O NOVO SÉRIE 7 QUER SER SALA E ESCRITÓRIO
2026-05-05 21:06:13

A limousine de topo da BMW, o Série 7, chega em Julho com tecnologia Neue Klasse, versões eléctricas acima dos 720 km de autonomia e um A limousine de topo da BMW chega em Julho com tecnologia Neue Klasse, versões eléctricas acima dos 720 km de autonomia e um interior desenhado para viajar, trabalhar e ver cinema. A grelha ilumina-se antes de a porta abrir. O chão recebe os ocupantes com um desenho de luz, os puxadores ficam quase escondidos na carroçaria e, por dentro, o habitáculo troca a velha ideia de tablier por uma superfície digital que atravessa visualmente o carro. O novo BMW Série 7 não chega apenas com mais autonomia, mais potência ou mais ecrãs. Chega com uma ambição de ser o primeiro grande ensaio da tecnologia Neue Klasse no topo da gama da marca. A escolha não é inocente. Desde 1977, o Série 7 tem sido o laboratório onde a BMW testa aquilo que, anos depois, chega a modelos mais terrenos. Desta vez, a operação ganha outro peso: a marca descreve esta atualização como a mais extensa da sua história e coloca a berlina de luxo no centro de uma mudança tecnológica que deverá contaminar toda a gama. O carro foi apresentado mundialmente em Abril, no Salão de Pequim, com início de produção e lançamento comercial previstos para Julho. Todas as versões serão produzidas na fábrica de Dingolfing, na Baviera, numa única linha de montagem. Isto diz bastante sobre o momento da indústria automóvel. O topo de gama mede-se pela arquitetura eletrónica, pela capacidade de atualização remota, pela forma como o automóvel lê o condutor, entretém os passageiros, gere energia e continua a evoluir depois de sair do stand. O luxo, nesta nova gramática, deixou de ser apenas aquilo que se vê e se toca. Passou a incluir aquilo que o carro antecipa. Uma presença mais limpa, mas nada tímida O novo Série 7 mantém a escala imponente que sempre fez parte da sua personagem. Mede 5,395 metros de comprimento, 1,95 metros de largura e 1,55 metros de altura, com uma distância entre eixos de 3,215 metros. Continua a ser uma berlina de representação, feita para chegar a hotéis, reuniões, embaixadas, aeroportos e garagens muito bem iluminadas. A diferença está no tratamento visual. A BMW fala numa aparência monolítica, com superfícies mais limpas, uma frente redesenhada e uma leitura específica da nova linguagem da marca para o segmento de luxo. A grelha BMW kidney Iconic Glow surge mais vertical e mais gráfica, os faróis estão divididos em dois níveis e podem receber cristais BMW Individual Iconic Glow. A assinatura luminosa superior é fina, quase arquitetónica; as funções de médios e máximos ficam numa zona inferior, mais discreta, junto às entradas de ar. O resultado é uma frente menos barroca do que a anterior, mas ainda assumidamente teatral. A BMW aparou linhas, mas não aparou presença. O capot recebe um emblema maior, de acabamento mate, encaixado entre vincos novos, e os sensores, câmaras e radares foram integrados na grelha de forma quase invisível, para preservar a limpeza do desenho. De perfil, a carroçaria aposta em superfícies mais depuradas e numa linha de caráter que alonga visualmente o automóvel. Os puxadores estão embutidos nas portas, as jantes começam nas 20 polegadas e chegam, pela primeira vez de fábrica, às 22 polegadas. Na traseira, os farolins foram redesenhados, mais finos e alongados, com componentes técnicos escondidos na zona negra das luzes. É engenharia a fazer o trabalho de arrumação estética. A personalização continua a ser um dos territórios nobres do modelo. A BMW Individual passa a oferecer mais de 500 cores e combinações exteriores, incluindo novas opções bicolores. O destaque vai para o BMW Individual Dual-Finish, uma estreia mundial que junta pintura mate na zona inferior da carroçaria com acabamento metálico aplicado manualmente na parte superior. O processo demora mais de 75 horas em oficina de pintura, quase seis vezes mais do que uma pintura convencional. O interior como sala digital O interior é onde a verdadeira mudança se sente. O novo Série 7 adopta o BMW Panoramic iDrive com BMW Operating System X, uma arquitetura de ecrãs, projeções e comandos físicos que tenta resolver um dos grandes dilemas dos automóveis modernos: como oferecer mais tecnologia sem transformar o condutor num operador de central nuclear. A peça central é o BMW Panoramic Vision, uma projeção ao longo da zona inferior do para-brisas, de pilar a pilar. A informação relevante para a condução surge no campo de visão do condutor, enquanto outros conteúdos podem ser personalizados e vistos pelos passageiros. Acima, o BMW 3D Head-Up Display projeta informação de navegação e assistência de forma espacial, só para quem conduz. Ao centro, surge um ecrã de 17,9 polegadas, com desenho “free-cut”, leitura optimizada e acesso rápido às funções mais usadas. A grande novidade para o lugar da frente é o BMW Passenger Screen, um ecrã de 14,6 polegadas, de série, pensado para o passageiro. Permite streaming, televisão, jogos, música e videochamadas. Para evitar pequenos dramas conjugais e grandes problemas de segurança, uma função de proteção escurece automaticamente o ecrã caso a câmara interior detete que o condutor está distraído. É tecnologia com ligeiro instinto de ama-seca, o que, neste caso, se agradece. Atrás, o BMW Theatre Screen continua a ser o momento mais cinematográfico. O ecrã tátil de 31,3 polegadas com resolução 8K pode transformar a segunda fila numa sala privada, agora também com câmara integrada para videochamadas. Quando o sistema é ativado, as cortinas laterais e traseira fecham-se automaticamente, a luz ambiente adapta-se e o som Bowers & Wilkins com Dolby Atmos assume o papel de sala de projeção. A fronteira entre automóvel e suite executiva fica deliciosamente nebulosa. O som também subiu de fasquia. O sistema Bowers & Wilkins Surround Sound passa a ser de série, com até 18 altifalantes. A opção Diamond Surround Sound chega aos 36 altifalantes, 1965 watts, função 4D e suporte Dolby Atmos. Para quem usa a música como escudo contra reuniões, aeroportos e conversas infelizes, o argumento é sólido. Os materiais mantêm o vocabulário esperado: pele Merino, madeira de poro aberto, cristal, metal, Alcantara e até combinações com lã de caxemira. A BMW fala em cerca de 700 possibilidades de configuração interior. Os bancos multifunções incluem aquecimento, ventilação ativa e massagem; atrás, a opção Executive Lounge permite uma posição reclinada, com apoio de pernas integrado, especialmente pensada para o passageiro do lado direito. A hierarquia do conforto continua bem clara. Eléctrico, híbrido, gasolina e diesel: a BMW ainda não fecha a porta A gama do novo Série 7 mostra a estratégia “technology open” da BMW em pleno funcionamento. A marca não aposta numa única resposta. Oferece versões totalmente eléctricas, híbridas plug-in, gasolina mild hybrid e diesel, embora a disponibilidade varie consoante os mercados. No centro da atenção está o novo BMW i7, agora com células cilíndricas da sexta geração BMW eDrive, integradas numa arquitetura Gen5 atualizada. A bateria de alta tensão passa a ter até 112,5 kWh líquidos, permitindo uma autonomia superior a 720 quilómetros WLTP nas versões i7 50 xDrive e i7 60 xDrive. A potência de carregamento rápido sobe para 250 kW, o que permite passar de 10% a 80% em 28 minutos. Em dez minutos, as versões i7 50 xDrive e i7 60 xDrive podem recuperar até 235 quilómetros de autonomia. A versão de entrada elétrica, BMW i7 50 xDrive, tem 455 cv, tração integral elétrica e acelera dos 0 aos 100 km/h em 5,5 segundos. A autonomia varia entre 591 e 728 quilómetros WLTP. Acima surge o i7 60 xDrive, com 544 cv, 745 Nm de binário, 0-100 km/h em 4,8 segundos e autonomia entre 581 e 727 quilómetros. No topo elétrico está o i7 M70 xDrive, com 680 cv, até 1100 Nm quando ativadas as funções Launch Control ou M Sport Boost, 0-100 km/h em 3,8 segundos e autonomia entre 566 e 686 quilómetros. Para quem ainda gosta da combustão com boas maneiras, a gama inclui o BMW 740 xDrive, com motor de seis cilindros em linha a gasolina, tecnologia mild hybrid de 48V, 400 cv e 580 Nm. Cumpre os 0-100 km/h em 5,1 segundos. O BMW 740d xDrive, com lançamento previsto para Novembro de 2026, recorre também a um seis cilindros em linha, neste caso diesel, com 313 cv, 670 Nm e consumo anunciado entre 7,2 e 6,5 l/100 km. As versões híbridas plug-in chegam igualmente em Novembro de 2026. O BMW 750e xDrive combina motor a gasolina de seis cilindros com motor elétrico para um total de 489 cv e 700 Nm. A autonomia elétrica situa-se entre 70 e 82 quilómetros WLTP, com carregamento AC até 11 kW. Já o BMW M760e xDrive sobe para 612 cv e 800 Nm, acelera dos 0 aos 100 km/h em 4,2 segundos e pode circular em modo elétrico até 140 km/h. A gestão de carregamento também ganhou inteligência. O sistema pode planear rotas com paragens optimizadas, preparar a bateria antes de uma carga rápida e guardar perfis para diferentes pontos de carregamento. Em casa, o automóvel pode ser programado para carregar nas horas em que a eletricidade é mais barata. O luxo moderno, afinal, também sabe consultar tarifas. Conduzir, ser conduzido e deixar o carro ajudar A BMW insiste numa ideia importante: o Série 7 deve continuar a agradar tanto a quem conduz como a quem é conduzido. A suspensão pneumática adaptativa de dois eixos é de série, com amortecedores controlados eletronicamente em cada roda. A direção ativa integral e o controlo ativo de rolamento surgem como opções para quem quer uma limousine com reflexos menos solenes. As versões M Performance recebem afinações específicas, detalhes de design próprios, travões M Sport e uma leitura visual mais musculada. A BMW não abdica da sua velha assinatura dinâmica, mesmo num automóvel cujo banco traseiro parece pedir champanhe, relatórios trimestrais e silêncio. Nos sistemas de assistência, o novo Série 7 adopta a lógica BMW Symbiotic Drive. A ideia não é substituir o condutor, mas criar uma colaboração mais natural entre pessoa e máquina. O Motorway Assistant permite condução sem mãos em auto-estrada até 130 km/h, onde legalmente disponível, com mudanças de faixa automatizadas após confirmação visual do condutor. O City Assistant, com introdução progressiva, pretende alargar esse apoio à cidade, ajudando em mudanças de direção, semáforos, rotundas e mudanças de faixa urbana. A BMW mantém estes sistemas no nível 2 de automação SAE, o que significa que o condutor continua responsável. A diferença está na forma como o carro aceita intervenções humanas sem desligar imediatamente a assistência. Pode-se acelerar, travar ou corrigir a direção sem quebrar a cooperação. O automóvel não se ofende. Já é qualquer coisa. O estacionamento também foi revisto. O Park Assist passa a ser de série, com deteção de lugares e planeamento de manobras apoiados por inteligência artificial. O sistema pode ser ativado diretamente no volante multifunções e, com o Parking Assistant Professional, algumas manobras podem ser comandadas à distância através da aplicação My BMW. Sustentabilidade sem perder escala Num automóvel desta dimensão, falar de sustentabilidade exige cuidado. Não se transforma uma limousine de mais de cinco metros num manifesto franciscano apenas porque recebe baterias novas e materiais reciclados. Ainda assim, a BMW procurou reduzir o impacto do novo Série 7 ao longo do ciclo de vida, com maior recurso a materiais secundários, energia renovável na produção e verificação da pegada carbónica por entidades externas. No caso do i7, as células de sexta geração recorrem a eletricidade de fontes renováveis no processo de fabrico e incluem matérias-primas secundárias como lítio, cobalto e níquel. A partir de 2026, as jantes em liga leve do BMW i7 passam a integrar 70% de alumínio secundário. A produção em Dingolfing recorre a energia renovável, incluindo uma instalação fotovoltaica de 100 mil metros quadrados no telhado e uma central de biomassa. O ponto mais interessante talvez esteja menos na proclamação ecológica e mais na tentativa de tornar a eficiência parte do sistema: baterias mais densas, carregamento mais rápido, gestão energética inteligente, integração no mercado elétrico, atualizações remotas e uma arquitetura eletrónica preparada para durar mais tempo. No luxo automóvel, a longevidade tecnológica começa a ser tão relevante como a qualidade do couro. O novo BMW Série 7 é uma limousine de luxo, sim. Mas é sobretudo uma declaração sobre a direção da marca. A BMW usa o seu automóvel de topo para mostrar como pretende conciliar prazer de condução, eletrificação, software, assistência inteligente e personalização artesanal. A receita tem muito ecrã, muita luz, muita potência e alguma audácia formal. Também tem uma ambição evidente: provar que a tecnologia não precisa de arrefecer o luxo, desde que seja bem coreografada. A pergunta que fica é simples: até que ponto o cliente tradicional do Série 7 quer tanta vida digital dentro do carro? A resposta talvez esteja no próprio segmento. Quem compra uma grande berlina de representação já não procura apenas transporte. Procura uma extensão móvel da casa, do escritório, da sala de cinema e da identidade pessoal. O novo Série 7 aceita esse papel com convicção germânica e uma certa vaidade luminosa. No fim, continua a ser um automóvel para chegar. Mas agora quer também projetar, carregar, entreter, assistir, atualizar-se e antecipar. A velha limousine ganhou sistema operativo. E, ao que parece, gostou. Rita Iberico Nogueira