SNS EM ´ESTADO CRÍTICO´: DADOS OFICIAIS MOSTRAM MENOS CONSULTAS, MENOS CIRURGIAS E MAIS TEMPO À ESPERA
2026-05-05 21:06:08

Os utentes das unidades públicas de saúde receberam este ano menos cuidados médicos. Até ao final de fevereiro, as consultas nos centros de saúde ou nos hospitais e as cirurgias diminuíram em comparação com 2024 e 2025. Para piorar mais o cenário, aumentaram a lista de espera e a demora cirúrgicas, o trabalho extraordinário e os gastos. O diagnóstico é feito pela Administração Central do Sistema de Saúde Não é nada favorável a evolução recente do estado da Saúde em Portugal. O SNS piorou nas suas áreas vitais face aos dois últimos anos. A análise, de fevereiro, é feita pela Administração Central do Sistema de Saúde e será publicada no Portal da Transparência. O Expresso teve acesso aos números que mostram que a prestação assistencial aos doentes diminuiu nas consultas, incluindo as primeiras; nas cirurgias, programadas e urgentes, ou nos doentes com alta hospitalar. A espera aumentou: há mais inscritos para cirurgia e demora para quem está na lista. Segundo os dados no “Dashborad do SNS , fevereiro 2026”, os cuidados primários somam 5,64 milhões de consultas, menos 6,1% face a fevereiro de 2025 e menos 5,9% do que em 2024. Nos hospitais, o diagnóstico é ligeiramente menos negativo. Foram realizadas 2,42 milhões de atendimentos pelos especialistas, 3,8% abaixo do ano passado, mas 0,5% acima de 2024. Contudo, o quadro agrava-se nas primeiras consultas hospitalares: 650.288, menos 7,3% e menos 4,7%, respetivamente, em comparação com o mesmo mês nos dois últimos anos. Ainda nos hospitais, os doentes que precisam de ser operados estão mais penalizados este ano. As intervenções programadas passaram de 133.349 em 2024 e de 140.833 no ano passado para 130.439 em fevereiro deste ano. Até as cirurgias de urgência (15.986) foram agora menos. Ainda do lado de fora do acesso, a espera aumentou. O número de inscritos subiu para 273.871 - mais 1,4% face ao ano passado e 2,6% além de 2024 , e quem está na lista também fica muito mais tempo à espera. Espera para cirurgia com agravamento de 15% Um total de 84.593 doentes à espera de operação têm já uma demora além do que é clinicamente indicado, revelando um severo agravamento deste indicador, pois em fevereiro dos últimos dois anos a cifra foi de 73.486 (menos 15%) e 75.824 (menos 11,6%). Em resumo, a percentagem de inscritos para cirurgia ainda dentro do intervalo clínico recomendado é de 69,1% quando em 2025 foi de 72,8% e em 2024 de 71,6%. Outro indicador negativo é o número de doentes com alta hospitalar do internamento: 121.813 menos 6,6% e menos 6,5%, respetivamente, face aos dois últimos anos. Mais profissionais e mais trabalho extraordinário Apesar da quebra na assistência, o SNS tem agora mais profissionais e mais trabalho extraordinário. Os recursos humanos totalizam 157.094, mais 2,3% face a 2025 e 4,1% em relação a 2024. Os médicos são 22.122 e os enfermeiros 52.989, ambos com o mesmo reforço, 2,4%, comparando com o ano passado. Nos centros de saúde, há melhoras, embora quase impercetíveis: 85,1% de utentes com médico atribuído, mais 0,1% do que em 2025 e menos também 0,1% do que em 2024. E mesmo com mais profissionais, foram mais as horas extraordinárias. Somaram 2,10 milhões versus 1,94 milhões e 1,91 milhões nos anos anteriores, e sobretudo em trabalho noturno. Contas feitas, o SNS ficou mais caro em fevereiro passado. Os gastos operacionais aumentaram para 2723,6 milhões de euros, note-se, 39,7% acima do valor de 2024. Os pagamentos em atraso e a dívida total a fornecedores cresceram igualmente: para 78,1 milhões no primeiro caso e para 1718,9 milhões de euros no global. O retrato oficial mostra que o SNS está em estado crítico. As áreas positivas estão agora mais limitadas. Verificam-se melhoras na afluência às Urgências hospitalares ou nos gastos com tarefeiros e suplementos, por exemplo. Vera Lúcia Arreigoso Jornalista Vera Lúcia Arreigoso