OPINIÃO - O CUSTO INVISÍVEL DE USAR MAL O SISTEMA DE SAÚDE
2026-05-05 21:06:09

O Serviço Nacional de Saúde é, para muitos portugueses, motivo de orgulho. A possibilidade de aceder a cuidados de saúde independentemente da condição económica é uma conquista louvável e valiosa. No entanto, nem sempre pensamos no modo como utilizamos esse sistema e menos ainda nos custos invisíveis de um uso inadequado, muitas vezes sem má intenção. Usar mal o sistema não significa abuso consciente. Na maioria das vezes, trata-se de escolhas feitas por desconhecimento, ansiedade ou dificuldade em perceber o nível de cuidados adequado. Na verdade, em Portugal, ainda é frequente recorrer-se às urgências por problemas que poderiam ser resolvidos em cuidados primários, sobrecarregando serviços e consumindo recursos humanos e financeiros que fariam falta noutros contextos. De facto, cada ida desnecessária às urgências tem um custo invisível: meios de diagnóstico, tempo de profissionais, ocupação de espaços e aumento de tempos de espera, fazendo com que, quando os serviços estão saturados, quem precisa de cuidados urgentes espere mais, com possíveis consequências irreversíveis para a saúde. Outro exemplo é a utilização inadequada do 112. Chamadas em contextos nos quais não existe evidente risco de vida retiram disponibilidade a casos críticos. Do mesmo modo, faltas a consultas e a exames sem aviso prévio representam um desperdício silencioso: tempos reservados que poderiam ter sido utilizados por outros doentes e que ficam irremediavelmente perdidos. Ademais, o uso incorreto do sistema também se reflete na forma como lidamos com a medicação. A automedicação, o abandono precoce de tratamentos ou a procura insistente de antibióticos para infeções víricas são práticas ainda frequentes que, para além de prejudicarem a saúde individual, contribuem para problemas coletivos, como a resistência aos antibióticos, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma das maiores ameaças à saúde pública. Contudo, importa sublinhar que a responsabilidade não é apenas do cidadão. A dificuldade em aceder atempadamente a cuidados de saúde primários, a fragmentação da informação e a complexidade do sistema contribuem para decisões menos acertadas. Neste sentido, a literacia em saúde desempenha um papel central. Saber quando recorrer ao centro de saúde, às urgências ou simplesmente vigiar a evolução dos sintomas é uma competência tão importante como reconhecer sinais de alarme. Usar bem o sistema não significa usar menos, mas usar melhor: escolher o nível de cuidados adequado, cumprir tratamentos, comparecer às consultas e compreender que cada recurso tem um custo, mesmo quando este não aparece numa fatura. O SNS é um bem comum, construído ao longo de décadas, e a sua sustentabilidade depende das pequenas decisões do dia a dia. O custo invisível de usar mal o sistema não se mede apenas em euros. Mede-se em tempo perdido, profissionais esgotados e oportunidades falhadas de cuidar melhor de quem mais precisa. Cuidar do sistema é, no fundo, cuidarmos uns dos outros. Tiago Vaz