DOENÇAS CRÓNICAS EM PORTUGAL AUMENTAM, SURGEM MAIS CEDO E AFETAM MAIS OS GRUPOS DESFAVORECIDOS
2026-05-05 21:06:17

Uma nova investigação conduzida pela Nova SBE, e divulgada esta terça-feira, revela um cenário preocupante para a saúde pública em Portugal: as doenças crónicas estão a aumentar no país, a manifestarem-se cada vez mais cedo e a assumir formas clínicas progressivamente mais complexas. O estudo destaca ainda um "impacto desproporcional" destas patologias junto das populações com maiores fragilidades económicas. O peso da idade face ao agravamento da carga de doença A análise, desenvolvida pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros (detentor da Cátedra BPI | Fundação "la Caixa" em Economia da Saúde), baseou-se num inquérito realizado a mais de 8.600 pessoas. Os dados demonstram que, entre 2017 e 2025, a prevalência da doença crónica em Portugal subiu de 28% para 36%. Ao contrário do que se poderia prever, este aumento não se deve exclusivamente ao envelhecimento populacional, que justifica apenas 29% da subida. O principal fator (71%) resulta de um agravamento real da carga de doença dentro das diferentes faixas etárias. Embora a prevalência se mantenha mais elevada nos idosos (com um aumento de 14 pontos percentuais na faixa dos 65 aos 79 anos), a investigação alerta para um crescimento significativo entre as gerações mais jovens, registando-se uma subida de oito pontos percentuais nos grupos dos 15 aos 29 anos e dos 45 aos 64 anos. Multimorbilidade: o desafio dos perfis clínicos complexos Uma das conclusões mais alarmantes prende-se com o disparo da multimorbilidade, situação em que o doente sofre de duas ou mais patologias crónicas em simultâneo. Este indicador atingiu os 19%, o que representa uma subida de 10 pontos percentuais no período analisado. Os investigadores alertam que a "expansão da morbilidade ao longo de todo o ciclo de vida adulto" indica que a doença crónica evolui agora para formas mais severas que se acumulam ao longo dos anos, gerando "perfis clínicos progressivamente mais complexos". Este cenário exige do sistema de saúde um acompanhamento mais integrado, contínuo e focado no paciente. A agravante da desigualdade económica O estudo lança também luz sobre o impacto severo da condição socioeconómica na saúde dos portugueses: A probabilidade de uma pessoa com maiores dificuldades económicas vir a sofrer de doença crónica quase duplicou num espaço de oito anos (de 26% em 2017 para 49% em 2025); Em 2025, os indivíduos que enfrentam maiores privações apresentavam uma probabilidade23,5 pontos percentuais superior de serem doentes crónicos, quando comparados com os escalões mais favorecidos. Esta disparidade agrava-se no campo da multimorbilidade, onde a diferença entre os extremos socioeconómicos saltou de quatro (em 2017) para 27 pontos percentuais (em 2025). Os investigadores sublinham o perigo de "um risco crescente de desigualdade cumulativa", frisando que os grupos com maior carga de doença são, tragicamente, "os que enfrentam maiores dificuldades no acesso a cuidados de saúde". O caminho apontado para as políticas públicas Face às conclusões apresentadas, os autores da investigação defendem a urgência de reforçar as políticas públicas, delineando três grandes prioridades para travar o agravamento das desigualdades e dar resposta à complexidade clínica: Reforço na prevenção: Com um foco e alcance muito maiores junto das populações mais vulneráveis; Modelos integrados de gestão: Criação de sistemas que acompanhem os doentes de forma articulada através dos vários níveis de cuidados do Serviço Nacional de Saúde; Redução de barreiras: Facilitar o acesso direto aos cuidados, nomeadamente à medicação e aos Cuidados de Saúde Primários. Redação