fez um levantamento, foi ao Hospital dos Marmeleiros [Hospital da Misericórdia], para ver se havia enfermeiras que, mesmo sem serem especialistas, já prestavam cuidados às mães e às crianças. é interessante, porque ele diz que, na altura, o hospital era quase dominado, na prestação de cuidados de enfermagem, por religiosas, eram freiras, e muitas delas não tinham formação. O que eles queriam era, se houvesse já enfermeiras com alguma experiência, essas seriam acarinhadas e seriam, depois, convidadas para fazerem a especialidade em Lisboa. Por outro lado, havia dois cursos de enfermagem na Escola São José de Cluny: um dirigido a parteiras, ajudantes de enfermagem, e o curso geral de enfermagem, que tinham âmbitos diferentes. Dessas enfermeiras, a irmã Madalena Lacerda, que era a directora, seleccionava aquelas que tinham mais competências para continuarem os estudos e irem para Lisboa tirar a especialidade. Faltava formação para que o plano fosse bem implementado... Não havia especialistas. Mesmo em Lisboa não havia. Foi o Instituto Maternal que começoul toda esta situação, enquadrado no Programa Materno-Infantil. Entretanto, havia já enfermeiras do Instituto de Oncologia, da Escola Técnica de Lisboa, que já tinham essa formação e foram elas, especialmente as que estavam a acabar os cursos, que vieram trabalhar para a Madeira. Tinham de cumprir dois anos cá e para isso tinham ajudas de custo, alojamento, ajudas nas viagens e para férias. Além disso, era,lhes dada carta de condução, para que conseguissem deslocar-se de carro. Foram elas que começaram a impulsionar até que os lugares fossem ocupados pelas enfermeiras madeirenses que tinham ido tirar a formação em Lisboa. As enfermeiras começam cá a chegar já com formação, no entanto os partos continuam a ser feitos em casa? Sim, até porque O Instituto Maternal e o Programa de Protecção Materno-Infantil priorizavam o parto em casa. Quanto é que se começou a fomentar o parto em contexto hospitalar? Muda já depois da Autonomia, em 1974, mas não logo de imediato. Aliás, em 1976 houve a abertura da maternidade no hospital, que na altura que se chamava Hospital Cruz de Carvalho, e já tinham lá os médicos também formados em obstetríciae o parto começou a ser quase totalizado em meio hospitalar, com muito mais intervenção do que os outros partos. Isto era uma forma de nascer com muito mais medicação, com internamento e recursos a outras técnicas que não eram utilizadas. Nós notamos, claramente, uma evolução nos cuidados maternos, mas actualmente parece que há um aumento dos partos em casa, ou pelo menos do interesse em fazer um parto em casa. Como é que olha para essa ideia? A minha formação não é em obstetrícia. Eu fiz este trabalho porque ouvia as minhas colegas de saúde pública a falar sobre estas situações, e que eram verdadeiras histórias, era uma epopeia dos partos no domicílio e como é que elas encontravam as famílias. As novas enfermeiras eram, de facto, novas, com cerca de 20 anos. Antes, os partos eram feitos por parteiras curiosas, normalmente casadas ou viúvas, com mais experiência de vida e aceites pela população [..]. é importante também referir que o PPMI, aqui na Madeira, teve a implementação de 13 dispensários à volta da ilha e duas casas de natividade, que não podiam ser chamadas maternidades pois não tinham acompanhamento à maternidade. Eram sítios onde estavam enfermeiras que poderiam dar mais ajudas, porque o número de enfermeiras não era suficiente para fazer os partos todos na ilha E se as grávidas não estavam internadas õnos dispensários, as outras parteiras sem formação continuavam a fazer, havia uma coexistência entre as enfermeiras puericultoras, com as outras enfermeiras. Quanto à minha visão do parto ao domicílio, acho que se for uma gravidez normal, pode acontecer, desde que sempre acompanhada por profissionais: enfermeiros e médicos. No caso de situação de emergência, tem de haver a possibilidade de rápida transferência para o hospital. Só nessas condições pode ocorrer um parto em casa. Além disso, deve haver uma avaliação das condições das casas também, porque se não tiver condições em termos de higienização, de pessoas que lá vivem pois existem situações familiares complexas, ligadas a consumos de estupefacientes isso tem que ser automaticamente no hospital. Temos de pensar em duas vertentes: uma é a segurança da mãe e a outra é a segurança da criança. Nós nunca podemos separar, não é só a vontade da mãe de ter a criança em casa e que não queira intervenção médica, não pode ser só essa vontade, tem que ser também assegurada a segurança da criança. Sílvia Soares destaca impacto da protecção materno-infantil no acompanhamento às grávidas, na redução da mortalidade de bebés e na introdução de enfermeiras puericultoras P.24E25 PROGRAMA PRETENDIA UMA VASTA IMPLEMENTAçAO NOS MEIOS RURAIS [PARTEIRAS] RECORRIAM A MEDICINA POPULAR, COM CRENDICES E MéZINHAS Sílvia Soares realizou trabalho de investigação sobre as parteiras e as enfermeiras puericultoras na Madeira. FOTOS DR ANDREIA DIAS FERRO