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O PAÍS QUE ABRIL AINDA NÃO CUMPRIU

Audiência

2026-05-05 21:06:18

Há datas que não cabem no calendário pesam na consciência de um país. O 25 de Abril é uma delas. Mais de meio século depois da Revolução dos Cravos, continuamos a evocá-lo como o momento em que Portugal recuperou a sua voz. E com razão. Mas a memória, por si só, não chega. O verdadeiro respeito por Abril exige mais do que celebração: exige confronto. Confronto com o presente.com coragem, a mesma coragem que, um dia, mudou o rumo da História. Durante décadas, acomodámo-nos à ideia de que a liberdade conquistada era, em si mesma, suficiente. Não é. Nunca foi. A liberdade abre portas, não resolve o que está para lá delas. E hoje isso sente-se. Não nos discursos ofci iais, mas na vida concreta. Há um cansaço surdo no país. Um desgaste que não se mede em estatísticas, mas em expressões, em silêncios, em resignação. Não é só o custo de vida ou a instabilidade externa. É algo mais fundo: uma erosão persistente da confiança. E quando a confiança se quebra, o edifício começa a ceder. A perceção de corrupção, muitas vezes difusa, raramente plenamente esclarecida, infiltra-se no quotidiano. Não precisa de sentença para produzir efeito. Basta a dúvida. Basta a suspeita de que há decisões que não servem o interesse coletivo. Quando um país começa a acreditar que as regras não são iguais para todos, já perdeu mais do que credibilidade, perdeu coesão. Mas não é só isso. Há uma forma de governar que inquieta. Decisões anunciadas com firmeza e desfeitas com ligeireza. Medidas improvisadas, construídas sem escuta, sem estudo, sem visão. Governa-se ao ritmo da urgência, da manchete, da reação. Não se governa com estratégia. E um país não se constrói assim. Um país precisa de estabilidade. Precisa de pre-visibilidade. Sem isso, não há investimento. Não há crescimento. Não há futuro. As empresas, sobretudo as pequenas e médias, que sustentam grande parte do tecido económico, não vivem de intenções. Vivem de regras claras. De enquadramento estável. De confiança no rumo. Quando as regras mudam a meio do jogo, o que se instala não é dinamismo, é paralisia. E a paralisia tem custo. Custa investimento perdido. Custa empregos que nunca chegam a existir. Custa salários que ficam para trás. O mais inquietante? Muitos destes erros são evitáveis. Falta o essencial: entendimento. Compromissos sérios, de médio e longo prazo, que sobrevivam ao calendário político. Não se exige unanimidade, exige-se maturidade. Exige-se responsabilidade. Porque governar não é reagir. É antecipar. É ouvir. É decidir com consciência de que cada medida tem impacto real na vida das pessoas. Apesar de tudo, o país resiste. Porque há quem traba-lhe, quem arrisque, quem insista. Há uma base sólida que continua a segurar Portugal, muitas vezes em silêncio. Mas essa base não é inesgotável. E não pode continuar a ser testada até ao limite. A Constituição consagra direitos claros: saúde, habitação, dignidade. Mas para muitos portugueses, esses direitos continuam a ser promessas adiadas. O Serviço Nacional de Saúde resiste, mas sob tensão constante. A habitação tornou-se inacessível para quem traba-lha. E o trabalho, por si só, já não garante segurança. Isto não se resolve com palavras. Resolve-se com rumo. Mais de 50 anos depois de Abril, a pergunta impõe-se: Que país queremos ser? Um país que normaliza a improvisação? Que se habitua à instabilidade? Que aceita a dúvida como regra? Ou um país que exige rigor, transparência e visão? Um país onde a liberdade não é apenas proclamada, mas praticada, na economia, na justiça, nas instituições? Celebrar o 25 de Abril não pode ser um exercício confortável de memória. Tem de ser um ato exigente de responsabilidade. Celebrar Abril é recusar o que o desvirtua: a opacidade, o improviso, a falta de direção. Porque a liberdade não vive no discurso. Vive nas decisões. Vive na forma como se governa. Vive no respeito por quem trabalha e sustenta o país. E o maior desafio de hoje é simples e duro: estar à altura de Abril. Não nas palavras. Nas escolhas Alfredo Gonçalves