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DEFESA ABRE OPORTUNIDADES À INDÚSTRIA

Portugal Têxtil Online

2026-05-05 21:06:08

A defesa está a assumir um papel central na estratégia económica e industrial do país, incluindo na ITV, segundo os responsáveis políticos e empresários que estiveram no 6.º Fórum Económico Famalicão Made IN, subordinado ao tema “A melhor defesa é a inovação”. Bernardo Ferrão, Miguel Braga, Pedro Petiz e António Braz Costa [©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão] Na sessão de abertura do evento, realizado em Vila Nova de Famalicão no passado dia 29 de abril, Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional, defendeu que Portugal vive uma oportunidade de uma geração para reequipar as Forças Armadas, reforçar a soberania nacional e envolver as empresas portuguesas no novo ciclo de investimento. Não estamos apenas a comprar equipamentos , apontou. Estamos a investir no ciclo de vida e temos o maior ou o menor envolvimento das empresas portuguesas na produção e ou na manutenção desses equipamentos como um dos critérios mais importantes de cada uma das escolhas , afirmou o governante, sublinhando que a defesa foi colocada na primeira linha das prioridades políticas . O Ministro lembrou que Portugal tem de responder a missões cada vez mais exigentes, da proteção do mar português ao combate aos incêndios, da emergência médica ao transporte de órgãos, passando pela busca e salvamento e pelo combate ao narcotráfico. Portugal precisa de meios técnicos, logísticos e de equipamentos nas Forças Armadas que, em muitos casos, hoje não possuímos, o que compromete a operacionalidade que é exigida ao país , reconheceu. Nuno Melo [©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão]Ao mesmo tempo, Nuno Melo destacou o impacto económico da estratégia, nomeadamente no reforço da indústria, na criação de emprego qualificado e maior integração das empresas nacionais nas cadeias de valor da defesa. Desde 2023 já nasceram mais de 272 empresas na área da defesa , é um crescimento de 40%. Entre 2023 e 2024, são os dados mais recentes, o número de negócios neste setor da defesa aumentou 56% e o emprego 18%. E, entre 2024 e 2025, as exportações crescerão 10%, sendo uma opção de oportunidade internacional que é diversa, num contexto em que as exportações tendem a estagnar , sublinhou o Ministro da Defesa Nacional. Europa tem de investir e ser paciente Paulo Portas, keynote speaker do evento, traçou um retrato exigente do posicionamento europeu no atual cenário internacional, defendendo que o continente vive um momento de transição estrutural. A Europa é uma das três grandes superpotências económicas do mundo, enquanto permanecer unida , afirmou. Contudo, realçou, por responsabilidade próprias, não é uma das grandes superpotências geopolíticas . Para o antigo Ministro da Defesa, este desequilíbrio resulta de décadas de investimento reduzido em defesa e de uma leitura estratégica errada. A Europa acreditou durante muito tempo numa ideia cândida, bizarra e profundamente errada: a ideia de que há paz sem defesa. É exatamente o contrário , sustentou. O mundo, referiu, está a abandonar um sistema baseado em alianças, tratados e regras, que garantiu décadas de estabilidade, para um modelo assente na força. O sistema de potências não se baseia em tratados, não se baseia em convenções, não tem regras. Baseia-se apenas num critério: a força militar e, dentro da força militar, no número de ogivas nucleares , sublinhou. Paulo Portas destacou que o atual sistema internacional está a reorganizar-se em torno de um triângulo de poder composto por EUA, China e Rússia, algo que é absolutamente desvantajoso para a Europa e feito a expensas dela , alertou. Paulo Portas [©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão]Uma das grandes mudanças prende-se com a evolução da relação transatlântica. É a primeira vez, pelo menos desde 1917, que um Presidente dos Estados Unidos tem uma nítida preferência pela Rússia. Não houve outro e creio que não haverá outro , acredita. Também por isso, Paulo Portas defendeu prudência estratégica. A política externa não é um reality show permanente , ressalvou. A política externa é a defesa permanente dos Estados. Não é um ato documentariado a tweets e posts. Não temos de reagir a tudo , acrescentou, apelando a que a Europa compre tempo até às eleições americana e mantenha a coesão da Aliança Atlântica. Na sua intervenção, Paulo Portas enfatizou ainda que a ameaça principal à Europa chama-se Rússia , lembrando o histórico expansionista do país. Se deixarem Putin vencer na Ucrânia, quem garante que ele para , questionou, apontando os países bálticos como potenciais próximos alvos. Prefiro travar Putin na Ucrânia do que discutir, daqui a uns anos, se a NATO vai defender os seus membros , afirmou. Paulo Portas defendeu um reforço claro da capacidade europeia, mas sem rutura com os EUA, até porque uma defesa exclusivamente europeia não me parece viável . O foco esteve ainda na autonomia energética, uma vez que se não temos petróleo, não é boa ideia depender completamente do petróleo dos outros , e na inovação. A Europa saiu do pódio da inovação mundial , salientou, apontando a necessidade de maior ligação entre universidades, empresas e capital. Ainda na área da inovação, o antigo Ministro deixou como aviso que a inteligência artificial melhora a competitividade das empresas. Se perdermos essa corrida, aumentará a distância entre quem a usa e quem não usa . Por fim, indicou, a necessidade de reforçar o investimento em defesa pode ser um motor económico. Esta é a oportunidade de articular base económica e industrial, base tecnológica e Forças Armadas , resumiu Paulo Portas. Indústria têxtil no terreno Numa mesa-redonda sobre “Competitividade e inovação na indústria”, que juntou também Miguel Braga, diretor da área de aeronáutica e defesa do CEiiA, e Pedro Petiz, diretor de desenvolvimento estratégico da Tekever, António Braz Costa realçou que, em relação à indústria têxtil e do vestuário portuguesa, temos o último cluster completo da Europa , dos têxteis técnicos à moda. Para o diretor-geral do CITEVE e presidente do CeNTI há, contudo, uma diferença entre comprar e produzir na Europa. Há quem faça pressão política para que se compre na Europa , mas não faz pressão para que se produza na Europa. E esta é que é a questão António Braz Costa rejeitou, contudo, a ideia de que a ligação entre têxtil e defesa se esgote nos uniformes. Quando pensamos no que tem o têxtil a ver com a defesa, pensamos: uniformes. Não há nada mais errado , frisou. Falamos de camuflagem adaptativa, integração de tecnologias de informação, articulação com equipamentos eletrónicos, compósitos, fibras técnicas e materiais para espaço , enumerou. António Braz Costa [©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão]A lógica, defendeu, deve ser a da performance. O equipamento do militar apeado deve ser encarado como equipamento de desporto, como se fosse para um atleta de alta competição , explicou. António Braz Costa apontou ainda oportunidades em áreas como aeronáutica, drones, compósitos e espaço. Reconhecendo que foi difícil Portugal e a indústria têxtil e do vestuário portuguesa ter o reconhecimento externo, hoje somos considerados. Hoje estamos no pelotão da frente e temos capacidade de desenvolvimento tecnológico para o setor , graças a uma aposta em investigação, desenvolvimento e internacionalização. Para Miguel Braga, o investimento só será transformador se se traduzir em capacidade produtiva instalada no país, alertando para o risco de desperdício caso Portugal não consiga capitalizar este ciclo e dar o próximo passo, passando de fornecedor especializado a integrador industrial. Já Pedro Petiz destacou a mudança estrutural em curso no setor da defesa, hoje cada vez mais assente em tecnologia, dados e sistemas autónomos. Não é um fenómeno conjuntural , referiu o diretor de desenvolvimento estratégico da Tekever, apontando para uma transformação sustentada que deverá prolongar-se no tempo. O responsável defendeu que a nova economia da defesa abre espaço a empresas com forte componente tecnológica, num mercado global onde Portugal pode posicionar-se. Para isso, será determinante reforçar o trabalho em rede entre indústria, centros tecnológicos e parceiros internacionais, num modelo colaborativo que permita desenvolver soluções de maior valor acrescentado. Bernardo Ferrão, Ricardo Pinheiro Alves, António Baptista e Fernando Cunha [©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão]No segundo painel, dedicado às “Oportunidades de negócio na defesa”, Ricardo Pinheiro Alves, presidente da idD Portugal Defence, sublinhou que um euro investido internamente cria emprego, desenvolve a economia e permite desenvolver tecnologia , defendendo uma maior incorporação nacional nos programas de aquisição. O responsável alertou também para a estrutura do setor, composto por cerca de 450 empresas, maioritariamente PME, e reconheceu que a reindustrialização da Defesa será um processo longo. António Baptista, por seu lado, destacou o momento atual como uma oportunidade para recuperar capacidades perdidas, sublinhando que a Europa vive um novo ciclo de investimento após décadas de desinvestimento. O diretor-geral de armamento e património da defesa nacional defendeu ainda uma mudança no papel do Estado, nomeadamente na contratação pública e no financiamento. Compete ao Estado desburocratizar e não atrapalhar a indústria de defesa , declarou, salientando a necessidade de criar condições que facilitem o investimento num setor altamente regulado. Do lado industrial, Fernando Cunha, CEO da Beyond Composite, apontou como fragilidade estrutural a ausência de grandes produtores nacionais. Não temos verdadeiramente prime contractors em Portugal , afirmou, explicando que isso limita a capacidade de negociação e integração nas cadeias de valor internacionais. Para o CEO, o país deve apostar numa estratégia focada, evitando dispersão, defendendo especialização, atração de grandes players internacionais e criação de ciclos completos, do desenvolvimento à produção e manutenção. [©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão] [Additional Text]: Defesa_5maio2026_BernardoFerrão_MiguelBraga_PedroPetiz_AntónioBrazCosta[©Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão] Alexandra Costa