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AVEIRAS DE CIMA PRECISA DE MUDANÇA E PROJECTOS QUE A FAÇAM ANDAR PARA A FRENTE

O Mirante

2026-05-08 21:06:27

Um homeopata que cria cavalos A homeopatia entrou na vida de Rodrigo Conceição por causa da irmã, na altura diagnosticada com doença de Lyme. Foi numa ervanária, quando procurava algo para a ajudar, que recebeu o conselho de procurar um homeopata. A melhoria que diz ter observado na irmã impressionou-o e abriu-lhe uma porta inesperada. Fez formação e hoje, 20 anos depois, continua a dar consultas numa clínica sua em Aveiras de Cima e na Madeira. Não fala nem olha para a homeopatia como uma inimiga da medicina convencional. Pelo contrário, podem coexistir, afirma, reconhecendo que há situações em que não duvida que o caminho deve ser o hospital. Gosta mais de falar em pessoas doentes do que em doenças e, na sua visão, cuidar é olhar para o todo e não apenas para a parte do corpo que dói. Acredita profundamente na ligação entre mente e corpo, afirmando que tudo começa no pensamento e que aquilo que se pensa e sente pode deixar marcas no corpo. Por isso medita todos Os dias. Para o autarca, o pensamento treina-se como quem afina uma rádio até encontrar melhor sintonia. Pai de quatro filhos, entre eles um adoptivo e um bebé nascido há poucos dias, fala da adopção sem dramatismos, mas com emoção. Já tinha pensado em adoptar, mas não naquele momento em que tinha uma filha pequena. No entanto, quando surgiu a oportunidade de adoptar um menino de 10 anos acolhido pela Casa do Pombal , A Mãe, instituição de Aveiras de Cima, entendeu que não podia fechar a porta. Foi, diz, um grande acto de amor. Um amor diferente na forma como nasce e se constrói. “Na adopção, o amor vai-se fazendo no encon-tro, no dia-a-dia, na escolha mútua. Mas é filho da mesma maneira”, vinca. Entre os seus pilares estão os pais, os avós, a família e o prior António José Cardoso, figura que considera uma referência humana e espiritual. Do pai, que foi autarca, admite ter herdado proximidade ao Partido Socialista, mas sobretudo uma lição maior: ser honesto e verdadeiro. Ligado ao mundo rural, continua a criar cavalos lusitanos, paixão antiga herdada do avô que o enche de orgulho. Por isso, quando surgiram críticas por ter ido trajado à portuguesa na sua primeira àvinho como presidente de junta, não se sentiu deslocado. “Sempre fui assim ao desfile [etnográfico], antes de ser presidente da junta, quando conduzia o tractor do lar. Não me senti desenquadrado. e O meu traje, a minha identidade, a maneira como também honro uma tradição familiar”. E deixa a promessa: “Para o ano farei o mesmo” Aos 49 anos, Rodrigo Conceição chegou à presidência da Junta de Aveiras de Cima sem nunca ter feito disso um objetivo de vida. Homeopata, criador de cavalos, pai de quatro filhos e figura conhecida da comunidade, diz que foi desafiado, preparou-se e acabou por abraçar uma missão que assume por inteiro: servir a população. Nesta entrevista fala sobre os primeiros seis meses de mandato: da necessidade de mudança à falta de civismo, sem esquecer os mega projectos para a freguesia e os que estão num impasse há demasiado tempo. Rodrigo Conceição está a cumprir o seu primeiro mandato como presidente da Junta de Freguesia de Aveiras de Cima, autarquia do concelho de Azambuja conquistada nas últimas eleições pelo PS à CDU, que a governava há décadas. Nesta conversa, que decorreu no seu gabinete ao som da frequência 963 Hz que usa para promover o relaxamento, a palavra “serviço” surge inúmeras vezes, quase como se para o autarca funcionasse como uma espécie de bússola interior num percurso de vida onde entra a homeopatia, a família numerosa, a adopção, a fé, os cavalos lusitanos e a causa pública. Porque quis ser presidente de junta? A minha mãe foi durante muitos anos funcionária nesta junta e, por isso, sempre vivi este espaço por dentro. Conhecia os cantos à casa, mas não conhecia o trabalho autárquico. Via a minha mãe, ajudei-a até na transição para a era digital, mas nunca me passou pela cabeça ser presidente de junta. O presidente Silvino já me tinha convidado duas vezes para integrar listas, mas recusei por uma razão muito simples: os convites chegavam em cima da hora e a três ou quatro meses das eleições eu não seria candidato a nada. . O que mudou então? Há quatro anos, voltou a insistir e disse-lhe que se me quisesse convidar tinha de ser com antecedência de pelo menos um ano para me poder preparar e saber quais as necessidades da freguesia. Passadas umas horas, ligou-me outra vez e disseme: “Já tenho a solução. Vais em segundo lugar para a assembleia municipal e daqui a quatro anos falamos.” Fiquei a pensar e achei que podia ser uma oportunidade para fazer alguma coisa útil, e aceitei. . Apressou-se a anunciar a sua candidatura à freguesia, tendo sido o primeiro a fazê-lo ainda em 2024, por ter muita pressa de a mudar? O PS tinha muita vontade de recuperar Aveiras de Cima ao PCP, que consolidou e foi continuando porque o povo assim entendeu ou porque, talvez, o PS não tenha tido candidatos capazes de fazer frente. Aveiras de Cima precisava de mudança. Tenho uma convicção de princípio: quando se fica muito tempo no mesmo lugar, deixa de haver novidade, deixa de haver energia nova, outra forma de olhar para os problemas. As pessoas também envelhecem nas funções, ficam mais previsíveis, mais ultrapassadas. E hoje tudo muda tão depressa que, se não estivermos atentos, somos ultrapassados. Que mudança Aveiras de Cima precisa? precisa? Precisa de educação comunitária. Digo isto sem rodeios: Aveiras precisa de aprender mais a viver em comunidade. E isso não se ensina apenas com aulas. Ensina-se pelo exemplo, pela partilha, pela insistência, mostrando às pessoas que é possível ter ruas limpas, espaços bonitos, fachadas cuidadas, o espaço em frente à casa arranjado. Isso também é comunidade. Acha que esse espírito de comunidade se perdeu? Sim, pelo menos em parte. Não digo que as pessoas não saibam viver em conjunto, porque quando há festas, eventos ou iniciativas, elas participam, ajudam. Mas no cuidar do espaço comum perdeu-se alguma coisa. Antigamente havia menos associações. Havia o clube, a filarmónica, a igreja. Hoje temos 17 associações e colectividades. Isso mostra vitalidade, mas também cria dispersão. Cada um puxa para o seu lado. E isso, no fim, prejudica O todo. Isso também se reflecte na forma como as pessoas olham para o espaço público? Sem dúvida. E não é só em Aveiras, é um problema geral. Cada um olha para o seu umbigo, para a sua conveniência imediata, e esquece-se de que o espaço é de todos. A liberdade também é isso: perceber que o outro existe, que o outro também é livre, que temos todos os mesmos direitos e os mesmos deveres. Falava há pouco do lixo. O problema é assim tão grave? e. E O que me assusta é que a junta criou condições. Uma das nossas prioridades foi abrir um espaço onde as pessoas pudessem deixar colchões, camas, verdes, tudo aquilo que já não querem. Esse espaço existe, fica nas Salgadas, e está aberto 24 horas por dia. Mas, mesmo assim, continua a haver lixo junto aos contentores, móveis no chão, cartão misturado com plástico, coisas deixadas de qualquer maneira. Mas vamos insistir, com pedagogia e, se for preciso, coimas. Digo muitas vezes aqui aos funcionários: “temos de lhes ensinar”. Já virou quase uma frase da casa. Se as pessoas não sabem, então temos de mostrar, repetir, insistir, até perceberem que é possível fazer melhor. O que mudou na sua vida desde que assumiu a presidência? Mudou sobretudo a gestão do tempo. Já tinha uma vida cheia: como médico homeopata dou consultas em vários pontos do país, faço criação de cavalos lusitanos, acabei de ser pai novamente. E agora passei a estar a tempo inteiro na junta, embora sem exclusividade. Isso obriga a um jogo de equilíbrio muito grande. O telefone toca mais? Muito mais. Se já tocava bastante, agora também toca porque há buracos na estrada, lixo fora do contentor, um sinal caído, uma reclamação qualquer. Mas não me incomoda nada, pelo contrário: é sinal de proximidade. E acho que um presidente de junta tem de ser isso mesmo, uma pessoa acessível. . O presidente de junta ainda é essa figura de proximidade a quem se recorre em primeira instância? Sim e notou-se bem nas últimas intempéries. As pessoas ligam primeiro para a junta. E, embora a junta tenha limitações de competências, já disse aos funcionários que estamos aqui para resolver os problemas das pessoas, mesmo quando o assunto é da câmara. Recebemos, encaminhamos, pressionamos, acompanhamos. Não podemos dizer às pessoas: isso não é connosco. Como encontrou a junta quando tomou posse? Encontrei uma junta bem organizada, financeiramente estável, sem dívidas, com tudo controlado. Isso era uma das minhas preocupações e, nesse aspecto, fiquei descansado. Havia apenas um crédito a decorrer relacionado com a instalação de um elevador, que termina agora. . E a nível de projectos? Achei a junta parada. Talvez não faltassem ideias, mas faltava pô-las em andamento. Quero fazer a diferença precisamente aí: pegar nas coisas e fazê-las avançar. Um dos projectos mais imediatos é a renovação das casas-de-banho do mercado diário, que também queremos dinamizar e tornar mais funcional. Pensamos criar ali uma cozinha comunitária, porque aquele espaço acolhe muitos eventos e faria sentido ter uma infraestrutura que pudesse servir todos. . As juntas de freguesia dependem demasiado das câmaras? Dependem muito. O nosso orçamento ronda os 400 mil euros e, em números redondos, metade vai para pessoal. O resto tem de dar para tudo. O que recebemos em taxas, licenças e rendas é pouco. Dependemos muito da câmara e da administração central. As juntas ainda estão muito limitadas. Aqui, se quero fazer alguma coisa tenho de pensar se tenho financiamento, não basta sonhar. Isso devia mudar? Devia. Até porque há coisas absurdas: recebemos dinheiro do Estado e devolvemos logo uma parte ao Estado em Segurança Social, IRS, IVA. E um circuito que faz pouco sentido. Esse dinheiro podia ficar na freguesia e ser investido aqui. Uma junta também deve procurar financiamento externo? Sem dúvida. Não podemos viver sempre a reboque da câmara. Temos de procurar candidaturas e é o que estamos a fazer, por exemplo, com o projecto para reformular a Festa das Malhadinhas, dando-lhe uma dimensão mais cultural, mais comunitária, envolvendo escolas, associações e gerações “Estou aqui para servir Aveiras de Cima, não para servir interesses partidários” Casas devolutas e degradadas contribuem para o aumento da crise da habitação. E um assunto que o preocupa? Tenho essa preocupação há muito tempo. Nunca gostei de ver casas devolutas, em ruína ou por acabar. E um desperdício enorme, sobretudo numa altura de crise habitacional. E as últimas intempéries mostraram-nos bem a quantidade de casas devolutas que existem. . Aveiras pode vir a crescer muito nos próximos anos? Pode e, na minha opinião, vai crescer muito. Temos vários projectos à volta da freguesia que podem mudar completamente esta realidade. Se tudo avançar, Aveiras pode dar um salto enorme em termos habitacionais, económicos e populacionais. Falemos do anunciado megaprojecto Aveiras Eco Valley. Conhece as empresas promotoras, a Averrões, Avicena e Alkindus? Não. Conheço O projecto, ou melhor, o estudo prévio, mas não conheço os rostos por trás das empresas nem reuni com elas. A informação que tenho foi-me transmitida pelo presidente da câmara. . Preocupa-o saber que são empresas com baixo capital social? Isso é uma preocupação. Não me debrucei a fundo sobre o tema, tenho aguardado o desenrolar dos acontecimentos. A câmara lançou há pouco tempo a consulta pública para o plano pormenor, mas se essas empresas têm baixo capital como vão realizar todo aquele investimento? Preocupa-me, mas espero que haja mais consistência por trás. Teme que se transforme numa nova promessa falhada, como aconteceu com outros projetos do passado como a Lusolândia? Temo que possa ser uma nova Lusolândia, sem dúvida. Agora, também acredito que, se alguns projectos estruturantes da zona avançarem, como a Cidade do Futebol, outros podem avançar, por haver mais interesse e movimento. Aveiras está preparada, em termos de infraestruturas, para receber os anunciados 10 mil novos residentes para esse complexo industrial e habitacional? Neste momento, não. Teremos de preparar a freguesia e o concelho com infraestruturas. A rede viária já hoje começa a dar sinais de pressão. Quem sai de Aveiras ao fim do dia já apanha filas, porque há um grande fluxo que há uns anos só se passava em Vila Franca ou Alverca. E isso é uma preocupação, ainda mais se vierem mais 10 mil pessoas. Num concelho onde a falta de médicos de família é problema crónico vê com bons olhos a implementação de duas unidades de saúde familiar com gestão privada? Com bons olhos, não vejo. Preferia que fossem modelo B, não acho que tenham de ser os privados a resolver esta situação. Acho que O Serviço Nacional de Saúde foi um ganho para as pessoas, sobretudo as mais fragilizadas. Ainda bem que os privados existem, mas não deviam ser a solução de base para resolver a falta de médicos de família. Que opinião tem sobre o projecto Bata Branca implementado no concelho? Tem sido a nossa salvação e ainda bem que existe, mas é daquelas coisas que me fazem confusão. Percebo que, legalmente, se montem mecanismos para contratar médicos através de entidades intermédias, mas isso mostra bem como se burocratiza demais. Se a solução não funciona, muda-se a lei. Não devia ser preciso, neste caso, a câmara ter de fazer jogos administrativos com a Cerci para poder contratar médicos e resolver um problema tão básico como pôr um médico a atender pessoas. Qual tem sido o maior desafio nestes primeiros meses? Chegar a todo o lado e aceitar que as coisas não andam à velocidade que gostava. Sou muito prático, vejo um problema e quero resolvê-lo. Nos cavalos, uma cerca parte-se e arranja-se logo. Aqui nem sempre é assim. Falta, âS vezes, dinheiro, faltam meios, há procedimentos... mas o balanço que faço é positivo. Temos apostado em melhorias no espaço público e numa nova forma de organizar eventos como o são Martinho e O Mercado de Natal. Há algum projecto que gostaria mesmo de concretizar até ao fim do mandato? Vários, mas destaco alguns: criar um armazém digno para os equipamentos da junta, eventualmente articulado com o ecocentro. Outro é pôr a funcionar O Parque da Milhariça, que ainda falta passar para a gestão da junta. Este impasse burocrático fazme muita confusão. O parque está permanentemente a ser destruído e, se passasse para nós, avançávamos logo com soluções, com concurso para o café, até porque há uma pessoa interessadíssima, com manutenção, com dinamização. Queremos fazer um caminho pedonal entre a EB 2,3 e o parque, e desenvolver o programa Aveiras de Cima com História que passa por misturar com o quotidiano figuras da antiguidade, com estátuas, fotografias acompanhadas de explicação, de carácter permanente. E a nível turístico, o que é que Aveiras tem hoje para mostrar e como se pode desenvolver? Temos alguns pontos importantes: o Parque da Milhariça, o Parque das Malhadinhas, a Escola Grandela, o portal manuelino da Quinta do Mor, a igreja, a tradição vitivinícola. Dizemo-nos Vila Museu do Vinho, mas falta um espaço museológico mais concreto, mais físico. A câmara está a negociar a compra das antigas instalações da SIVAC, precisamente para criar um espaço-museu ligado ao vinho. Temos de criar, recuperar a identidade que tínhamos. E o antigo cinema? Está num impasse há demasiado tempo. O projecto que existe é interessante, mas estamos a falar de cerca de seis milhões de euros. E muito dinheiro e é muito focado em ser sala de espectáculos muito focado no cinema, que depois não vai ter utilidade. E tenho uma ideia alternativa: manter a fachada, preservar a memória, mas libertar o resto do espaço para ampliar o largo, criar uma zona mais aberta, com verde, esplanadas, vida. Agora, isso só faz sentido se houver outras respostas culturais noutros espaços como o anfiteatro natural e criar salas de reuniões e espectáculos nos pavilhões na antiga SIVAC. A população não deveria ter uma palavra a dizer em situações como esta? Cabe aos políticos decidir, mas cabe-lhes também ouvir. A população tem de ser auscultada e depois ser feita a triagem. Temos uma percentagem da população que viveu o cinema e outra a quem o cinema não diz nada. . Como imagina Aveiras daqui a 10 anos? Com muito mais gente, muito movimento e um grande desenvolvimento. Mas isso exige preparação desde já: rede viária, escolas, serviços, equipamentos. Aveiras está num ponto estratégico e tem espaço para crescer. Provavelmente, será a freguesia do concelho que mais vai crescer na próxima década Rodrigo Conceição está a cumprir o primeiro mandato como presidente da Junta de Aveiras de Cima Aveiras precisa de aprender mais a viver em comunidade. E isso não se ensina apenas com aulas. Ensina-se pelo exemplo, pela partilha, pela insistência Autarca defende que as juntas de freguesia não podem andar a reboque das câmaras Como médico homeopata dou consultas em vários pontos do país, faço criação de cavalos lusitanos, acabei de ser pai novamente. E agora passei a estar a tempo inteiro na junta, embora sem exclusividade. * ** Já disse aos funcionários que estamos aqui para resolver os problemas das pessoas