DEVOLVAM O JÚLIO DE MATOS!
2026-05-05 21:06:17

Formei-me como psiquiatra no Hospital Júlio de Matos. Quando lá cheguei era já um hospital histórico, que se dizia ir encerrar em breve , “já fecharam o Miguel Bombarda. O Programa para a Saúde Mental obriga a que fechem agora o Júlio, o Magalhães Lemos e o Sobral Cid”. Foi das primeiras coisas que me disseram quando escolhi o hospital , “já não deves acabar lá o internato”. Mais de 10 anos depois, o Júlio lá continua. E eu lá continuo a passar no Júlio de vez em quando para saber como evoluem as coisas e quando se consuma de vez o tão proclamado encerramento. Numa dessas passagens pelo hospital, fui informado de que o INFARMED terá solicitado , para além do espaço dentro do hospital que já lhe foi cedido , mais 3 pavilhões. A estratégia parece simples: à medida que se for retirando os doentes de alguns dos pavilhões, esses pavilhões são atribuídos a instituições que os ocupem. Parece uma estratégia perfeita para aproveitar o espaço de um hospital que tem de ser encerrado. O hospital foi concebido no início do séc. XX para servir de forma direta os doentes psiquiátricos. As doações fulcrais feitas por um doente, Salgado de Araújo, precisamente com esse propósito. Isso aconteceu numa altura em que ainda se afastava a psiquiatria da restante medicina. A criação de hospitais psiquiátricos era uma realidade e , finalmente , hoje olhamos para o fim dos internamentos de doentes agudos nestas instituições. O lugar de um doente agudo , que requer atenção imediata e precisa de um internamento , é num hospital geral, no qual tenha acesso a todos os procedimentos necessários para diagnosticar e tratar a sua doença. A psiquiatria de hoje em dia, sendo a área da medicina que fica com os diagnósticos por “exclusão de causa não psiquiátrica”, necessita de laboratório de análises, imagiologia e um ambiente no qual equipas multidisciplinares possam atuar , não faz sentido um doente internado não ter acesso a um serviço de emergência hospitalar ou a observação por quaisquer outras especialidades e técnicos das várias áreas médicas. A questão é que o Júlio de Matos não é apenas um hospital psiquiátrico para doentes agudos. Dentro do hospital há um serviço de reabilitação com doentes crónicos residentes e foram crescendo várias estruturas que servem os doentes em várias fases do seu processo de doença. Há associações que trabalham na reabilitação dos doentes e tentam que reintegrem o mundo do trabalho, que se expressem através da arte ou que façam a transição vigiada para começarem a viver sozinhos novamente. No fundo, é essencial o encerramento de uma parte do Júlio de Matos , o internamento de agudos , mas é incompreensível que não se invista na outra. É o património de Lisboa com o maior potencial para criar uma estrutura de reabilitação moderna e pode até ser a resposta para salvar o investimento do PRR na Saúde Mental (caso ainda estejamos a tempo). Com o passar dos anos e com o crescimento da cidade de Lisboa, o Júlio de Matos viu-se, de repente, no coração de Alvalade. Um jardim, com espaços verdes e lugares de estacionamento. Em vez de se continuar a servir os doentes e a mantê-los neste património que é central, estamos gradualmente a entregar a infraestrutura a instituições que em vez de doentes, trazem pessoas com boas gravatas e botões de punho. Vou listar algumas das instituições às quais foram cedidos pavilhões do hospital: INFARMED; Direção Executiva do SNS; ACSS; Instituto do Sangue; SUCH; Associação do Gil; Associação Humanidades; Centro de Saúde de Alvalade; APAH; UAL; Taipas; ARIA. Não quero negar a importância de algumas destas estruturas para os doentes em Portugal, mas é importante pensar que destas, poucas são aquelas que servem os doentes para quem aquele hospital foi idealizado de forma direta. Como escrevi numa crónica anterior, neste momento há falta de camas na psiquiatria em Portugal. Isso é principalmente violento nos hospitais com internamentos de agudos, com os doentes a ficar à espera de camas em serviços de urgência, “arrumados” em espaços comuns, em macas, separados por cortinas, sem qualquer privacidade e com luz 24h por dia. Parte deste problema deve-se ao facto de não se conseguir dar alta a doentes crónicos dos serviços de agudos. Há falta de serviços de reabilitação, falta de serviços de cuidados continuados e integrados em saúde mental, falta de residências de diferentes níveis de autonomia para reintegrar os doentes e falta de serviços forenses , quer enfermarias, quer estruturas de liberdade para prova. A vantagem do Júlio de Matos é que a base dos pavilhões já lá está. É um absurdo continuarmos a alienar esse património em vez de o reabilitar para aquele que é o seu propósito original. Vejo, no futuro, o hospital a continuar a servir os doentes de forma direta, mas com um tipo de serviços diferentes , e sem qualquer doente agudo. Vejo-o a ser a verdadeira resposta comunitária que tanto se procura na psiquiatria. Haverá algo mais comunitário do que ter os doentes a frequentar o coração de Alvalade? Imagino que se isso acontecer, se possa mandar abaixo os muros que separam o Júlio de Matos da cidade e passar a ter naquele hospital uma base de psiquiatria de reabilitação, comunitária, residências de diferentes níveis de autonomia, cuidados continuados e psiquiatria forense. Um espaço que serve quem precisa , os doentes , e passa a priorizá-los, em vez de priorizar os senhores das gravatas de seda e dos botões de punho brilhantes que querem trabalhar num jardim com estacionamento e poder marcar almoços pelos restaurantes de Alvalade. Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte? Podes apoiar a partir de 1EUR por mês. Sabe Mais [Additional Text]: Devolvam o Júlio de Matos! Henrique Prata Ribeiro