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INOVAR PARA CUIDAR: SUSTENTABILIDADE NA MEDICINA DENTÁRIA

Diário de Coimbra

2026-05-08 21:06:27

Na Medicina Dentária, a sustentabilidade tem ganho importância crescente nas dimensões social, económica e ambiental, sendo há muito objeto de atenção no trabalho da Ordem dos Médicos Dentistas. Ser sustentável é contribuir para uma sociedade mais justa e responsável, criando condições para que estas vertentes evoluam de forma sólida e duradoura. A estratégia da OMD está alinhada com a sua visão, valores e missão, bem como com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, integrados na Agenda 2030. Em termos práticos, tem incentivado medidas para reduzir desperdício, melhorar a eficiência energética e otimizar consumíveis, promovendo boas práticas junto dos seus membros e nos eventos que organiza. A Medicina Dentária é marcada pela evolução tecnológica. A modernização dos equipamentos e dos fluxos de trabalho tem tornado a profissão mais efi- ciente e sustentável. Os scanners intraorais são um bom exemplo: em muitos procedimentos substituem impressões convencionais com materiais descartáveis, reduzem modelos físicos, simplificam etapas laboratoriais e limitam transportes entre consultórios e laboratórios. A digitalização não é apenas modernidade ou conforto clínico; é uma forma de cuidar melhor dos recursos. Menos materiais, repetições e deslocações, associados a maior previsibilidade dos tratamentos, significam menor impacto económico e ambiental. O futuro da Medicina Dentária será cada vez mais marcado pela tecnologia, pela inteligência artificial, pelos fluxos digitais e por tratamentos mais precisos e integrados. Mas a sustentabilidade em saúde oral não se esgota no consultório. Depende também da forma como organizamos o acesso aos cuidados. Num país com assimetrias territoriais evidentes, obrigar um doente a percorrer dezenas ou centenas de quilómetros para realizar um tratamento dentário tem custos além do ato clínico: transporte, tempo perdido, absentismo laboral, desgaste familiar, adiamento de tratamentos e impacto ambiental. É neste ponto que a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde deve integrar a saúde oral. A criação da carreira de médico dentista no SNS representa uma oportunidade histórica. Importa agora pensar um modelo que aproxime cuidados das populações e utilize melhor os recursos existentes. A instalação de gabinetes de Medicina Dentária em unidades periféricas será essencial, mas deve também ser ponderada a articulação com a rede de clínicas privadas, muitas vezes próxima das populações e com capacidade instalada. A articulação entre setor público e privado não deve ser encarada como fragilização do SNS, mas como oportunidade para o tornar mais próximo, ágil e sustentável. Exige regu-lação, transparência, critérios clínicos, avaliação de resultados e garantia de qualidade. O objetivo não deve ser apenas tratar mais, mas tratar melhor, mais cedo, evitando que a ausência de cuidados atempados se transforme em doença mais complexa, dispendiosa e difícil de resolver. A prevenção é, neste contexto, o maior instrumento de sustentabilidade. Esta visão está em linha com a Federação Dentária Internacional, segundo a qual prevenir doença oral é uma das formas mais sustentáveis de assegurar saúde oral acessível, eficaz e com menor impacto ambiental. Cada doença oral prevenida representa menos consultas, materiais, medicamentos, deslocações e menor custo para o doente, as famílias e o sistema. A sustentabilidade em Medicina Dentária começa muito antes da cadeira do consultório: na literacia em saúde, na promoção de hábitos adequados, no acompanhamento regular, na integração da saúde oral nos cuidados primários e na capacidade de chegar às populações mais vulneráveis. Começa também na formação dos novos médicos dentistas, já preparados num contexto em que inovação tecnológica, responsabilidade ambiental e utilização criteriosa dos recursos fazem parte da prática clínica. Inovar para cuidar é compreender que tecnologia, prevenção e proximidade são dimensões complementares da mesma resposta. Uma Medicina Dentária mais sustentável previne mais doença, utiliza melhor os recursos, reduz desperdício, evita deslocações desnecessárias, integra público e privado de forma responsável e garante que ninguém fica excluído por viver longe dos grandes centros. Salomão Rocha Representante da Região Centro no Conselho Diretivo da OMD Salomão Rocha