pressmedia logo

MAIS DE METADE DOS ALUNOS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA JÁ PONDERARAM ABANDONAR OS ESTUDOS POR SE SENTIREM “PSICOLOGICAMENTE ESGOTADOS”

Expresso Online

2026-05-05 21:06:08

Um estudo da Associação Académica da Universidade de Lisboa revela que apenas 5% dos estudantes nunca tiveram crises de ansiedade e que há problemas “significativos” de sono e desmotivação. Mais de metade considera que a situação financeira afeta negativamente a saúde mental. A maioria desconhece o cheque-psicólogo e, entre esses, poucos já o utilizaram Mais de metade dos estudantes da Universidade de Lisboa já ponderaram desistir da faculdade por se sentirem “psicologicamente esgotados”, indica um estudo sobre saúde mental promovido pela Associação Académica, apresentado esta terça-feira. De acordo com os resultados, a que a Expresso teve acesso, 56% dos inquiridos dizem já ter considerado desistir por essa razão e 44% afirmam “nunca” ter ponderado isso. Isto significa, segundo o estudo, “que mais de metade da amostra já experimentou um nível de desgaste suficientemente elevado para pensar em abandonar o percurso académico”. Entre os bolseiros, a proporção é ainda mais elevada: quase 60% admitem já ter ponderado desistir, o que poderá “sugerir uma maior vulnerabilidade emocional ou uma maior pressão acumulada entre estudantes com apoio social”. O inquérito, que reuniu 503 respostas e decorreu entre 19 de fevereiro e 6 de março, através de questionário online, avaliou várias dimensões do bem-estar psicológico. A amostra é maioritariamente feminina e composta sobretudo por jovens entre os 18 e os 23 anos, com maior peso da Faculdade de Letras (27%) e da Faculdade de Direito (22%), estando, ainda assim, representadas várias outras escolas da Universidade de Lisboa. Apenas 5% dizem nunca ter tido crises de ansiedade Os dados “revelam sinais relevantes de sofrimento psicológico entre os estudantes”, refere o estudo. Apenas 5% dizem nunca ter tido crises de ansiedade, descritas como “taquicardia, sudorese, dificuldades respiratórias, tremores, pensamentos destrutivos”. Quatro em cada dez estudantes afirmam senti-las “frequentemente”, 35% “raramente” e 3% dizem vivê-las “sempre”, o que “confirma que a ansiedade é uma experiência comum na amostra”. A maioria (83%) refere sentir-se bem física e psicologicamente apenas “às vezes”, apontando para “uma perceção de bem-estar instável e não permanente”. No sono, 41% indicam dificuldades em dormir ou acordar a horas “às vezes” e 34% “sempre”, “revelando que os problemas de descanso e regularidade são muito frequentes”. Quanto à desmotivação, cerca de 72% dos estudantes inquiridos admitem sentir-se “às vezes” desinteressados ou desmotivados nas tarefas diárias e um em cada cinco estudantes diz sentir-se “sempre” assim, o que “sugere um nível elevado de desgaste emocional”. A vontade de isolamento é igualmente “significativa”: 44% referem senti-la “frequentemente” e 40% “raramente”, apontando para “oscilações no relacionamento social e no desejo de afastamento”. A maioria dos estudantes (71%) considera que o seu desempenho académico piorou devido ao estado da saúde mental e 64% dizem que a própria saúde mental se deteriorou em consequência dos resultados académicos. Para 72% dos inquiridos o método de avaliação da faculdade onde estudam tem “efeitos nocivos” no seu bem-estar psicológico. Estes resultados, diz o estudo, “reforçam a ideia de que existe um impacto real do stress académico na saúde mental dos inquiridos”. Apesar disso, a maioria (62%) considera o estudo e a faculdade “prioritários em relação à saúde mental”, o que “sugere uma forte valorização do percurso académico, mesmo quando isso possa implicar algum sacrifício do bem-estar psicológico”. Pressão financeira agrava o mal-estar A situação económica dos estudantes surge como outro fator relevante. Mais de metade (54%) considera que a sua situação financeira afeta negativamente a saúde mental: 20% dizem que afeta e 34% “moderadamente”. Entre os bolseiros, esse valor sobe para 66%, com 41% a apontarem impacto “moderado” e 25% impacto direto. A relação entre dificuldades económicas e bem-estar psicológico é sublinhada por Gonçalo Osório de Castro, presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa. “É de relevar que 50% dos estudantes consideram que as suas situações financeiras impactam negativamente a sua saúde mental. Não podemos, portanto, dissociar a problemática habitacional e do custo de vida da questão psicológica”, afirma ao Expresso. Os custos associados à frequência universitária são, efetivamente, relevantes, sobretudo para os estudantes deslocados. Destes, 35% dizem gastar mais de 800 euros por mês, 31% entre 600 e 800 euros e 18% entre 400 e 600 euros. Apenas 15% referem despesas inferiores a 400 euros mensais. Já no caso dos estudantes não deslocados, o cenário é distinto: 47% dizem gastar menos de 400 euros por mês, 26% entre 400 e 600 euros, 14% entre 600 e 800 euros ou mais de 800 euros. “Estes valores indicam que uma parte significativa dos estudantes vive com orçamentos reduzidos, o que traduz alguma pressão financeira no quotidiano”, refere o estudo. Quanto ao local de residência, a maioria dos estudantes (69%) reside com a família durante o período letivo, um fator que “pode funcionar como proteção financeira e emocional”. Ainda assim, 16% vivem em quarto arrendado, 8% em residência universitária e 7% em casa arrendada. O transporte público é o principal meio de deslocação (70%), e os tempos de viagem são, em muitos casos, prolongados: 31% demoram entre 30 minutos e uma hora, e 27% entre uma hora e uma hora e meia. Apenas 11% chegam à faculdade em menos de 15 minutos. Mais de metade dos alunos não conhece o cheque-psicólogo No acesso a cuidados de saúde mental, o estudo destaca o desconhecimento do chamado cheque-psicólogo, que garante consultas gratuitas a estudantes do ensino superior: 65% dos inquiridos afirmam não conhecer esta medida, “o que mostra uma baixa literacia sobre este apoio”. Entre os 35% que dizem conhecê-la, apenas 9% já a utilizaram. Apesar disso, 66% dos inquiridos referem já ter recorrido a apoio psicológico. A via mais comum é o setor privado, responsável por 64% dos casos, muito acima do SNS (9%) e das respostas disponibilizadas pelas universidades (11%), “o que evidencia uma forte dependência de recursos pagos”, sublinha o estudo. Quanto ao acesso, 56% dizem “nunca” ter dificuldades em conseguir consulta de psicologia ou psiquiatria, mas 45% relatam obstáculos - 32% “sempre” e 13% “às vezes”. Mesmo entre os que têm despesas regulares com saúde mental (38% da amostra), 29% admitem dificuldades em obter consultas ou medicação, “mostrando que o acesso continua a ser uma barreira concreta”. Na conclusão, a associação académica defende que os dados “mostram que a saúde mental no ensino superior tem de ser tratada como um problema estrutural que afeta de forma direta a permanência, o desempenho e o bem-estar dos estudantes”. O estudo confirma “níveis elevados” de mal-estar psicológico, associados, em parte, à “precariedade financeira e às condições de vida”, e alerta para fragilidades na resposta pública. “É ainda insuficiente, sobretudo quando muitos dos apoios existentes dependem de financiamento temporário do PRR, com término previsto para 31 de agosto de 2026”, lê-se. Gonçalo Osório de Castro destaca o esforço recente da Universidade de Lisboa, sublinhando que “o trabalho que tem sido desenvolvido nos últimos anos nesta vertente, com um aumento do número de consultas de psicologia, é extremamente meritório”, mas deixa um aviso. Esta “missão não pode, contudo, ficar hipotecada pela quebra de financiamento do PRR que se avizinha”. Helena Bento Jornalista Helena Bento